sábado, maio 31, 2025

A Praça que Virou Pousada: Omissão e Prevaricação dos Vereadores de Jeremoabo


Com todo respeito que dedico aos leitores deste espaço, quero deixar claro que minha parte eu fiz. Denunciei, alertei e expus, ainda no início, o absurdo que estava em curso: um terreno público, pertencente ao povo de Jeremoabo e destinado à construção de uma praça, foi simplesmente apropriado para fins particulares. No lugar da praça sonhada por muitos, surgiu uma pousada privada, construída pelo então procurador do município — alguém que, ironicamente, deveria zelar pela legalidade e pelo interesse público.

Esse terreno, que deveria servir de espaço de lazer e convivência para a comunidade, foi invadido e transformado em empreendimento particular. O fato é grave por si só, mas mais grave ainda é o silêncio cúmplice daqueles que têm, por dever de ofício, a obrigação de fiscalizar: os vereadores.

É revoltante constatar que, diante de uma apropriação indevida de um bem público, os vereadores — eleitos e regiamente pagos com dinheiro do povo para exercerem o papel de fiscalização e defesa da legalidade — nada fizeram. Foram omissos. E a omissão, nesse caso, é mais do que um ato passivo: é uma forma de prevaricação. Sabiam, tinham o dever de agir, mas optaram pelo silêncio conveniente. E quando o silêncio protege o erro, ele se torna cumplicidade.

Não sou eu o salvador da pátria. Fiz o que estava ao meu alcance, como cidadão consciente e comprometido com o bem coletivo. A responsabilidade agora é daqueles que possuem o mandato e os instrumentos legais para agir — mas preferem fingir que nada está acontecendo. Talvez por medo, talvez por interesses, talvez por pura negligência.

O povo de Jeremoabo tem os vereadores que merece. E enquanto essa consciência não for despertada nas urnas e nas ruas, práticas como essa continuarão a acontecer. Porque onde não há cobrança, não há mudança.

A pousada construída no terreno que era da Prefeitura é mais do que um escândalo: é um símbolo do abandono da função pública, da inversão de valores e da triste realidade de um Legislativo que se acovarda diante dos poderosos.

Fica o registro. A história julgará.

Bolsonaro fala em vencer com ajuda de Trump e diz que Eduardo estaria preso no Brasil

 Foto: Reprodução/Instagram/Arquivo

O ex-presidente Jair Bolsonaro, durante viagem ao Ceará nesta sexta-feira (30)30 de maio de 2025 | 17:54

Bolsonaro fala em vencer com ajuda de Trump e diz que Eduardo estaria preso no Brasil

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O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) afirmou, nesta sexta-feira (30), em Fortaleza que contará com a ajuda do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para vencer as eleições de 2026. Bolsonaro comparou a sua derrota nas eleições de 2022, com a derrota de Trump, em 2020, e comemorou o retorno do americano ao poder.

“Nós venceremos com a ajuda de Deus e também a ajuda de outro país lá do norte. Engana-se aqueles achando que só nós temos condições de reverter esse sistema. Precisamos de ajuda de terceiros e tem vindo na hora certa”, disse o ex-presidente, durante seu discurso no 2º Seminário Nacional de Comunicação do PL, no Ceará.

O ex-presidente está inelegível até 2030 devido a condenação na Justiça Eleitoral, mas tem insistido de que vai concorrer no próximo ano. Ele também responde a processo relacionado à trama golpista de 2022 e, se condenado, pode receber penas somadas de mais de 40 anos de prisão.

Em Fortaleza, Bolsonaro disse ainda ter construído uma relação de “amizade” com o presidente americano, mas “sabendo o meu lugar”. Também defendeu a ida do seu filho, o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), para o exterior. Segundo ele, se o filho tivesse ficado no Brasil, estaria preso.

“Dói para um pai ser afastado de um filho, mas eu estou feliz por estar fora do Brasil. Pra mim, um garoto, mas um homem de 42 anos de idade, que abandona tudo aqui para lutar por nós lá de fora. Ele não poderia estar aqui. Se estivesse aqui, não seria um passaporte, seria, com toda certeza, uma prisão”, afirmou o ex-presidente.

Eduardo Bolsonaro deixou o país em março, alegando perseguição e medo de ter seu passaporte apreendido. À época, ele ainda não era investigado.

No entanto o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), determinou a abertura de inquérito para investigar o deputado licenciado por possíveis crimes de coação, obstrução de investigação e tentativa de abolição violenta do Estado democrático de Direito.

Para a corte, as declarações públicas e postagens do parlamentar instigam o governo americano a impor sanções contra o STF, integrantes da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Federal.

“Nós não tememos as acusações, o problema é quem vai nos julgar”, criticou Bolsonaro.

O ex-presidente disse ser “o político mais perseguido da história do Brasil” e defende que “tentaram de tudo” contra ele.

“Queriam botar na minha conta a morte da Marielle Franco, a questão dos presentes sauditas, vacina, baleia, dezenas e dezenas de acusações. Ficaram agora na fumaça do golpe. Eu fui pra Disney para dar um golpe”, ironizou o ex-presidente.

Bolsonaro disse também que o celular “é o último obstáculo” para impor uma “ditadura” no Brasil. “Passou aqui representantes da Google e da Meta. Estão do lado certo”, disse se referindo às palestras de integrantes das duas empresas.

Bolsonaro disse também que os problemas do Nordeste, como a falta de oportunidade de emprego, que fazem as pessoas migrarem para os estados do Sul e Sudeste, ocorrem pelas escolhas políticas dos nordestinos.

Segundo o ex-presidente, a esquerda domina a região “há 20 anos ou mais”. “A origem dos problemas são as nossas escolhas. Aqui deveria ser a região melhor do Brasil, tendo em vista o que a esquerda prega. Acaba sendo o contrário”.

Ele afirmou que, hoje, Santa Catarina é o “melhor estado” porque “o PT nunca passou por lá”.

Anistia na pauta

O deputado federal Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara dos Deputados, também esteve no evento.

O parlamentar disse ter se encontrado com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), ontem (29), para falar sobre o projeto de anistia dos réus dos ataques de 8 de janeiro de 2023.

“O projeto da anistia será pautado nas próximas semanas com um texto que ele [Hugo Motta] está construindo. Então, nós vamos votar e as pessoas voltarão aos seus lares e às suas famílias. E as pessoas que depredaram patrimônio público responderão pelos seus crimes”, afirmou o líder do PL.

No Ceará, o ex-presidente se reuniu com vereadores, deputados estaduais e federais cearenses sobre as eleições de 2026.

Bolsonaro conversou também com o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio, que deixou o PDT também na quinta-feira (29) com destino ao União Brasil. Ele é o pré-candidato apoiado pelo ex-ministro Ciro Gomes (PDT) para disputar o governo do Ceará, contra a reeleição do governador Elmano de Freitas (PT).

Maurício Moreira, Folhapress

Justiça cassa vereador de SP por repostar laudo falso de Marçal contra Boulos

 Foto: Reprodução

Vereador Rubinho Nunes com Pablo Marçal, então candidato à Prefeitura de SP30 de maio de 2025 | 21:15

Justiça cassa vereador de SP por repostar laudo falso de Marçal contra Boulos

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A Justiça Eleitoral determinou nesta sexta-feira (30) a cassação do mandato do vereador de São Paulo Rubinho Nunes (União Brasil), por ter repostado em suas redes sociais laudo falso publicado por Pablo Marçal no qual associava Guilherme Boulos ao uso de cocaína, na campanha municipal de 2024.

A decisão é de primeira instância, e o vereador irá recorrer.

Na decisão, o juiz Antonio Maria Patiño Zorz também condeniou Rubinho a oito anos de inelegibilidade.

Em sua defesa, o parlamentar disse que manteve a postagem no ar por apenas 26 minutos e que não sabia que o laudo era falso.

O vereador também se apegou ao fato de o Ministério Público Eleitoral ter se manifestado de forma contrária à inelegibilidade por oito anos.

“Respeito a decisão do magistrado, mas discordo veementemente. Iremos recorrer ao TRE com consciência de que não houve qualquer ilegalidade”, afirma Rubinho.

“Em relação à repostagem do laudo, havia sido publicada pelo candidato a prefeito [Marçal], sem qualquer interferência minha. Tão logo surgiram notícias sobre a falsidade do laudo, a postagem foi imediatamente retirada”, completa o vereador.

Para o juiz, o argumento de que Rubinho não sabia da veracidade do laudo não é suficiente para afastar a sua responsabilidade.

“Entendo que o compartilhamento do laudo falso divulgado em meio de comunicação social, o Instagram do próprio candidato, encerra em si mesmo conduta ilícita que ostenta a potencialidade de lesar o bem jurídico protegido, a legitimidade das eleições”, escreveu Zorz.

A decisão indica que o próprio Marçal tem grande chance de ser tornado inelegível. Ele foi denunciado nesta quinta pelo Ministério Público pela divulgação do laudo falso e por suposta difamação no pleito de 2024.

Ao saber da punição ao vereador, Boulos se manifestou. “A cassação de Rubinho Nunes, bem como a denúncia contra Pablo Marçal, pela divulgação de fake news absurdas contra nossa candidatura em 2024 é uma vitória, ainda que tardia, da democracia”, disse o psolista. “Que a Justiça seja feita, e ambos paguem por seus crimes.”

A ação foi movida por Leonardo Grandini, candidato a vereador pelo PSOL em São Paulo e que acabou não sendo eleito.

Carlos Petrocilo/Folhapress

Houve estratégias machistas de desqualificação do meu trabalho, diz Nísia

 Foto: José Cruz/Agência Brasil/Arquivo

Ex-ministra da Saúde Nísia Trindade31 de maio de 2025 | 07:30

Houve estratégias machistas de desqualificação do meu trabalho, diz Nísia

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Mesmo a longa trajetória na área da saúde não impediu a ex-ministra Nísia Trindade de ser o primeiro alvo da reforma ministerial ensaiada pelo governo Lula (PT). Sob pressão do centrão e vivendo um processo de fritura política, a ex-presidente da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) enfrentou uma sequência de crises, que incluiu, por exemplo, o recorde histórico de casos e mortes por dengue no país em 2024.

À Folha, a ex-ministra diz que sua saída da pasta foi marcada por estratégias machistas de desqualificação do seu trabalho, mas evita apontar dedos.

“Eu acho que foram tantos os atores que, como eu disse… Já falei o que devia sobre isso. Basta ver imagens, ângulos que são pegos, ideias de fragilidade, expressões nesse sentido. Mas eu me sinto uma pessoa, sobretudo, consciente no meu papel, preparada para a função que eu exerci”, declara.

“Eu diria que isso é um processo difuso na sociedade, que muitas vezes acontece sem os atores perceberem. E houve, claro, estratégias de desqualificação.”

De volta ao ambiente acadêmico, em visita ao Instituto de Estudos Avançados da USP (Universidade de São Paulo), onde assumiu a titularidade da Cátedra Olavo Setubal ao lado dos acadêmicos Alemberg Quindins e Fernando José de Almeida, Nísia conta o que tem feito desde que deixou a posição, e reluta em falar sobre o período na gestão.

“Nossa entrevista vai ser sobre a minha gestão, é um balanço de gestão?”, questiona, ao ser perguntada sobre o desabastecimento de vacinas que atingiu seis em cada dez municípios brasileiros, segundo estudo da CNM (Confederação Nacional dos Municípios).

“Esse estudo mencionado foi amplamente discutido e os dados mostram que onde houve problemas imediatamente se buscaram alternativas, outras vacinas existentes, estratégias de vacinação. Então, o Brasil avançou na vacinação durante esses dois anos”, avalia.

A ex-ministra analisa que seu período à frente da pasta foi curto, mas diz se sentir consciente sobre a importância do seu papel, e deseja sucesso ao governo Lula.

Como tem sido o período desde que a senhora deixou o ministério até a titularidade na Cátedra? Um período de retomada de alguns projetos. Eu tenho uma grande pesquisa sobre vulnerabilidade na área de saúde e organização de movimentos sociais. Também dei continuidade à participação em conselhos importantes na área de saúde, como o Conselho sobre Desigualdades, Aids e Pandemias, vinculado à Unaids, organismo da OMS [Organização Mundial da Saúde] que atua em relação ao HIV e a garantir o acesso com mais equidade entre os países.

Então, dei continuidade a ações podendo dedicar mais tempo, porque é claro que não é possível nem comparar à agenda de ministra da Saúde, muito intensa. Eu já vinha da gestão com muita responsabilidade também na Fiocruz, mas é claro que o nível de responsabilidade de recuperação do sistema de saúde coloca um desafio muito diferente. Assim, eu continuo a atuar no campo da saúde nessa perspectiva.

Sobre o período no ministério, como estava a situação da pasta quando a sra. assumiu, após o mandato do então presidente Jair Bolsonaro? A situação era de total descontinuidade de programas, total abandono mesmo do ponto de vista de ter um corpo técnico em condições de trabalhar. O resultado disso é o Ministério da Saúde, que tem como missão coordenar o SUS, sem nenhuma capacidade de realizar essa coordenação e com uma perda orçamentária muito grande.

Então, uma situação de desmonte de políticas, e isso é muito importante porque o lema do governo é “união e reconstrução”. Mas quando você passa pelo que o Brasil passou a partir de 2015, a partir do impeachment da presidenta Dilma, o que acontece? Muitos programas precisam de tempo para atingir a escala em todo o Brasil. Não se trata só de retomar o programa, mas de acelerar, porque nós ficamos defasados em relação à meta de garantir e qualidade de acesso.

Fui muito obstinada, junto com a liderança do presidente, em fazer que os programas realmente atinjam todo o Brasil. Acho que isso tem um valor muito grande em um país tão desigual como o nosso.

No ano passado, um estudo apontou que 6 em cada 10 municípios brasileiros relataram falta de vacina, creditadas às questões de fabricação e logística pelo ministério na época. O que de fato aconteceu? Nossa entrevista vai ser sobre a minha gestão, é um balanço de gestão?

Um pouco sobre tudo. Porque eu já respondi essas questões tantas vezes. Bom, sobre a questão das vacinas, toda a nossa estratégia, como eu disse, foi de recuperar. Desabastecimento mundial foi um dos problemas que enfrentamos em algumas vacinas, como foi o caso da tríplice viral, mas o que nós alcançamos foi a vacinação recuperada de 15 das 16 vacinas infantis. Então esse é o dado mais importante.

Todos os problemas que ocorreram de falta momentânea de algumas vacinas, buscamos alternativas e o resultado da vacinação foi absolutamente positivo, conforme números que nós amplamente divulgamos. E nós temos isso, o aumento da vacinação, a cobertura alcançada para sarampo, proteção para pólio com alcance da meta, nas doses de poliomielite [paralisia infantil]. Então, acho que os dados de vacinação são absolutamente positivos.

Esse estudo mencionado foi amplamente discutido e os dados mostram que onde houve problemas, imediatamente se buscaram alternativas, outras vacinas existentes, estratégias de vacinação. Então, o Brasil avançou na vacinação durante esses dois anos.

Sobre a escalada da epidemia de dengue, a sra. teria feito algo diferente hoje, avaliando em retrospecto? Sempre é possível melhorar, sempre é possível ver algo que poderia ser feito diferente. Do ponto de vista de ação de saúde pública, foi feito tudo que poderia ser feito.

A primeira questão é saber que dengue é um problema de 40 anos. O que acontece hoje é uma escalada da dengue. Então, é um novo momento. O que aconteceu no ano de 2024 corresponde a um dos efeitos do aquecimento global. Isso é discutido hoje no plano mundial. Hoje, em várias regiões do mundo, temos a proliferação do Aedes aegypti onde não tínhamos.

O outro ponto é que, para uma doença como essa, os determinantes ambientais sociais são fortíssimos, então requerem ações que não são só da saúde, eu tenho essa consciência. Tudo que precisava ser feito no Ministério da Saúde e pactuando com estados e municípios foi feito.

Uma vacina foi aprovada pela Anvisa, a primeira incorporada pelo SUS. Nós repassamos recursos para estados e municípios para apoio a essa ação. E todo o nosso trabalho junto aos agentes de endemias também nesse sentido de reforçar esse controle. Enfim, todas as ações foram feitas para vigilância. Finalmente, eu concluí meu período como ministra anunciando a parceria com o Instituto Butantan.

Então, lamento muito as perdas, as mortes por dengue, isso é um outro fato que nós trabalhamos muito.

Houve algum programa que a sra. queria ter tido mais tempo para desenvolver? Todos requerem tempo, dois anos é um tempo curto. Mas eu fico contente de ter dado a minha contribuição, de ter servido o Brasil e feito não só o necessário, mas o compromisso que na campanha do presidente foi colocado junto à população. Só de termos retomado a vacinação, ampliado o acesso à saúde, olhado o Brasil nas suas diferenças, isso para mim é muito importante. Às vezes não é só o orçamento, às vezes também é uma perspectiva, é um olhar de cuidado para as pessoas.

Das ações realizadas, uma que requer mais tempo é a do Complexo Econômico Industrial da Saúde. Essa capacidade é fundamental para a sustentação das políticas de saúde para o nosso país. É uma área que eu gosto de reforçar, porque levei o tema para o G20 com muito sucesso. Nós ajudamos o Brasil. E eu, como ministra da Saúde, reforcei essa estratégia.

Da mesma maneira, fortalecer o que nós chamamos de integralidade na saúde. E um outro programa que em dois anos levantei os alicerces é o SUS digital, que claro que ainda não dá para ver todos os resultados.

Na sua despedida, a sra. falou que sofreu uma campanha misógina e de desvalorização do seu trabalho. Quais foram os atores dessa campanha. Olha, eu já falei tudo o que tinha que falar sobre esse assunto. A misoginia para mulheres que ocupam cargos é evidente. Basta olhar as imagens. Lilia Schwarcz, que é professora aqui desta casa, fez um artigo maravilhoso sobre isso. Basta ver fotos, os enquadramentos, as falas. Então, os atores são diversos. Eu já falei sobre isso, tudo que eu tinha que falar.

Creio que a misoginia significa ódio às mulheres. É um termo forte. O machismo é presente na sociedade. Mas, na nossa sociedade, a gente vê claramente mulheres em posições de destaque que sofrem com isso. Eu não sou a única. Nós vimos isso com várias ministras, com várias mulheres que se destacam.

Mas a misoginia partiu de qual lado? Do governo, do centrão? Quais são os atores? Eu diria que isso é um processo difuso na sociedade, que muitas vezes acontece sem os atores perceberem. E houve, claro, estratégias de desqualificação. Eu acho que foram tantos os atores que, como eu disse… Já falei o que devia sobre isso. Basta ver imagens, ângulos que são pegos, ideias de fragilidade, expressões nesse sentido. Mas eu me sinto uma pessoa, sobretudo, consciente no meu papel, preparada para a função que eu exerci. O grande avaliador disso foi o próprio presidente, mas eu creio que os cargos públicos passam por vários critérios, e foi o que aconteceu nesse processo.

Eu continuo o meu trabalho pela saúde global. Durante o G20, uma das pessoas disse algo que eu achei interessante: que eu tenho uma trajetória na saúde reconhecida de anos, e que a minha passagem pelo ministério foi muito importante no nível global, sobretudo pelo trabalho junto aos Brics e ao G20, e essa é a minha mensagem. Mas sempre dizendo que sim, nós devemos desejar que as mulheres sejam respeitadas nas suas funções.

O atual ministro, Alexandre Padilha, chegou ao ministério dizendo que tem a obsessão de reduzir o tempo de espera nas filas de atendimento e tomou medidas que podem ser consideradas mais populares, como o anúncio de um novo modelo de gestão para reduzir esse tempo de espera. A sra. avalia que poderia ter tido mais um jogo de cintura político nesse sentido? Acho que são estilos diferentes. Padilha foi ministro durante a gestão da presidenta Dilma Rousseff, fez uma boa gestão. Acho que tem todas as condições de fazer uma boa gestão. Muitos anúncios que ele fez, como ele mesmo tem dito, são continuidade de ações que precisaram ser preparadas em dois anos.

As coisas não acontecem do dia para a noite na saúde. E são diferenças de estilo, como o presidente Lula colocou. Eu não acho nada ainda sobre a gestão, ainda é prematuro. Mas eu vejo e aposto na continuidade de algumas ações. Com relação à redução de filas, trabalhei intensamente para isso, as bases do programa, e certamente haverá inovações que foram lançadas durante a minha gestão. Isso é dito por ele, é dito pelo próprio presidente Lula. Então, eu não me comparo nesse sentido.

Cada ministro tem um estilo e que ele faça uma excelente gestão, é o que todos nós queremos, porque o Brasil precisa disso, e eu sou uma pessoa que apoiou o governo do presidente Lula desde o início e quero sucesso pleno desse governo.

A senhora esteve em Genebra para participar da Assembleia Mundial de Saúde, onde os membros da OMS fecharam um acordo que prevê resposta a pandemias. A senhora acha que esse acordo é suficiente para prever uma resposta rápida e, mais do que isso, evitar a segregação que houve na época da Covid com relação às vacinas? Essa pergunta é excelente, porque em setembro de 2021, 10% dos países aplicaram 76% das doses de vacina disponíveis. É o retrato da desigualdade. Ainda que a OMS e a Assembleia Mundial da Saúde tenha definido que vacinas, em tempos de pandemia, são bens de saúde global.

O acordo de pandemias é um grande marco, foi muito celebrado durante o encontro. Agora, é suficiente? Todo acordo é o acordo possível. No contexto em que nós estamos, que a OMS sofreu tantos ataques, que há descontinuidade de financiamento de programas, no caso dos Estados Unidos, ter um acordo desse tipo já, por si, é para ser celebrado.

Agora, há uma questão de tempo, que você colocou muito bem, tem que ter equidade no tempo certo. Não é só todo mundo tomar vacina, é não levar muito tempo para essa proteção. Então, aí vai ser o trabalho daqui para frente, de buscar, no processo de implementação, reduzir ao máximo esses tempos, e, isso é feito pelos governos.

Tem que ser um debate na sociedade. A pandemia não pode ser vista como coisa do passado. Nós temos que ter esse aprendizado e temos que cuidar e prevenir, que é sempre, como se diz, o melhor remédio para a saúde.

RAIO-X
Nísia Trindade, 67

Rio de Janeiro, 1958 – Foi a primeira mulher a assumir o cargo de ministra da Saúde, em 2023, e a assumir a presidência da Fiocruz (2017-2022). Graduada em ciências sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, tem mestrado em ciência política e doutorado em sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro. Já foi diretora da Casa de Oswaldo Cruz (1998-2005), unidade da Fiocruz voltada para pesquisa e memória em ciências sociais, história e saúde.

Luana Lisboa, FolhapressPoliticaLivre

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