domingo, agosto 03, 2025

Trump, Lula e o tarifaço: um telefonema entre a farsa e a diplomacia


Trump: ‘Lula pode falar comigo quando quiser’

Pedro do Coutto

A diplomacia é feita tanto de gestos quanto de silêncios. E, no momento, o silêncio do presidente Lula da Silva diante do convite informal de Donald Trump para um telefonema tem mais força do que palavras. Em entrevista recente nos jardins da Casa Branca, Trump afirmou que está pronto para conversar e que Lula pode ligar “quando quiser”.

Mas esse gesto aparentemente amigável soa, no mínimo, contraditório. Afinal, o mesmo presidente impôs, sem qualquer aviso prévio, tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros como aço, alumínio, carne, café e etanol. Como confiar em um interlocutor que age unilateralmente, punindo um parceiro comercial de forma tão agressiva, e depois diz estar “aberto ao diálogo”?

GESTO POLÍTICO – Esse é o cerne da hesitação de Lula. O presidente brasileiro sabe que não se trata apenas de uma ligação telefônica. Trata-se de um gesto político com implicações amplas. Um telefonema, nesse contexto, poderia ser interpretado como submissão, como uma tentativa desesperada de reverter uma punição que nunca deveria ter existido.

Trump tem se caracterizado por um estilo errático e performático, onde decisões extremas são tomadas de forma impulsiva e revertidas com igual velocidade, dependendo do cálculo político do momento. Um dia impõe tarifas draconianas, no outro, insinua que pode recuar — sem explicar quanto, quando ou como.

A dúvida central é: até onde Trump estaria disposto a recuar? O tarifaço foi amplo e agressivo. Um recuo parcial não resolveria o problema. Mas Trump não é conhecido por oferecer concessões completas. Lula, por sua vez, mede com cuidado os prós e contras de aceitar o contato.

SOBERANIA – Não se trata apenas de economia — é também uma questão de soberania e dignidade nacional. Falar por falar pode alimentar a narrativa de que o Brasil aceitou calado uma punição e agora se submete a um jogo de cena.

Nos bastidores, cresce também a suspeita de que figuras ligadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, como seu filho Eduardo Bolsonaro, estejam articulando pressões junto ao governo Trump para dificultar a vida do atual governo brasileiro. Seria uma espécie de sabotagem diplomática, feita em silêncio, mas com repercussões concretas.

RUÍDOS – Não é coincidência que, ao mesmo tempo em que as tarifas são impostas, surgem ruídos na relação entre os dois países e se multiplicam ataques velados à condução da política externa brasileira.

A situação coloca Lula diante de uma escolha delicada: manter-se firme e esperar que os Estados Unidos ofereçam um gesto concreto de recuo — o que reforçaria sua posição interna e internacional — ou aceitar o diálogo em condições desfavoráveis, correndo o risco de ser usado como figurante em mais um episódio do espetáculo trumpista. Não é uma decisão simples. A balança entre a diplomacia estratégica e a defesa da soberania nacional é sempre sensível.

Por ora, o telefone permanece no gancho. E talvez esse silêncio diga mais do que qualquer conversa apressada. Se Trump quer, de fato, negociar, precisa demonstrar isso com medidas reais, não com frases de efeito. O Brasil não pode ser tratado como um parceiro de segunda categoria, sujeito a humores e cálculos eleitorais. A confiança, nesse caso, é uma via de mão dupla — e quem quebrou esse vínculo primeiro não foi Lula.


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