| Por: Correio da Bahia BRASÍLIA - O senador Antonio Carlos Magalhães voltou a rebater ontem, no plenário do Senado, em comunicação inadiável, as agressões que sofreu do governador de São Paulo, Cláudio Lembro (PFL). Sem citar o nome do governador em nenhum momento do discurso, ACM culpou o gestor pela violência que tomou conta de São Paulo nas últimas semanas, com a ação do PCC e até de grupos de extermínio. "Os desastres ocorridos naquela grande cidade, sem dúvida alguma, foram fruto da incompetência de quem governava o estado. E governava sem votos. E quando se governa sem votos, não se tem responsabilidade", disse o líder político baiano. ACM começou o discurso lembrando que sempre sobe à tribuna do Senado para expressar sua oposição ao "governo imoral do presidente Lula", onde "as imoralidades são tantas que vem aumento para o funcionalismo - há tanto tempo sem reajuste -de maneira mais desabrida, mais imprópria, que o presidente da República poderia fazer". Mas, desta vez, ele falaria de "uma figura cujo nome não direi porque todos conhecem, achou por julgar-me - já dei a resposta - como senhor de engenho", salientou o líder político baiano. "Eu não tive essa felicidade, senhor presidente (de ter sido senhor de engenho), nem eu nem ninguém da minha família. Sou filho de um professor universitário de grande valor. Aliás, isso me honra muito. Meu pai foi uma figura marcante na minha terra, deputado federal Constituinte de 1934. Não sou homem de engenho, mas também nunca fui empregado de banqueiro, como meu acusador. Aliás, o banqueiro é decente, o empregado é que não é", enfatizou o senador baiano. ACM disse que "essa figura está atrapalhando a vida pública de São Paulo". "Os desastres ocorridos naquela grande cidade, sem dúvida alguma, foram fruto da incompetência de quem governava o estado (no momento da crise). E governava sem votos. E quando se governa sem votos, não se tem responsabilidade". "O vice-presidente não recebe votos, recebe uma indicação, muitas vezes em favor, como no caso do partido a que ele pertence, e sequer passa a dever fidelidade ao governo a que ele pertencia, ou a que deveria pertencer, no caso o governador Geraldo Alckmin", complementou o senador baiano. ACM demostrou que tem autoridade para criticar porque teve votos como deputado estadual, federal, prefeito de Salvador, governador da Bahia por três vezes, ministro de estado e senador duas vezes eleito. "E é isso que irrita os meus adversários e até mesmo o presidente da República. E é isso, senhor presidente, que me dá autoridade de ir ao meu partido e dizer que ele muitas vezes erra porque dá valor a quem não tem voto, quando quem tem voto fica alijado", disse. ACM sugeriu, para evitar o que aconteceu em São Paulo, mudanças na Constituição brasileira, com a extinção até dos cargos de vice-presidente e vice-governador, ou que os mesmos sejam eleitos também pelo voto. "O que custa a um governo um vice-presidente quando, na realidade, o presidente não deixa de ser presidente quando está negociando ou mesmo viajando em turismo a outros países? Ao contrário, ele está sempre presidente. O presidente dos Estados Unidos viaja por todo o mundo e o vice-presidente não assume. Aqui, neste país subdesenvolvido, o vice-presidente, o vice-prefeito ou o vice do vice assume o cargo e, o pior, com ares de titular, como se fosse votado pelo povo, sem ter recebido um voto sequer", criticou o senador baiano. "Como governador, senhor presidente, todas às vezes, pelas pesquisas do Ibope - a última delas disputando com Ciro Gomes - obtive o primeiro lugar de minha querida terra. Portanto, tenho autoridade para vir à tribuna falar o que é de interesse do meu estado, e defendê-lo como defendo mais do que qualquer outro possa fazê-lo", disse ACM. Ele disse que a comunicação inadiável que fez foi "uma satisfação que dou a mim mesmo. Não estou nem me referindo a quem tenha a orelha grande ou a fisionomia diferente dos seres humanos comuns. Não é para isso que estou falando. Estou falando para mim mesmo e para o plenário, que conhece a minha vida. Tenho defeitos, claro que sim. Mas meus defeitos não são morais. Jamais me subjuguei a alguém como a um presidente de banco para poder sobreviver. Jamais usurpei dos meus colegas de partido cargo que não me cabia. Exerci ministério. Exerci a Presidência desta Casa, o que talvez tenha sido a minha maior honra. E fui o primeiro presidente a ser reeleito", lembrou o líder político baiano. Rebatendo o governador paulista, ACM frisou que tem a consciência tranqüila. "Não vejo problema se no passado alguém foi senhor de engenho. Não vejo nada nisso. Mas eu nunca fui. Fui um estudante pobre, filho de um professor decente, que galgou também o Congresso Nacional e que foi um dos mais respeitados baianos enquanto viveu. Isso é o meu orgulho e deveria ser o orgulho daqueles que me condenam. Conseqüentemente, senhor presidente, não sou, não posso ser, nem serei jamais subserviente a ninguém. Serei, sim, um defensor do meu estado. Serei, sim, um defensor da República, dessa República que, infelizmente, até hoje está em péssimas mãos. Mas tenho esperança de que isso se modifique e que tenhamos um Brasil decente, digno e desenvolvido", enfatizou. |
quinta-feira, junho 01, 2006
ACM rebate Cláudio Lembo
Servidores pressionam ministro por reajustes
Por: Tribuna da Imprensa
| BRASÍLIA - Um forte jogo de pressões se formou sobre a área econômica por causa do pacote de reajustes para o funcionalismo público que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva concluirá nos próximos dias. A Lei Eleitoral proíbe aumentos a partir de 30 de junho e, por isso, um clima de "últimos dias" se instalou nos bastidores do governo. As carreiras que tiveram reajustes aquém do pretendido ao longo dos quatro anos do governo Lula correm atrás do prejuízo. "Estou sendo sitiado", comentou o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo. Este ano, o governo reservou R$ 5,1 bilhões para reajustar os salários dos funcionários públicos. "Esse é o meu limite", avisou Bernardo. "É um sapato de aço, não laceia." O problema é que as demandas superam esse valor. Só o plano de reestruturação das carreiras do Poder Judiciário custará R$ 5,2 bilhões. Se ele for autorizado, faltará dinheiro para atender às demais carreiras do funcionalismo. Historicamente, o Executivo não tem tido como resistir às pressões por aumentos salariais feitos pelo Legislativo e pelo Judiciário. A proposta de unificação de carreiras do funcionalismo, anunciada terça-feira no Palácio do Planalto, é uma tentativa de impor uma disciplina no crescimento das folhas salariais, ainda que a longo prazo. Bernardo disse que está negociando com a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ellen Gracie, o parcelamento da concessão do reajuste, de forma a diluir seu impacto sobre as contas públicas. "Ainda estamos conversando", frisou. Ele defende que o reajuste seja dividido em quatro anos, mas a proposta não foi aceita. Algum parcelamento, porém, ocorrerá. Está praticamente fechado um entendimento pelo qual, dos R$ 5,2 bilhões pedidos pelo Judiciário, serão liberados este ano R$ 600 milhões. A tendência de outras carreiras que também estão em negociação com o governo, como a Procuradoria Geral da República (PGR) e o Tribunal de Contas da União (TCU), é seguir o mesmo que for acertado para o STF. No caso da Procuradoria, seriam liberados R$ 220 milhões. Esses R$ 820 milhões em gastos adicionais com folha de salários do Judiciário e da PGR precisarão sair do total de R$ 5,1 bilhões reservados para esse fim. Esse montante também precisará acomodar os reajustes contidos em cinco Medidas Provisórias (MPs) que estão no Palácio do Planalto aguardando a assinatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Essas MPs contemplam aumentos para mais de uma dezena de carreiras, entre elas os militares e o chamado Plano de Cargos e Carreiras (PCC), que congrega 290.000 funcionários públicos. O reajuste do PCC consumirá R$ 420 milhões. Pressões Segundo Bernardo, ainda falta fechar as negociações com outras carreiras, como os auditores da Receita Federal, da Previdência Social e do Trabalho, além da Polícia Federal, da Advocacia Geral da União e da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN). Os auditores da Receita, em greve, fizeram uma manifestação em frente ao Ministério da Fazenda. Os procuradores da Fazenda ameaçam fazer hoje uma entrega coletiva de cargos de confiança, para pressionar por mais salários e melhores condições de trabalho. Outro grupo que tem pressionado a área econômica são os militares. Há uma controvérsia entre eles e a área econômica a respeito do reajuste que teria de ser concedido este ano, se de 10% ou de 8,85%. Um acordo selado em 2004 garantiu aos militares um reajuste de 23%, dos quais 13% foram pagos no ano passado. Os militares insistem que o combinado foi 13% em 2005 e 10% em 2006. Porém, esses índices resultam em um reajuste total de 24,3%. Por isso, a área econômica insiste que faltam 8,85% para completar os 23%. Os militares compreendem a matemática, mas insistem que o combinado foi 10% este ano. Bernardo não quis entrar na polêmica. "O que o presidente determinar, nós fazemos", disse. "Considero que essa questão foi resolvida no ano passado." |
Ellen defende foro privilegiado
| Por: Tribuna da Imprensa BRASÍLIA - A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ellen Gracie Northfleet, e seu vice, Gilmar Mendes, defenderam ontem no Congresso Nacional o foro privilegiado para as autoridades. Por meio desse mecanismo, integrantes dos três Poderes têm o direito de ser investigados e julgados criminalmente perante tribunais, enquanto que os cidadãos comuns têm de se submeter à Justiça de 1ª Instância. No caso do presidente da República, dos parlamentares e dos ministros de Estado, o foro é o STF. Ellen Gracie e Gilmar Mendes foram ouvidos por deputados que analisam uma proposta de emenda constitucional para estender o foro a ex-autoridades quando o ato contestado tenha sido praticado na época em que a pessoa exercia o cargo. Advogado-geral da União no governo Fernando Henrique Cardoso, Gilmar Mendes é a favor da medida. Ele observou que atualmente, se um ministro atropela uma pessoa, é julgado por esse ato, que não tem nada a ver com o cargo, no STF. Mas quando ele deixa o posto perde o direito de ser julgado perante o Supremo por atos que praticou como ministro. Mendes discorda da interpretação de que o foro leva à impunidade. O ministro contou que no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul foi criada uma câmara especializada em julgar crimes de prefeitos. Segundo ele, o órgão funciona muito bem, de forma rápida e há vários casos de condenação. O vice-presidente do STF criticou o uso político das ações de improbidade contra autoridades que, apesar de poderem provocar a perda dos direitos políticos e o afastamento do cargo, são analisadas pela Justiça de 1ª Instância. Ele lembrou um episódio que ocorreu em São Paulo, quando o ex-prefeito Celso Pitta chegou a ser afastado do cargo. Mendes também disse que, no passado, um grupo de procuradores usava politicamente as ações por improbidade, com o apoio do PT. |
STF restringe acesso a inquérito do mensalão na internet
| Por: Tribuna da Imprensa BRASÍLIA - O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) reformou ontem à tarde uma decisão do ministro Joaquim Barbosa que permitia ao público em geral consultar o inquérito que apura o mensalão. De manhã, por ordem de Barbosa, o STF havia disponibilidade em sua página na Internet (www.stf.gov.br) o acesso amplo ao inquérito. Ou seja, quem estava na rede naquele momento pôde consultar no endereço www.stf.gov.br/hotsites/inquérito os autos de uma das principais investigações em andamento no País. No entanto, minutos depois, as informações saíram do ar. Por volta das 14h30, os ministros do STF se reuniram em sessão plenária e resolveram que somente os denunciados e seus advogados terão acesso ao inquérito. Para tanto, eles receberão uma senha. Para ter acesso, os cidadãos em geral e a imprensa terão de cumprir um procedimento burocrático, por meio da remessa de pedidos formais ao Supremo, nos quais deverão indicar os motivos pelos quais querem consultar os autos. Esses pedidos serão analisados por Joaquim Barbosa, que poderá aceitá-los ou rejeitá-los. O STF tomou a decisão por considerar que disponibilizar na internet o inquérito do mensalão seria fazer uma distinção já que outras investigações em tramitação no tribunal estão disponíveis somente em papel. Os arquivos postos na internet somavam sete mil páginas de documentos, divididos em 35 volumes. Constituem um mapa das investigações do escândalo que abalou durante meses o governo Luiz Inácio Lula da Silva. Os volumes contêm essencialmente depoimentos dos investigados, análises de sigilos bancários e perícias da Polícia Federal. Também há papéis burocráticos, como autos de apreensão da PF e ofícios do STF para bancos, entidades e empresas de telefonia acionadas pelos procuradores e delegados. A maioria dos depoimentos constantes no inquérito já foram publicados pela imprensa ao longo da crise. Estão lá testemunhos de figuras-chave do caso, como o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza e o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares. A papelada também esconde depoimentos de figuras desconhecidas, como funcionários do Banco Rural e da agência SMPB. Os documentos protegidos por sigilo bancário, fiscal ou telefônico estão cobertos por uma faixa preta e, portanto, ilegíveis. É o caso de relatórios do Banco Central, do Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf) e de extratos telefônicos dos investigados. |
Bento 16 e a apóstrofe atrevida
| Por: Reinaldo Azevedo (Primeira Leitura) Ocupamo-nos todos, na mídia, de tantas irrelevâncias — nem Primeira Leitura está fora desse pecado —, que, quando uma coisa verdadeiramente grandiosa acontece, já não nos damos conta. Pior: se, por grandiosa, passa por corriqueira, então é sinal de que aquele mundo que daria a sua real dimensão pode já não existir. E essa é uma hipótese um pouco desanimadora. No domingo, o papa Bento 16, um “filho da Alemanha”, como disse de si mesmo, rezou no antigo campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, e verdadeiramente apostrofou Deus, indagando-o, sem resposta, em meio à humana perplexidade, como pôde, naquele lugar, se perpetrar tamanho horror, diante do silêncio do Criador. E o líder máximo da Igreja Católica, a mais tolerante e generosa das grandes religiões do mundo — dado que não exclui ninguém; antes procura incluir —, revelou que também ele ignorava as respostas. Foi um grande momento de um líder religioso, de quem julgamos esperar respostas para tudo, e não indagações que nos jogam numa espécie de vazio. Bento 16 fez o que a dignidade humana lhe impunha e exerceu a humildade do pastor. Não tendo como responder a uma aflição que ceifou milhões de vidas, 1,5 milhão só ali em Auschwitz, cobrou do Criador uma resposta. Que sabia não vir. É preciso ter coragem para fazê-lo. Naquele momento, ele se igualava a alguns dos símbolos maiores do catolicismo, que ousavam propor ao Divino questões geradas por nossa precária humanidade. Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, para citar dois gigantes, o fizeram antes. Entre nós, em magnífico português, padre Antônio Vieira, como afirmou Drummond num poema, “dizia poucas e boas” a Deus, embora a sua matéria acabasse sendo mais literária do que teológica. Não bastava a Bento 16, desta feita, dizer que Deus houvera escolhido um caminho insondável e difícil. Jó não pode se multiplicar em 6 milhões de vidas, numa tragédia sem precedentes. E o pastor disse sem reservas: “Em um lugar como este, faltam palavras. No fim, pode haver apenas um silêncio no qual um coração clama por Deus. Por que, Deus, o senhor permaneceu em silêncio? Como pôde tolerar tudo isso? Onde estava Deus naqueles dias? Por que ficou ele em silêncio? Como pôde ele permitir esse massacre sem fim, esse triunfo do mal?" Ninguém tem resposta para tanto. Uma coisa, no entanto, é certa: antes que, diante do silêncio de Deus e dos homens, se consumasse o horror, houve aqueles que tergiversaram; houve aqueles que condescenderam com a violência; houve aqueles que julgaram poder fazer um pacto transitório com o mal. A figura de Bento 16, como pastor, se agiganta com essas palavras. Confesso que andava um pouco chateado — e até decepcionado — com seu pontificado até aqui. As medidas de reforma da Igreja Católica parecem-me frouxas, lentas, em compasso de espera. É como se estivesse sendo, e acho que está em muitos casos, leniente com o laicismo que toma conta da religião. Basta verificar como se comportam alguns bispos no Brasil. Muitos não apenas silenciam diante da violência de alguns grupos, como a coonestam ou mesmo a promovem. E tudo diante do silêncio cúmplice não de Deus, mas da hierarquia católica nativa. Torço para que as coisas acabem entrando nos eixos nessa área. De todo modo, deixo aqui registrado o grande momento de Bento 16. Ele tem autoridade moral, espiritual e religiosa para indagar Deus. Um bom sinal e uma luz até para o Brasil, onde mal se consegue fazer uma apóstrofe nem diria atrevida, mas profissional, a um simples Apedeuta. Mas não quero manchar este texto com bobagens e minoridades. Bento 16 foi de uma ousadia que estes dias já não conseguem reconhecer. E sua pergunta permanece e permanecerá sem resposta. [reinaldo@primeiraleitura.com.br] |
Autopsicografia
| Por: Reinaldo Azevedeo Vês?! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão — esta pantera — Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera. Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja. Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija! Pensei nos destinos do Brasil, o Bananão (o copyright, se não me engano, vai para Ivan Lessa), e me vieram os versos acima, de Augusto dos Anjos, num poema intitulado Autopsicografia. Poetas não devem ser levados muito a sério, especialmente quando extremam seu pessimismo, tentando nos arrastar para sua suposta melancolia. É tudo literatura, tudo fingimento. Fernando Pessoa já se encarregou deste tema também. Um grande poeta e crítico brasileiro (acredito nele!) tem uma tese interessante, que me mandou numa correspondência (de fato, num e-mail), sobre o que pode ser matéria da prosa e o que pode ser matéria da poesia. Não vou adiantar muita coisa aqui porque pretendo que ele a desenvolva na revista Primeira Leitura, num ensaio. Em prosa! Há bobagens monumentais, algumas até perigosas, que rendem versos magníficos. Mas tente dizer a mesma coisa em prosa para ver... Agora afirmo eu: a poesia pode ser densa e frívola. Não conheço ninguém que, com o passar dos anos, não acabe se ancorando na prosa para sobreviver. A poesia vira um suspiro mais profundo e ocasional, um raio luminoso e de curta duração, uma dose de conhaque numa noite fria, uma aspiração tola de felicidade numa viagem que sabemos curta. A prosa nos acompanha até o limite. O próximo passo é o silêncio. Ah, vejam vocês o que não faço para ir-me descontaminando do Apedeuta. Se não levo poetas tão a sério, Augusto dos Anjos menos ainda. Explico-me. Embora sonetista exemplar, é claro que toda aquela verborragia científica era uma mistura de maneirismo com um bem disfarçado — ao menos a maus leitores — humor. Imagine se alguém pode ser sério (refiro-me à seriedade contemplativa, compenetrada) escrevendo: “Tome, doutor, esta tesoura, e corte / Minha singularíssima pessoa. / Que importa a mim que a bicharia roa/Todo o meu coração, depois da morte?”. Convenham: é mais sofisticado do que o Zé do Caixão, mas não menos galhofeiro. A piada já está no título: “Budismo Moderno”, emprestando à filosofia ou religião (sei lá eu) do “deixe-estar e vá meditando” o aporte de sua ciência meio macabra. A crítica literária, os cursinhos e as aulas de literatura dos colégios estragam tudo, acusando seu “amargo pessimismo”. Existe, por acaso, um pessimismo doce? Huuummmm, Cecília Meireles, talvez. Mas aqui já abriria uma chave para outra conversa. Vejo o Apedeuta sumindo... Não disse que estou treinando? Lê-se mal por aí, aqui e alhures. Acho impressionante que a literatura, mormente a poesia, seja entendida, mesmo por especialistas, como expressão da vida do autor ou como depositária de algumas verdades eternas sobre o homem, a vida, a felicidade, Deus, o mundo. Pretende-se até que ela sirva de norte moral ou ético. O que nos diz de definitivo um quadro, uma música ou um filme? Nada! Aliás, o adjetivo “definitivo” é interessante. Os cadernos de cultura dos jornais, especialmente os críticos de rock ou de música pop, costumam decretar “novidades definitivas”, o que é, obviamente, uma contradição em termos. Para alguns, Wagner foi um gênio definitivo; para outros, um impostor. Mas bandas londrinas das quais ouviremos falar uma única vez já vêm à luz “definitivas”. O meu bom mundo é dos homens que nascem não definitivos, mas póstumos — a sacada é de Nietzsche. O que quero dizer com isso? Sou irresistivelmente atraído, na literatura — a única das artes que, de fato, me interessa — pela reinvenção do passado, pela profecia às avessas, que refaz o percurso daqui até as origens. Tenho verdadeiro horror de utopistas. Eles seriam expulsos da minha República sob a mesma acusação que Platão fazia aos poetas. Não há um só regime totalitário que não tenha sido instituído sob a égide de uma história do futuro, de uma profecia. Num dos ensaios de Contra o Consenso, nem me lembro em qual e não vou parar para procurar, digo que tenho particular apreço pela literatura do decadentismo, do desencanto, do pessimismo, por mais fingidos que sejam. Balzac, evidentemente, retratou um mundo em decomposição com maestria, embora fosse um pouco frívolo. Stendhal, em O Vermelho e o Negro, atinge altura raramente equiparada quando evidencia a incomunicabilidade de dois mundos: o de Julien Sorrel e aquele que o destrói — ou que consolida a sua diluição. Flaubert, impecável, desmonta idealismos em penca (incluindo o ideal da melancolia decorosa) em Madame Bovary. A atração de Swann por Odette, uma vagabundazinha bem posta, ou as fuçadas de Sr. de Charlus nos catres imundos, levando chicotadas das classes inferiores, em Proust... Tudo isso é um retrato de autores que não tinham utopias a oferecer. Felizmente! E, claro, Musil (ora, ora...), em O Homem Sem Qualidades, não permite nem mesmo que esse mundo em desalinho se converta num norte a ser seguido ou numa metafísica. Vejam só. Esse é realmente o mundo que me interessa, não essa triste vulgaridade de Lulas, PTs, “sol da liberdade em raios frígidos”, oposições brochas e assemelhados. De certo modo, explico certas convicções políticas expondo algumas preferências literárias. Não há utopia, política ou artística, em que eu não perceba um núcleo de vigarice, de canalhice vertida em promessas, de amanhãs que cantam para pegar trouxa. É um tipo de crítica, seja a política, seja a literária, pouco aceita nos nossos meios intelectuais. São bem poucas as pessoas que alcançam uma verdade para mim inquestionável: não há zelo maior com o mundo — o que inclui o Brasil — do que detestá-lo. Não há safadeza maior do que declarar permanentemente o seu amor pela vida, pela pátria e pelo semelhante. O homem que verdadeiramente ama precisa aprender a odiar algumas coisas incondicionalmente. Meu crânio?Nas partes em que o osso foi retirado, começa a haver um afundamento. Já tinha mesmo desistido de ganhar dinheiro com a minha beleza. Pretendo apenas ser um senhor que usa chapéu. [reinaldo@primeiraleitura.com.br] |
Previdência tabela juros dos bancos em 2,9% para crédito
| Por: Primeira Leitura Está decidido: depois de incentivar o crédito consignado para os aposentados e criar um endividamento monumental, o Ministério da Previdência bancou autoridade econômica e decidiu nesta quarta-feira que os bancos não podem cobrar mais de 2,9% de juros nos empréstimos. O teto foi fixado em reunião do Conselho Nacional da Previdência Social e vale para todos os juros cobrados no empréstimo com desconto em folha para aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Segundo o ministro da Previdência Social, Nelson Machado, que presidiu a reunião do Conselho, o teto é único, ou seja, ele deve ser obedecido, independentemente do prazo do empréstimo. Machado disse que o Conselho analisará o comportamento do mercado, com a fixação do teto, nos próximos 60 dias. O ministro se comprometeu com essa análise, depois de ouvir o argumento do representante dos bancos, Jorge Higashino, que alertou o Conselho para a possibilidade de haver escassez de crédito para os aposentados e pensionistas que mais precisam, ou seja, aqueles que ganham menos e moram longe dos grandes centros. Os bancos queriam, em vez do tabelamento, uma auto-regulação ao longo do tempo. |
Presidente do INSS diz que greve pode comprometer acordo
| Por: Primeira Leitura N'O Globo: "O presidente do INSS, Valdir Moysés Simão, disse ontem que a greve dos servidores do instituto é injustificada e que pode comprometer o acordo firmado na paralisação de 2005, que o governo diz estar cumprindo. A greve de 72 horas deve terminar hoje com uma manifestação na Esplanada dos Ministérios. A Federação Nacional dos Sindicatos dos Previdenciários estimou que ontem que 70% dos funcionários do INSS estavam de braços cruzados. O instituto não divulgou um balanço. Os servidores do INSS entraram em greve para pressionar o governo a pôr em prática as promessas feitas ano passado, entre elas a implementação de um plano de cargos para a categoria. O presidente do instituto, porém, disse a emissoras de rádio que o acordo está sendo rigorosamente cumprido. O prazo para a definição da proposta é 30 de junho. Simão disse que desde janeiro os servidores estão recebendo o reajuste previsto no acordo. O aumento, segundo ele, foi concedido por medida provisória editada ano passado e já convertida em lei." |
quarta-feira, maio 31, 2006
Disfunção de tireóide pode provocar doença nos olhos
Por: Fernanda Bassette (Jornal Pequeno)
Anticorpos atacam os tecidos e causam inflamações da órbita
Desencadeada por uma reação auto-imune do organismo que passa a produzir anticorpos contra seus próprios tecidos, a doença de Graves está intimamente relacionada com os distúrbios da tireóide, em especial o hipertiroidismo. Uma de suas principais conseqüências é a oftalmopatia: uma inflamação da órbita que ´empurra´ os olhos para a frente, dando a impressão de que o paciente está sempre assustado ou com os olhos esbugalhados. Apesar de ter caráter auto-imune, os especialistas em oftalmologia e endocrinologia suspeitam que um estresse emocional muito forte, como a morte de um familiar, possa ser um fator desencadeador da doença de Graves. No entanto, eles afirmam que nem sempre os pacientes relatam algum tipo de estresse para justificar o surgimento da doença. “A doença de Graves ainda não tem causa conhecida, mas provavelmente tem uma herança genética. Trata-se de um problema auto-imune que ataca a tireóide e a órbita, dando o aspecto de “olhos para fora”, explicou o oftalmologista Rubens Belfort Júnior. A oftalmopatia - Paulo Gois Manso, chefe do setor de órbita do Instituto da Visão da Unifesp, explicou que a oftalmopatia é uma doença secundária provocada pela alteração da tireóide. Segundo ele, os mesmos anticorpos que o organismo produz contra a tireóide também atacam a órbita, desencadeando um processo inflamatório e o aumento da produção de fibroblastos. “Esses fibroblastos passam a produzir substâncias chamadas glicosaminoglicanos, que se acumulam na gordura da órbita e nos músculos oculares empurrando os olhos para frente”, explicou Manso. O oftalmologista Leôncio Queiroz Neto explicou que as órbitas são preenchidas por uma gordura - que funciona como um amortecedor. “A doença de Graves age exatamente nessa região. O olho salta porque a gordura que envolve os olhos fica inchada.”De acordo com Manso, dos pacientes que apresentam oftalmopatia, 90% têm hipertiroidismo; 4% apresentam hipotiroidismo e os outros 6% não têm a disfunção na tireóide, mas apresentam alterações auto-imunes no organismo. “Não podemos dizer que todos os casos estão relacionados com o hipertiroidismo. Mas sempre há a disfunção auto-imune”, afirmou Manso. Na maioria das vezes, os primeiros sintomas da doença de Graves estão relacionados ao hipertiroidismo: taquicardia, sudorese excessiva, emagrecimento e insônia. Quando a doença atinge os olhos, os principais sintomas são dor, vermelhidão e inchaço (fase ativa da doença). Depois dessa fase, desaparecem os sinais inflamatórios e o paciente entra na fase inativa da doença. O tratamento da doença de Graves é feito em conjunto com endocrinologistas e inclui controlar o distúrbio da tireóide e tratar a inflamação orbitária, na fase ativa, com uso de drogas antiinflamatórias. A cirurgia é reservada para os casos mais graves, onde existe risco de perda da visão. Os hormônios produzidos pela glândula equilibram as funções do organismo - A tireóide é uma glândula fundamental no funcionamento das funções do organismo. Ela está localizada no pescoço e é responsável pela fabricação dos hormônios T3 e T4, que são os principais reguladores metabólicos do organismo. É a tireóide que equilibra funções como os batimentos cardíacos, a temperatura corporal e o gasto energético do corpo. “Ela tem uma função tão importante, que qualquer alteração gera interferências no organismo”, explicou Marcello Bronstein, professor de endocrinologia da Faculdade de Medicina da USP. Segundo Bronstein, apesar de ser pouco conhecida pelas pessoas, a doença de Graves é relativamente comum e atinge mais mulheres, especialmente com mais de 40 anos. A proporção, diz o especialista, é de sete mulheres para um homem. O diagnóstico correto da doença é feito por meio da dosagem da quantidade de hormônios (T3 e T4) e da quantidade de TSH no sangue. “Quando a pessoa tem hipertiroidismo, o THS fica baixo, praticamente zerado”, explicou Antônio Roberto Chacra, chefe do departamento de endocrinologia da Unifesp. (FB)
Anticorpos atacam os tecidos e causam inflamações da órbita
Desencadeada por uma reação auto-imune do organismo que passa a produzir anticorpos contra seus próprios tecidos, a doença de Graves está intimamente relacionada com os distúrbios da tireóide, em especial o hipertiroidismo. Uma de suas principais conseqüências é a oftalmopatia: uma inflamação da órbita que ´empurra´ os olhos para a frente, dando a impressão de que o paciente está sempre assustado ou com os olhos esbugalhados. Apesar de ter caráter auto-imune, os especialistas em oftalmologia e endocrinologia suspeitam que um estresse emocional muito forte, como a morte de um familiar, possa ser um fator desencadeador da doença de Graves. No entanto, eles afirmam que nem sempre os pacientes relatam algum tipo de estresse para justificar o surgimento da doença. “A doença de Graves ainda não tem causa conhecida, mas provavelmente tem uma herança genética. Trata-se de um problema auto-imune que ataca a tireóide e a órbita, dando o aspecto de “olhos para fora”, explicou o oftalmologista Rubens Belfort Júnior. A oftalmopatia - Paulo Gois Manso, chefe do setor de órbita do Instituto da Visão da Unifesp, explicou que a oftalmopatia é uma doença secundária provocada pela alteração da tireóide. Segundo ele, os mesmos anticorpos que o organismo produz contra a tireóide também atacam a órbita, desencadeando um processo inflamatório e o aumento da produção de fibroblastos. “Esses fibroblastos passam a produzir substâncias chamadas glicosaminoglicanos, que se acumulam na gordura da órbita e nos músculos oculares empurrando os olhos para frente”, explicou Manso. O oftalmologista Leôncio Queiroz Neto explicou que as órbitas são preenchidas por uma gordura - que funciona como um amortecedor. “A doença de Graves age exatamente nessa região. O olho salta porque a gordura que envolve os olhos fica inchada.”De acordo com Manso, dos pacientes que apresentam oftalmopatia, 90% têm hipertiroidismo; 4% apresentam hipotiroidismo e os outros 6% não têm a disfunção na tireóide, mas apresentam alterações auto-imunes no organismo. “Não podemos dizer que todos os casos estão relacionados com o hipertiroidismo. Mas sempre há a disfunção auto-imune”, afirmou Manso. Na maioria das vezes, os primeiros sintomas da doença de Graves estão relacionados ao hipertiroidismo: taquicardia, sudorese excessiva, emagrecimento e insônia. Quando a doença atinge os olhos, os principais sintomas são dor, vermelhidão e inchaço (fase ativa da doença). Depois dessa fase, desaparecem os sinais inflamatórios e o paciente entra na fase inativa da doença. O tratamento da doença de Graves é feito em conjunto com endocrinologistas e inclui controlar o distúrbio da tireóide e tratar a inflamação orbitária, na fase ativa, com uso de drogas antiinflamatórias. A cirurgia é reservada para os casos mais graves, onde existe risco de perda da visão. Os hormônios produzidos pela glândula equilibram as funções do organismo - A tireóide é uma glândula fundamental no funcionamento das funções do organismo. Ela está localizada no pescoço e é responsável pela fabricação dos hormônios T3 e T4, que são os principais reguladores metabólicos do organismo. É a tireóide que equilibra funções como os batimentos cardíacos, a temperatura corporal e o gasto energético do corpo. “Ela tem uma função tão importante, que qualquer alteração gera interferências no organismo”, explicou Marcello Bronstein, professor de endocrinologia da Faculdade de Medicina da USP. Segundo Bronstein, apesar de ser pouco conhecida pelas pessoas, a doença de Graves é relativamente comum e atinge mais mulheres, especialmente com mais de 40 anos. A proporção, diz o especialista, é de sete mulheres para um homem. O diagnóstico correto da doença é feito por meio da dosagem da quantidade de hormônios (T3 e T4) e da quantidade de TSH no sangue. “Quando a pessoa tem hipertiroidismo, o THS fica baixo, praticamente zerado”, explicou Antônio Roberto Chacra, chefe do departamento de endocrinologia da Unifesp. (FB)
Rico quer carro novo, e pobre, celular e televisão
Por: ADRIANA MATTOSda Folha de S.Paulo
O grupo de consumidores mais abastados, no topo da pirâmide social, pretende comprar em 2006 o computador para casa, trocar de carro e adquirir novos móveis --os itens de maior desejo de compra para esse público neste ano. Já aquela turma com renda magra, das classes D e E, vai por outro caminho: tentará financiar a moto, comprar a televisão e o telefone celular.É o que mostra relatório de 59 páginas elaborado pela consultoria Ipsos e pela Cetelem, empresa francesa de crédito, parceira de redes de varejo como Submarino, Telha Norte e Carrefour.O levantamento foi divulgado ontem com uma série de conclusões sobre hábitos de consumo do brasileiro e desigualdades no poder de compra.Segundo entrevistas com 1.200 pessoas no país em novembro e dezembro --selecionadas de acordo com metodologia utilizada pelo IBGE na Pnad, a pesquisa de amostra de domicílios--, 85% dos entrevistados das classes D e E querem comprar uma moto. Nesse grupo, 84% pretendem adquirir eletrônicos (como TV e vídeo) e 79% preferem trocar ou comprar celulares. Aí está a população com renda média mensal familiar em R$ 544,72. Estima-se que 92,9 milhões de brasileiros façam parte das classes D e E, calcula o relatório.No grupo dos mais endinheirados, com renda familiar média mensal em R$ 2.484,01 (classes A e B, que somam 26,4 milhões de brasileiros), a lista de compras para 2006, por ordem de múltipla escolha, inclui: móveis (81%), computador (78%), eletrodomésticos (73%) e carro (71%).No vermelhoUm dado interessante nessa comparação é que as classes de menor renda têm intenção maior de compra nos produtos de preços baixos. Por exemplo: ferramentas (55% de interesse) e itens para decoração (60%). Isso acontece não só pela demanda reprimida como pela dificuldade de acesso a crédito barato e pela ampliação lenta do poder de compra --leia-se renda-- nos últimos anos."As classes A e B, até mesmo a C, têm espaço para se endividar. Mas as classes D e E estão correndo atrás do prejuízo", diz Clifford Young, diretor da Ipsos Public Affairs, responsável pela pesquisa. "O que acontece é que essa turma de renda mais baixa compra, se endivida, começa a cortar gastos para pagar essa dívida e, depois, volta a comprar e a se endividar novamente", afirma ele.Com base na informação dos entrevistados, a pesquisa concluiu que, para as classes A e B, de uma renda média mensal de R$ 2.484.01, os gastos fixos somam R$ 1.852,23 -sobrando R$ 631,79. Desse volume, R$ 204 (média) vão para o pagamento de uma prestação mensal -8% da renda. Mas, no grupo D e E, o comprometimento com o crédito é maior: de 15%. Na classe C, atinge 14%. "Os de menor renda [D e E] fecham o mês com um gasto que supera em R$ 16 a renda mensal" diz Franck Vignard Rose, diretor de marketing da Cetelem.
O grupo de consumidores mais abastados, no topo da pirâmide social, pretende comprar em 2006 o computador para casa, trocar de carro e adquirir novos móveis --os itens de maior desejo de compra para esse público neste ano. Já aquela turma com renda magra, das classes D e E, vai por outro caminho: tentará financiar a moto, comprar a televisão e o telefone celular.É o que mostra relatório de 59 páginas elaborado pela consultoria Ipsos e pela Cetelem, empresa francesa de crédito, parceira de redes de varejo como Submarino, Telha Norte e Carrefour.O levantamento foi divulgado ontem com uma série de conclusões sobre hábitos de consumo do brasileiro e desigualdades no poder de compra.Segundo entrevistas com 1.200 pessoas no país em novembro e dezembro --selecionadas de acordo com metodologia utilizada pelo IBGE na Pnad, a pesquisa de amostra de domicílios--, 85% dos entrevistados das classes D e E querem comprar uma moto. Nesse grupo, 84% pretendem adquirir eletrônicos (como TV e vídeo) e 79% preferem trocar ou comprar celulares. Aí está a população com renda média mensal familiar em R$ 544,72. Estima-se que 92,9 milhões de brasileiros façam parte das classes D e E, calcula o relatório.No grupo dos mais endinheirados, com renda familiar média mensal em R$ 2.484,01 (classes A e B, que somam 26,4 milhões de brasileiros), a lista de compras para 2006, por ordem de múltipla escolha, inclui: móveis (81%), computador (78%), eletrodomésticos (73%) e carro (71%).No vermelhoUm dado interessante nessa comparação é que as classes de menor renda têm intenção maior de compra nos produtos de preços baixos. Por exemplo: ferramentas (55% de interesse) e itens para decoração (60%). Isso acontece não só pela demanda reprimida como pela dificuldade de acesso a crédito barato e pela ampliação lenta do poder de compra --leia-se renda-- nos últimos anos."As classes A e B, até mesmo a C, têm espaço para se endividar. Mas as classes D e E estão correndo atrás do prejuízo", diz Clifford Young, diretor da Ipsos Public Affairs, responsável pela pesquisa. "O que acontece é que essa turma de renda mais baixa compra, se endivida, começa a cortar gastos para pagar essa dívida e, depois, volta a comprar e a se endividar novamente", afirma ele.Com base na informação dos entrevistados, a pesquisa concluiu que, para as classes A e B, de uma renda média mensal de R$ 2.484.01, os gastos fixos somam R$ 1.852,23 -sobrando R$ 631,79. Desse volume, R$ 204 (média) vão para o pagamento de uma prestação mensal -8% da renda. Mas, no grupo D e E, o comprometimento com o crédito é maior: de 15%. Na classe C, atinge 14%. "Os de menor renda [D e E] fecham o mês com um gasto que supera em R$ 16 a renda mensal" diz Franck Vignard Rose, diretor de marketing da Cetelem.
Rico quer carro novo, e pobre, celular e televisão
Por: ADRIANA MATTOSda Folha de S.Paulo
O grupo de consumidores mais abastados, no topo da pirâmide social, pretende comprar em 2006 o computador para casa, trocar de carro e adquirir novos móveis --os itens de maior desejo de compra para esse público neste ano. Já aquela turma com renda magra, das classes D e E, vai por outro caminho: tentará financiar a moto, comprar a televisão e o telefone celular.É o que mostra relatório de 59 páginas elaborado pela consultoria Ipsos e pela Cetelem, empresa francesa de crédito, parceira de redes de varejo como Submarino, Telha Norte e Carrefour.O levantamento foi divulgado ontem com uma série de conclusões sobre hábitos de consumo do brasileiro e desigualdades no poder de compra.Segundo entrevistas com 1.200 pessoas no país em novembro e dezembro --selecionadas de acordo com metodologia utilizada pelo IBGE na Pnad, a pesquisa de amostra de domicílios--, 85% dos entrevistados das classes D e E querem comprar uma moto. Nesse grupo, 84% pretendem adquirir eletrônicos (como TV e vídeo) e 79% preferem trocar ou comprar celulares. Aí está a população com renda média mensal familiar em R$ 544,72. Estima-se que 92,9 milhões de brasileiros façam parte das classes D e E, calcula o relatório.No grupo dos mais endinheirados, com renda familiar média mensal em R$ 2.484,01 (classes A e B, que somam 26,4 milhões de brasileiros), a lista de compras para 2006, por ordem de múltipla escolha, inclui: móveis (81%), computador (78%), eletrodomésticos (73%) e carro (71%).No vermelhoUm dado interessante nessa comparação é que as classes de menor renda têm intenção maior de compra nos produtos de preços baixos. Por exemplo: ferramentas (55% de interesse) e itens para decoração (60%). Isso acontece não só pela demanda reprimida como pela dificuldade de acesso a crédito barato e pela ampliação lenta do poder de compra --leia-se renda-- nos últimos anos."As classes A e B, até mesmo a C, têm espaço para se endividar. Mas as classes D e E estão correndo atrás do prejuízo", diz Clifford Young, diretor da Ipsos Public Affairs, responsável pela pesquisa. "O que acontece é que essa turma de renda mais baixa compra, se endivida, começa a cortar gastos para pagar essa dívida e, depois, volta a comprar e a se endividar novamente", afirma ele.Com base na informação dos entrevistados, a pesquisa concluiu que, para as classes A e B, de uma renda média mensal de R$ 2.484.01, os gastos fixos somam R$ 1.852,23 -sobrando R$ 631,79. Desse volume, R$ 204 (média) vão para o pagamento de uma prestação mensal -8% da renda. Mas, no grupo D e E, o comprometimento com o crédito é maior: de 15%. Na classe C, atinge 14%. "Os de menor renda [D e E] fecham o mês com um gasto que supera em R$ 16 a renda mensal" diz Franck Vignard Rose, diretor de marketing da Cetelem.
O grupo de consumidores mais abastados, no topo da pirâmide social, pretende comprar em 2006 o computador para casa, trocar de carro e adquirir novos móveis --os itens de maior desejo de compra para esse público neste ano. Já aquela turma com renda magra, das classes D e E, vai por outro caminho: tentará financiar a moto, comprar a televisão e o telefone celular.É o que mostra relatório de 59 páginas elaborado pela consultoria Ipsos e pela Cetelem, empresa francesa de crédito, parceira de redes de varejo como Submarino, Telha Norte e Carrefour.O levantamento foi divulgado ontem com uma série de conclusões sobre hábitos de consumo do brasileiro e desigualdades no poder de compra.Segundo entrevistas com 1.200 pessoas no país em novembro e dezembro --selecionadas de acordo com metodologia utilizada pelo IBGE na Pnad, a pesquisa de amostra de domicílios--, 85% dos entrevistados das classes D e E querem comprar uma moto. Nesse grupo, 84% pretendem adquirir eletrônicos (como TV e vídeo) e 79% preferem trocar ou comprar celulares. Aí está a população com renda média mensal familiar em R$ 544,72. Estima-se que 92,9 milhões de brasileiros façam parte das classes D e E, calcula o relatório.No grupo dos mais endinheirados, com renda familiar média mensal em R$ 2.484,01 (classes A e B, que somam 26,4 milhões de brasileiros), a lista de compras para 2006, por ordem de múltipla escolha, inclui: móveis (81%), computador (78%), eletrodomésticos (73%) e carro (71%).No vermelhoUm dado interessante nessa comparação é que as classes de menor renda têm intenção maior de compra nos produtos de preços baixos. Por exemplo: ferramentas (55% de interesse) e itens para decoração (60%). Isso acontece não só pela demanda reprimida como pela dificuldade de acesso a crédito barato e pela ampliação lenta do poder de compra --leia-se renda-- nos últimos anos."As classes A e B, até mesmo a C, têm espaço para se endividar. Mas as classes D e E estão correndo atrás do prejuízo", diz Clifford Young, diretor da Ipsos Public Affairs, responsável pela pesquisa. "O que acontece é que essa turma de renda mais baixa compra, se endivida, começa a cortar gastos para pagar essa dívida e, depois, volta a comprar e a se endividar novamente", afirma ele.Com base na informação dos entrevistados, a pesquisa concluiu que, para as classes A e B, de uma renda média mensal de R$ 2.484.01, os gastos fixos somam R$ 1.852,23 -sobrando R$ 631,79. Desse volume, R$ 204 (média) vão para o pagamento de uma prestação mensal -8% da renda. Mas, no grupo D e E, o comprometimento com o crédito é maior: de 15%. Na classe C, atinge 14%. "Os de menor renda [D e E] fecham o mês com um gasto que supera em R$ 16 a renda mensal" diz Franck Vignard Rose, diretor de marketing da Cetelem.
Pão francês passa a ser vendido por peso
Por: Jornal de Jundiaí - SP
As padarias deverão deixar de vender pão francês por unidade e serão obrigadas a comercializar o produto por peso, em todo o País. A mudança foi determinada após uma consulta pública na qual 70,34% dos consumidores decidiram que o peso é a melhor forma de adquirir o pãozinho salgado de 50 gramas. Outros 29,06% ainda preferem comprar por unidade e 0,59% se disseram satisfeitos por ambos os tipos de comercialização.
"Nós já esperávamos por essa decisão do público", frisou Adriano Santos Pereira, presidente da Associação dos Panificadores de Jundiaí (Apan). "A venda por peso é mais justa. O cliente paga exatamente pelo que está levando."
Para cumprir a Portaria, as padarias terão que instalar uma balança específica mas, apesar do investimento, os panificadores não esperam por aumento nos preços. Em Jundiaí, apenas 10% dos estabelecimentos já comercializam o pão por peso, enquanto os demais continuam a vender o produto por unidade.
Segundo Pereira, essas padarias têm dificuldades em cortar os pãezinhos com a mesma massa. "Geralmente, os estabelecimentos fabricam pães que variam entre 50 e 54 gramas cada unidade. Por causa disso, a venda por quilo será mais simples também no âmbito comercial." Inmetro - A pesquisa pública foi realizada pelo Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial). Mais de mil sugestões de clientes e de panificadores foram colhidas durante 60 dias de consulta.
De acordo com a Diretoria de Metrologia Legal do instituto, área responsável pela regulamentação da Portaria 63, 714 pessoas indicaram a preferência pelo uso da balança na compra do pão francês.
A próxima tarefa do Inmetro será elaborar um texto para a Portaria nos próximos 20 dias - a obrigatoriedade entrará em vigor a partir da data de publicação no Diário Oficial da União. O regulamento também fixará um prazo para a adequação dos panificadores, pois alguns estabelecimentos não dispõem de balanças suficientes para a demanda.
As padarias deverão deixar de vender pão francês por unidade e serão obrigadas a comercializar o produto por peso, em todo o País. A mudança foi determinada após uma consulta pública na qual 70,34% dos consumidores decidiram que o peso é a melhor forma de adquirir o pãozinho salgado de 50 gramas. Outros 29,06% ainda preferem comprar por unidade e 0,59% se disseram satisfeitos por ambos os tipos de comercialização.
"Nós já esperávamos por essa decisão do público", frisou Adriano Santos Pereira, presidente da Associação dos Panificadores de Jundiaí (Apan). "A venda por peso é mais justa. O cliente paga exatamente pelo que está levando."
Para cumprir a Portaria, as padarias terão que instalar uma balança específica mas, apesar do investimento, os panificadores não esperam por aumento nos preços. Em Jundiaí, apenas 10% dos estabelecimentos já comercializam o pão por peso, enquanto os demais continuam a vender o produto por unidade.
Segundo Pereira, essas padarias têm dificuldades em cortar os pãezinhos com a mesma massa. "Geralmente, os estabelecimentos fabricam pães que variam entre 50 e 54 gramas cada unidade. Por causa disso, a venda por quilo será mais simples também no âmbito comercial." Inmetro - A pesquisa pública foi realizada pelo Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial). Mais de mil sugestões de clientes e de panificadores foram colhidas durante 60 dias de consulta.
De acordo com a Diretoria de Metrologia Legal do instituto, área responsável pela regulamentação da Portaria 63, 714 pessoas indicaram a preferência pelo uso da balança na compra do pão francês.
A próxima tarefa do Inmetro será elaborar um texto para a Portaria nos próximos 20 dias - a obrigatoriedade entrará em vigor a partir da data de publicação no Diário Oficial da União. O regulamento também fixará um prazo para a adequação dos panificadores, pois alguns estabelecimentos não dispõem de balanças suficientes para a demanda.
Itaú é condenado a indenizar cliente vítima de fraude pela internet
Por: Tribunal de Justiça do Distrito Federal
Transferências de valores da conta poupança da cliente foram realizadas sem autorização O Banco Itaú foi condenado a ressarcir o prejuízo de R$ 15.194,00 de uma cliente que teve a sua conta bancária invadida por meio da internet. O dano material foi confirmado pela 5ª Turma Cível em julgamento realizado nesta segunda, dia 29. Os desembargadores mantiveram, por unanimidade, a sentença do juiz Franco Vicente Piccolo, da 1ª Vara Cível de Brasília. A autora do pedido de indenização conta que foram realizadas transferências de valores de sua conta poupança sem a sua autorização. Disse que ao tomar conhecimento do fato procurou o gerente do banco, que lhe informou ter havido fraude pela internet. O Itaú, no entanto, eximiu-se de qualquer responsabilidade, atribuindo a culpa à cliente, já que as transações foram feitas com o uso de sua senha pessoal. A cliente afirma que jamais perdeu seu cartão bancário, tampouco forneceu sua senha para outras pessoas. Argumenta que o fato decorreu da má prestação do serviço pelo Itaú, que não garantiu o mínimo de segurança nas operações realizadas pela internet. Embora a cliente tenha pedido a condenação do banco também por dano moral, somente o dano material foi comprovado e reconhecido. O Itaú contestou as alegações da autora da ação judicial, alegando que os clientes do banco são advertidos acerca das cautelas necessárias em suas transações eletrônicas. Sustenta que o site do banco é seguro, não possibilitando a terceiros terem acesso às informações pessoais dos seus clientes. O Itaú ressalta que a captura dos dados pode ocorrer por meio de hackers e ataque de vírus, riscos não relacionados ao banco. Segundo o juiz Franco Vicente Piccolo, que julgou a ação com base no Código de Defesa do Consumidor, cabia ao Itaú comprovar a segurança do sistema eletrônico via internet que coloca à disposição de seus clientes, bem como que o mesmo não foi bem utilizado pela autora, ou que as transações por ela efetuadas foram em desconformidade com as normas e orientações de segurança. Porém, o banco não apresentou provas. “Sabe-se que a prestação de serviços por meios eletrônicos tende a fomentar a atividade bancária, reduzir os custos operacionais e aumentar os lucros da instituição financeira”, afirma o juiz. No entanto, o magistrado ressalta que a referida prática traz vários riscos e facilita a ocorrência de fraudes, demonstrando a fragilidade do sistema de transações bancárias pela internet. “Cabe destacar que, em casos tais, a doutrina e a jurisprudência assinalam que a imputação da responsabilidade civil orienta-se pela chamada teoria do risco profissional, nos termos da qual é responsável pela reparação dos danos aquele que maior lucro extrai da atividade que lhe deu origem”, diz. Assim, no entendimento tanto do juiz quanto da 5ª Turma Cível, o Itaú deve indenizar a cliente.
Transferências de valores da conta poupança da cliente foram realizadas sem autorização O Banco Itaú foi condenado a ressarcir o prejuízo de R$ 15.194,00 de uma cliente que teve a sua conta bancária invadida por meio da internet. O dano material foi confirmado pela 5ª Turma Cível em julgamento realizado nesta segunda, dia 29. Os desembargadores mantiveram, por unanimidade, a sentença do juiz Franco Vicente Piccolo, da 1ª Vara Cível de Brasília. A autora do pedido de indenização conta que foram realizadas transferências de valores de sua conta poupança sem a sua autorização. Disse que ao tomar conhecimento do fato procurou o gerente do banco, que lhe informou ter havido fraude pela internet. O Itaú, no entanto, eximiu-se de qualquer responsabilidade, atribuindo a culpa à cliente, já que as transações foram feitas com o uso de sua senha pessoal. A cliente afirma que jamais perdeu seu cartão bancário, tampouco forneceu sua senha para outras pessoas. Argumenta que o fato decorreu da má prestação do serviço pelo Itaú, que não garantiu o mínimo de segurança nas operações realizadas pela internet. Embora a cliente tenha pedido a condenação do banco também por dano moral, somente o dano material foi comprovado e reconhecido. O Itaú contestou as alegações da autora da ação judicial, alegando que os clientes do banco são advertidos acerca das cautelas necessárias em suas transações eletrônicas. Sustenta que o site do banco é seguro, não possibilitando a terceiros terem acesso às informações pessoais dos seus clientes. O Itaú ressalta que a captura dos dados pode ocorrer por meio de hackers e ataque de vírus, riscos não relacionados ao banco. Segundo o juiz Franco Vicente Piccolo, que julgou a ação com base no Código de Defesa do Consumidor, cabia ao Itaú comprovar a segurança do sistema eletrônico via internet que coloca à disposição de seus clientes, bem como que o mesmo não foi bem utilizado pela autora, ou que as transações por ela efetuadas foram em desconformidade com as normas e orientações de segurança. Porém, o banco não apresentou provas. “Sabe-se que a prestação de serviços por meios eletrônicos tende a fomentar a atividade bancária, reduzir os custos operacionais e aumentar os lucros da instituição financeira”, afirma o juiz. No entanto, o magistrado ressalta que a referida prática traz vários riscos e facilita a ocorrência de fraudes, demonstrando a fragilidade do sistema de transações bancárias pela internet. “Cabe destacar que, em casos tais, a doutrina e a jurisprudência assinalam que a imputação da responsabilidade civil orienta-se pela chamada teoria do risco profissional, nos termos da qual é responsável pela reparação dos danos aquele que maior lucro extrai da atividade que lhe deu origem”, diz. Assim, no entendimento tanto do juiz quanto da 5ª Turma Cível, o Itaú deve indenizar a cliente.
SUÍÇA - 1954
Por: Yahoo! Copa do Mundo 2006
A queda do Império húngaro
Campeão:
Alemanha
Vice:
Hungria
Ficha técnica
Sede: SuíçaPaíses inscritos: 39Participantes: 16Gols: 140Média de gols: 5,37Média de público: 36.269
A pequena e brava Suíça - da qual se duvidava poder levar a cabo a tarefa de organizar o Mundial de 1954 - trabalhara com inteligência para que não se repetissem as ausências de quatro anos antes. É claro que os tempos eram outros. Em termos de futebol, principalmente, a guerra tornara-se algo quase remoto. Tanto que a Alemanha, até há bem pouco um monte de ruínas, permitia-se inscrever uma seleção bem mais ambiciosa do que muita gente supunha.
Com uma propaganda maciça, um hábil trabalho diplomático e um natural apelo turístico, os suíços, desde 1952, atraíram a atenção de todo o mundo para o seu campeonato. O resultado disso foi que o número de países inscritos estabeleceu novo recorde: 39. Dentre eles, em sua quinta tentativa, o Brasil. Muita coisa mudara no nosso futebol depois de 1950. Na realidade, desde aquele amargo 16 de julho, mudar passara a ser a palavra de ordem. Assim, o que se fizera de um jeito, ainda que certo, em 1950, teria de ser feito diferente, em 1954. Mas todos concordavam com as mudanças. A começar do técnico: para o lugar de Flávio Costa, Zezé Moreira.
Alfredo Moreira Júnior, um fluminense de Miracema, 46 anos, guardava muitos pontos em comum com Flávio Costa: ambos tinham sido jogadores medíocres antes de se tornarem técnicos, ambos eram austeros disciplinadores, ambos trabalhavam na base da honestidade e da franqueza, ambos exigiam poderes absolutos quando dirigiam um time de futebol. Havia, no entanto, uma diferença realmente significativa entre os dois técnicos: Flávio perdera a Copa do Mundo de 1950 enquanto Zezé, ao assumir o comando da Seleção, no Campeonato Pan-americano de 1952, no Chile, levara o futebol brasileiro a conquistar seu primeiro título no exterior.
Os preparativos para a Copa do Mundo de 1954 começaram com muita antecedência. Pouco antes da meia-noite do dia 25 de maio, num avião da Panair, seguia para a Suíça a primeira turma da delegação de 38 pessoas. Em 16 de julho, o Brasil finalmente estreava na quinta Copa do Mundo. Como acontecera em 1950, o primeiro adversário seria o México, do qual, com toda a razão, Zezé Moreira não tinha o menor receio. A Seleção Brasileira era realmente boa. Uma nova geração de craques substituíra, em alguns casos com vantagem, a geração que chegara ao fim quatro anos antes. Esta seleção, taticamente disciplinada, guardando-se cautelosamente na defesa para explorar os contra-ataques, bem ao gosto de Zezé, venceu a do México por 5 x 0, em Genebra.
Gastando energia O segundo jogo, em Lausanne, já não foi tão tranqüilo: empate de 1 x 1 com a sólida e bem treinada seleção da Iugoslávia, realizando-se em seguida uma prorrogação de 30 minutos. O sistema de disputa desta Copa era bem diferente da de 1950: os 16 finalistas divididos em quatro grupos de quatro; dentro do seu grupo, cada finalista jogava com apenas dois outros; contavam-se os pontos ganhos; e os dois primeiros colocados da chave passavam às quartas-de-final, das quais o campeonato prosseguia pelo sistema de eliminação direta.
Assim, Brasil e Iugoslávia, que haviam derrotado México e França nos jogos de estréia, necessitavam apenas do empate para se classificarem. Mas João Lira Filho, chefe da delegação que se gabava de ser uma autoridade em leis esportivas, simplesmente desconhecia o regulamento da Copa do Mundo. E os brasileiros, pensando que o empate não lhes servia, lutaram desesperadamente na prorrogação com os iugoslavos, por uma vitória desnecessária. Mas o empate permaneceu até o fim da prorrogação.
Nos outros grupos, não houve maiores surpresas. Inglaterra e Suíça passaram bem para as quartas-de-final, numa série de jogos em que a Itália decepcionara e a Bélgica pouco fizera de bom. Já o Uruguai justificava o respeito que todos lhe tinham ao obter o primeiro lugar do grupo, secundado pela Áustria. Mas a maior atração, mesmo, tinha sido a Hungria, líder do seu grupo, com duas arrasadoras goleadas: 9 x 0 na Coréia do Sul e 8 x 3 na Alemanha Ocidental. Sobre esta última, um detalhe: Seppe Herberger, o veterano e astucioso técnico alemão, sabendo que poderia classificar-se num jogo-desempate com a frágil Turquia, poupou vários titulares contra a Hungria, mandando a campo seus atléticos e violentos reservas. Um deles, Liebrich, acertara o tornozelo de Puskas.
Na tarde de quinta-feira, 24 de junho, enquanto Zezé e os dirigentes iam assistir ao sorteio que indicaria quem enfrentaria quem nas quartas-de-final, os jogadores permaneceram concentrados em Macolin. Já então dois sentimentos haviam se apoderado deles, ambos exagerados, ambos incutidos pelo comando da Seleção: o do machismo patriótico e o do medo. O primeiro devia-se à incandescência de alguns dirigentes que insistiam em fazer da Copa do Mundo uma espécie de prova à brasileira dos nossos craques (no fundo, eram ainda os efeitos da derrota de 1950). E o sentimento de medo decorria de tudo o que, àquela altura, já se dizia da Seleção Húngara. E se perdêssemos, qual a reação dos milhões de brasileiros que esperavam da nossa seleção a forra de 16 de julho? Os jogadores pensavam nisso quando Zezé chegou, pálido, a fisionomia preocupada, a voz grave, e confirmou, em tom quase trágico: "Sim, é contra a Hungria..."
Assim, em 27 de junho, brasileiros e húngaros travariam, no estádio Wankdorf, aquela que ficou conhecida como "a batalha de Berna". Os húngaros entraram em campo tranqüilos para enfrentar uma Seleção Brasileira de nervos arrasados. E acabaram vencendo por 4 x 2. Foi uma vitória discutida, alegaram os brasileiros, achando que o juiz inglês, Arthur Ellis, beneficiara a Seleção Húngara.
Uruguai, Alemanha Ocidental e Áustria foram os outros vencedores das quartas-de-final, eliminando, respectivamente, Inglaterra, Iugoslávia e Suíça. Nas semifinais, enquanto os alemães derrotavam os austríacos, Hungria e Uruguai disputavam, em Lausanne, a partida que a imprensa européia classificou de "a decisão moral da quinta Copa do Mundo". Uma inesquecível decisão moral, em que os húngaros - como sempre, até então - já venciam por 2 x 0 antes da metade do primeiro tempo. Mas, numa incrível reação, ditada por um entusiasmo poucas vezes visto num campo de futebol, a velha Celeste Olímpica chegava aos 2 x 2, no final do jogo. Na prorrogação - os uruguaios extenuados, os húngaros ainda inteiros - a Equipe de Ouro marcava mais dois gols e transformava-se não apenas numa das finalistas, mas na própria favorita ao título máximo da quinta Copa do Mundo.
A festa e o forno O jogo com os alemães não preocupava um único húngaro vivo. Desde sexta-feira, 2 de julho, a chuva caíra quase sem parar sobre Berna. Mas os húngaros viviam, com antecedência, em clima de festa. No entanto, na concentração, enquanto Puskas tinha o pé esquerdo enfiado no forno de Bier, Sandor Kocsis, goleador absoluto do campeonato, já com 11 gols marcados em quatro jogos, mostrava-se visivelmente mal-humorado - "Seria ótimo se Puskas pudesse jogar", disse ele a seu companheiro de quarto, Laszlo Budai.
Ferenc Puskas, major da Cavalaria Húngara, capitão da Equipe de Ouro, estrela maior de uma equipe fabulosa, peça mais valiosa da máquina de Gusztav Sebes, realmente jogou. E abriu o marcador. E deu o passe para Czibor marcar o segundo. Mas os 2 x 0 com que os húngaros viraram o primeiro tempo foram apenas uma ilusão. Seus jogadores - entre eles Puskas, mancando um pouco mas certo da vitória - já acenavam para suas esposas, agora sentadas nas tribunas especiais, quando, no segundo tempo, três gols alemães mudaram tudo. Três gols que premiavam uma inacreditável reação. Três gols que deram o título à Alemanha Ocidental e interromperam a longa série invicta da famosa Seleção Húngara.
Para muitos, foi a maior surpresa registrada numa final de qualquer torneio, campeonato ou taça já disputada em solo europeu. Mais que um punhado de craques, desaparecia ali, em campos suíços, todo um espírito. O futebol ofensivo vivera, naquela Copa, seu grande e derradeiro momento: 140 gols em 26 jogos, mais de cinco gols por jogo. Uma derrota do próprio futebol.
Artilheiro
Kocsis (Hungria), 11 gols
Nome completo: Sándor KocsisNascimento: 30 de setembro de 1929, em BudapesteClubes: KTC, Ferencváros, Honvéd, Young Fellows e Barcelona
Ao lado de Puskas, Bozsik, Hidegkuti e Czibor, formava a base da seleção da Hungria dos anos 50. Especialista no jogo aéreo, era chamado de "Cabeça de Ouro". Em 1956, após a invasão de Budapeste por parte de tropas soviéticas, Kocsis decidiu deixar seu país. Teve uma rápida passagem pela Suíça antes de ingressar no Barcelona, onde encerrou a carreira. Em 1978, um problema de irrigação sangüínea levou à amputação de uma de suas pernas. Pouco depois, teve diagnosticado um câncer. Suicidou-se jogando-se da janela de seu quarto no hospital.
A queda do Império húngaro
Campeão:
Alemanha
Vice:
Hungria
Ficha técnica
Sede: SuíçaPaíses inscritos: 39Participantes: 16Gols: 140Média de gols: 5,37Média de público: 36.269
A pequena e brava Suíça - da qual se duvidava poder levar a cabo a tarefa de organizar o Mundial de 1954 - trabalhara com inteligência para que não se repetissem as ausências de quatro anos antes. É claro que os tempos eram outros. Em termos de futebol, principalmente, a guerra tornara-se algo quase remoto. Tanto que a Alemanha, até há bem pouco um monte de ruínas, permitia-se inscrever uma seleção bem mais ambiciosa do que muita gente supunha.
Com uma propaganda maciça, um hábil trabalho diplomático e um natural apelo turístico, os suíços, desde 1952, atraíram a atenção de todo o mundo para o seu campeonato. O resultado disso foi que o número de países inscritos estabeleceu novo recorde: 39. Dentre eles, em sua quinta tentativa, o Brasil. Muita coisa mudara no nosso futebol depois de 1950. Na realidade, desde aquele amargo 16 de julho, mudar passara a ser a palavra de ordem. Assim, o que se fizera de um jeito, ainda que certo, em 1950, teria de ser feito diferente, em 1954. Mas todos concordavam com as mudanças. A começar do técnico: para o lugar de Flávio Costa, Zezé Moreira.
Alfredo Moreira Júnior, um fluminense de Miracema, 46 anos, guardava muitos pontos em comum com Flávio Costa: ambos tinham sido jogadores medíocres antes de se tornarem técnicos, ambos eram austeros disciplinadores, ambos trabalhavam na base da honestidade e da franqueza, ambos exigiam poderes absolutos quando dirigiam um time de futebol. Havia, no entanto, uma diferença realmente significativa entre os dois técnicos: Flávio perdera a Copa do Mundo de 1950 enquanto Zezé, ao assumir o comando da Seleção, no Campeonato Pan-americano de 1952, no Chile, levara o futebol brasileiro a conquistar seu primeiro título no exterior.
Os preparativos para a Copa do Mundo de 1954 começaram com muita antecedência. Pouco antes da meia-noite do dia 25 de maio, num avião da Panair, seguia para a Suíça a primeira turma da delegação de 38 pessoas. Em 16 de julho, o Brasil finalmente estreava na quinta Copa do Mundo. Como acontecera em 1950, o primeiro adversário seria o México, do qual, com toda a razão, Zezé Moreira não tinha o menor receio. A Seleção Brasileira era realmente boa. Uma nova geração de craques substituíra, em alguns casos com vantagem, a geração que chegara ao fim quatro anos antes. Esta seleção, taticamente disciplinada, guardando-se cautelosamente na defesa para explorar os contra-ataques, bem ao gosto de Zezé, venceu a do México por 5 x 0, em Genebra.
Gastando energia O segundo jogo, em Lausanne, já não foi tão tranqüilo: empate de 1 x 1 com a sólida e bem treinada seleção da Iugoslávia, realizando-se em seguida uma prorrogação de 30 minutos. O sistema de disputa desta Copa era bem diferente da de 1950: os 16 finalistas divididos em quatro grupos de quatro; dentro do seu grupo, cada finalista jogava com apenas dois outros; contavam-se os pontos ganhos; e os dois primeiros colocados da chave passavam às quartas-de-final, das quais o campeonato prosseguia pelo sistema de eliminação direta.
Assim, Brasil e Iugoslávia, que haviam derrotado México e França nos jogos de estréia, necessitavam apenas do empate para se classificarem. Mas João Lira Filho, chefe da delegação que se gabava de ser uma autoridade em leis esportivas, simplesmente desconhecia o regulamento da Copa do Mundo. E os brasileiros, pensando que o empate não lhes servia, lutaram desesperadamente na prorrogação com os iugoslavos, por uma vitória desnecessária. Mas o empate permaneceu até o fim da prorrogação.
Nos outros grupos, não houve maiores surpresas. Inglaterra e Suíça passaram bem para as quartas-de-final, numa série de jogos em que a Itália decepcionara e a Bélgica pouco fizera de bom. Já o Uruguai justificava o respeito que todos lhe tinham ao obter o primeiro lugar do grupo, secundado pela Áustria. Mas a maior atração, mesmo, tinha sido a Hungria, líder do seu grupo, com duas arrasadoras goleadas: 9 x 0 na Coréia do Sul e 8 x 3 na Alemanha Ocidental. Sobre esta última, um detalhe: Seppe Herberger, o veterano e astucioso técnico alemão, sabendo que poderia classificar-se num jogo-desempate com a frágil Turquia, poupou vários titulares contra a Hungria, mandando a campo seus atléticos e violentos reservas. Um deles, Liebrich, acertara o tornozelo de Puskas.
Na tarde de quinta-feira, 24 de junho, enquanto Zezé e os dirigentes iam assistir ao sorteio que indicaria quem enfrentaria quem nas quartas-de-final, os jogadores permaneceram concentrados em Macolin. Já então dois sentimentos haviam se apoderado deles, ambos exagerados, ambos incutidos pelo comando da Seleção: o do machismo patriótico e o do medo. O primeiro devia-se à incandescência de alguns dirigentes que insistiam em fazer da Copa do Mundo uma espécie de prova à brasileira dos nossos craques (no fundo, eram ainda os efeitos da derrota de 1950). E o sentimento de medo decorria de tudo o que, àquela altura, já se dizia da Seleção Húngara. E se perdêssemos, qual a reação dos milhões de brasileiros que esperavam da nossa seleção a forra de 16 de julho? Os jogadores pensavam nisso quando Zezé chegou, pálido, a fisionomia preocupada, a voz grave, e confirmou, em tom quase trágico: "Sim, é contra a Hungria..."
Assim, em 27 de junho, brasileiros e húngaros travariam, no estádio Wankdorf, aquela que ficou conhecida como "a batalha de Berna". Os húngaros entraram em campo tranqüilos para enfrentar uma Seleção Brasileira de nervos arrasados. E acabaram vencendo por 4 x 2. Foi uma vitória discutida, alegaram os brasileiros, achando que o juiz inglês, Arthur Ellis, beneficiara a Seleção Húngara.
Uruguai, Alemanha Ocidental e Áustria foram os outros vencedores das quartas-de-final, eliminando, respectivamente, Inglaterra, Iugoslávia e Suíça. Nas semifinais, enquanto os alemães derrotavam os austríacos, Hungria e Uruguai disputavam, em Lausanne, a partida que a imprensa européia classificou de "a decisão moral da quinta Copa do Mundo". Uma inesquecível decisão moral, em que os húngaros - como sempre, até então - já venciam por 2 x 0 antes da metade do primeiro tempo. Mas, numa incrível reação, ditada por um entusiasmo poucas vezes visto num campo de futebol, a velha Celeste Olímpica chegava aos 2 x 2, no final do jogo. Na prorrogação - os uruguaios extenuados, os húngaros ainda inteiros - a Equipe de Ouro marcava mais dois gols e transformava-se não apenas numa das finalistas, mas na própria favorita ao título máximo da quinta Copa do Mundo.
A festa e o forno O jogo com os alemães não preocupava um único húngaro vivo. Desde sexta-feira, 2 de julho, a chuva caíra quase sem parar sobre Berna. Mas os húngaros viviam, com antecedência, em clima de festa. No entanto, na concentração, enquanto Puskas tinha o pé esquerdo enfiado no forno de Bier, Sandor Kocsis, goleador absoluto do campeonato, já com 11 gols marcados em quatro jogos, mostrava-se visivelmente mal-humorado - "Seria ótimo se Puskas pudesse jogar", disse ele a seu companheiro de quarto, Laszlo Budai.
Ferenc Puskas, major da Cavalaria Húngara, capitão da Equipe de Ouro, estrela maior de uma equipe fabulosa, peça mais valiosa da máquina de Gusztav Sebes, realmente jogou. E abriu o marcador. E deu o passe para Czibor marcar o segundo. Mas os 2 x 0 com que os húngaros viraram o primeiro tempo foram apenas uma ilusão. Seus jogadores - entre eles Puskas, mancando um pouco mas certo da vitória - já acenavam para suas esposas, agora sentadas nas tribunas especiais, quando, no segundo tempo, três gols alemães mudaram tudo. Três gols que premiavam uma inacreditável reação. Três gols que deram o título à Alemanha Ocidental e interromperam a longa série invicta da famosa Seleção Húngara.
Para muitos, foi a maior surpresa registrada numa final de qualquer torneio, campeonato ou taça já disputada em solo europeu. Mais que um punhado de craques, desaparecia ali, em campos suíços, todo um espírito. O futebol ofensivo vivera, naquela Copa, seu grande e derradeiro momento: 140 gols em 26 jogos, mais de cinco gols por jogo. Uma derrota do próprio futebol.
Artilheiro
Kocsis (Hungria), 11 gols
Nome completo: Sándor KocsisNascimento: 30 de setembro de 1929, em BudapesteClubes: KTC, Ferencváros, Honvéd, Young Fellows e Barcelona
Ao lado de Puskas, Bozsik, Hidegkuti e Czibor, formava a base da seleção da Hungria dos anos 50. Especialista no jogo aéreo, era chamado de "Cabeça de Ouro". Em 1956, após a invasão de Budapeste por parte de tropas soviéticas, Kocsis decidiu deixar seu país. Teve uma rápida passagem pela Suíça antes de ingressar no Barcelona, onde encerrou a carreira. Em 1978, um problema de irrigação sangüínea levou à amputação de uma de suas pernas. Pouco depois, teve diagnosticado um câncer. Suicidou-se jogando-se da janela de seu quarto no hospital.
BRASIL - 1950
Por: Yahoo! - Copa do Mundo 2006
As batalhas do Maracanã
Campeão:
Uruguai
Vice:
Brasil
Ficha técnica
Sede: BrasilPaíses inscritos: 13Participantes: 13Gols: 88Média de gols: 4Média de público: 60.773
Em 16 de julho, cumpria-se o último capítulo da história da quarta Copa do Mundo. Uma história que começara 12 anos antes, em 1938, quando o jornalista Célio de Barros, representando a CBD no congresso que a FIFA realizara em Paris, lançara oficialmente a candidatura do Brasil à organização da Copa do Mundo de 1942. Com a Alemanha fora de cogitação, o Brasil ficava como único candidato à organização da próxima Copa do Mundo, marcada de início para 1949 e um ano depois transferida para 1950.
Imediatamente, no Rio, os preparativos tiveram início. Um colossal estádio, nos terrenos do antigo Derby Club, teria de ser construído em tempo recorde: faltavam menos de dois anos para a abertura da Copa do Mundo quando a pedra fundamental do Maracanã foi lançada. Outros estádios - em São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba e Recife - eram ampliados ou remodelados em poucos meses.
A quarta Copa do Mundo, se por um lado contava com duas presenças ilustres - o Uruguai, que depois de 20 anos voltava a lutar pela taça de ouro, e a Inglaterra, que finalmente se filiava à FIFA -, por outro se caracterizaria pela ausência de um punhado de países não menos ilustres. Hungria, Tchecoslováquia e Polônia nem chegaram a se inscrever. A Alemanha, arrasada pela guerra, não tinha sequer uma federação nacional. Na América do Sul, as desistências de Argentina, Peru e Equador reduziam de cinco para quatro os classificados nas eliminatórias continentais: Uruguai, Chile, Paraguai e Bolívia. Como resultado, não se conseguiu chegar aos 16 finalistas previstos.
Desde o início, embora entre os convocados estivessem os mais legítimos representantes de uma das mais brilhantes gerações de craques brasileiros, as atenções do torcedor se concentravam em um santista de 43 anos, alto, robusto, de bigodes espessos e poucos sorrisos, em cujas mãos parecia estar o próprio destino do Brasil naquela Copa do Mundo: o técnico Flávio Costa. Na época treinador do Vasco, era então um dos homens de maior prestígio no futebol brasileiro.
Começam as críticas A quarta Copa do Mundo começou fria. Conforme determinava o regulamento, os 13 finalistas foram divididos, por sorteio, em quatro grupos. Uma divisão técnica e aritmeticamente imperfeita, como se verá. O Comitê Organizador cometera a imprudência de confiar apenas no sorteio, em vez de adotar o critério semi-dirigido que prevaleceria nas Copas subseqüentes.
Assim, no Grupo l, ficaram Brasil, Iugoslávia, México e Suíça; no Grupo 2, Inglaterra, Espanha, Chile e Estados Unidos; no 3, Itália, Suécia e Paraguai; e, no 4, apenas Uruguai e Bolívia. Desse modo, enquanto o Brasil, ou a Espanha por exemplo, tinha de disputar três jogos para chegar ao turno final, o Uruguai não precisava de mais do que um - e assim mesmo com a modestíssima Bolívia. Mas, curiosamente, na época ninguém protestou.
Em 24 de junho, o jogo de abertura. Com todos os seus problemas, o Brasil não teve de se esforçar muito para impor-se ao México por 4 x 0. A goleada de estréia não deu para camuflar, aos olhos do torcedor, os defeitos da Seleção Brasileira. Muitos retoques tinham de ser feitos até que ela se tornasse uma equipe realmente capaz de chegar ao título. Por isso, o torcedor paulista que lotou o Pacaembu, naquela quarta-feira, 28 de junho, para ver diante da Suíça o segundo teste da Seleção, tinha motivos de sobra para desconfiar.
Habilmente, visando conquistar aquele torcedor exigente, Flávio fez radicais modificações na equipe. De saída, escalava toda a linha média que era uma espécie de espinha dorsal do São Paulo: Bauer, Rui e Noronha. E, no ataque, se mantinha Baltazar e Friaça em seus postos, mexia nas demais posições, passando Maneca para a meia direita, Ademir para a esquerda no lugar de Jair e - como que para provar aos paulistas que não estava errado na história do curinga - Alfredo II na ponta direita.
Foi um desastre. Onze jogadores que jamais - nem mesmo nos treinos experimentais de Araxá - tinham atuado juntos fatalmente não poderiam entender-se dentro do campo. E o Brasil, depois de virar o primeiro tempo vencendo 2 x 1, acabou esbarrando no ferrolho suíço durante todo o segundo tempo. O torcedor já se impacientava, ao ver o ataque brasileiro afunilar-se entre os beques adversários, e chegava mesmo a esboçar as primeiras vaias, quando, a dois minutos do fim, os suíços contra-atacaram e empataram o marcador.
A reação do torcedor foi de indignação. No Pacaembu, um grupo mais exaltado queimou uma bandeira da CBD. No Rio, em Belo Horizonte, em Porto Alegre, excomungava-se Flávio Costa, o homem que tivera quase quatro meses para armar uma grande seleção e que agora não fazia mais do que tatear, como um cego, as mil peças de um quebra-cabeças.
O intocável Bauer O jogo com a Iugoslávia, no sábado, 1º de julho, era decisivo. Os iugoslavos haviam derrotado sem dificuldade os suíços (3 x 0) e os mexicanos (4 x 1), de modo que, para eliminar os brasileiros e se classificar para o turno final, não precisavam nada mais que de um empate. O jogo seria no Maracanã. Flávio sabia que teria toda a torcida ao seu lado. Mas sabia, também, que aquela poderia ser sua última chance.
Conscientemente ou por acaso, o fato é que Flávio Costa acertou em cheio na escalação da equipe para o jogo que decidiu o Grupo 1. Com uma atuação quase perfeita - que fazia esquecer a má figura de três dias antes -, o Brasil venceu por 2 x 0, gols de Ademir e Zizinho, um em cada tempo. Depois da indefinição inicial, o Brasil não tinha encontrado apenas um time, mas também uma filosofia de jogo.
Uruguai, Suécia e Espanha foram os vencedores dos outros grupos. Como se esperava, os uruguaios passaram facilmente pelos bolivianos, massacrando-os por 8 x 0, em Belo Horizonte. Com essa única vitória - e quase sem suar a camisa - estavam no turno final. Os suecos, tendo pela frente a Itália e um Paraguai brioso, mas limitado, também se classificaram. Tinham uma equipe coesa, fisicamente bem preparada, com um jovem meia-esquerda - Nacka Skoglund, de 18 anos - que começava a pintar entre os craques do campeonato. Por último, os espanhóis, com uma das melhores seleções de toda a história do seu futebol, ficaram com a vaga que os experts europeus previam ser dos ingleses.
A vaga foi decidida no Maracanã - Espanha 1 x 0 Inglaterra -, mas o jogo que moralmente alijou "os reis do futebol" na Copa fora disputado três dias antes, em Belo Horizonte, com os Estados Unidos. Era justo esperar, naquele 29 de junho, no pequeno Estádio Independência, uma tempestade de gols ingleses nas redes do pobre goleiro americano Frank Borghi. Aos 37 minutos do primeiro tempo, Joe Gaetjens, cabeceando desajeitadamente uma bola centrada por Walter Bahr, marcou o que seria o gol único da partida: Estados Unidos 1 x 0 Inglaterra.
A Copa do Mundo, que começara fria, era uma sucessão de grandes emoções no seu turno final. No mesmo dia em que Espanha e Uruguai empatavam por 2 x 2, no Pacaembu, o Brasil partia firme para o título com uma goleada de 7 x 1 sobre a Suécia, no Maracanã. A seleção que vencera a Iugoslávia fora prudentemente mantida por Flávio Costa. E brindara sua torcida com um alegre show de gols, quatro deles de Ademir.
Mas o teste decisivo seria, mesmo, o segundo jogo, em 13 de julho, contra a Espanha. Pelo menos era o que se supunha. É bem possível que, naquela tarde, mais de 200 mil pessoas tenham ido ao Maracanã. Foi um jogo inesquecível. E os brasileiros acabaram conquistando uma histórica vitória por 6 x 1. Em termos de espetáculo, não faltara nada: gols sensacionais, dribles, passes, jogadas perfeitas. De Barbosa a Bigode, incluindo Augusto e Juvenal, uma defesa segura. Bauer e Danilo, uma extraordinária dupla de meio-campo. Zizinho, Ademir e Jair, três fantásticos atacantes.
Da noite de quarta à tarde de domingo, o coração do Brasil bateu em ritmo de festa. A última batalha da guerra seria travada em 16 de julho, com o Uruguai. E todo mundo reconhecia na Seleção Brasileira mais do que uma simples favorita. Para os 51 milhões de brasileiros - a população do país, segundo o censo de 1º de julho daquele ano -, a final seria mera formalidade.
Os jogadores, que até então tinham se concentrado no Joá, aguardavam a final nos alojamentos de São Januário, gentilmente cedidos pelo Vasco da Gama. Era ano de eleições. Já se dizia por toda parte que Flávio Costa teria sua candidatura a vereador lançada nos próximos dias por um partido importante. Mas, enquanto isso não acontecia, outros candidatos agiam. Enquanto isso, em seu quarto de hotel, Obdulio Varela dormia.
Uma tragédia não anunciadaNo dia seguinte, a grande final. Por volta de meio-dia, o Maracanã já estava literalmente lotado (nunca se soube ao certo quantas pessoas estiveram lá, mas não há dúvidas de que o total superou em muito o número oficial de 173.850). Na tribuna de honra, Jules Rimet olhava, um tanto espantado, para o homem alto, de careca reluzente e gestos largos, que empunhava o microfone para um eloqüente discurso antes do jogo. Era o prefeito Ângelo Mendes de Morais: "O governo municipal cumpriu o seu dever construindo o estádio que aí está. Agora, jogadores do Brasil, cumpri o vosso!"
O Brasil inteiro, como Obdulio Varela imaginara, estava ali, naquele estádio. Só que a festa não haveria de ser brasileira. Foi uma final disputadíssima, com um primeiro tempo nervoso, em que os donos da casa, mais ofensivos, tiveram duas excelentes oportunidades de gol. Contudo, desde o início se notara que, desta vez, Zizinho, Ademir e Jair teriam de jogar o dobro para vencer a sólida defesa uruguaia. Lá na frente, lançado sempre na base da velocidade, Ghiggia obrigava Bigode a fazer uma verdadeira ginástica para marcá-lo.
Depois do primeiro tempo sem gols, o Brasil, logo aos 2 minutos do segundo, acordou para o que se acreditava ser uma grande vitória. Friaça, ao receber um passe de Zizinho, bateu Rodríguez Andrade na corrida e chutou cruzado para vencer Máspoli. Todo o Brasil comemorou o gol, sofrido, suado, demorado, mas por fim conquistado.
Os uruguaios, porém, não se entregaram. Com a caracterísitica raça, empataram o jogo, aos 26 minutos: Obdulio Varela entregou a Ghiggia, este passou rápido por Bigode, foi até a linha de fundo e de lá cruzou para Schiaffino emendar de primeira, sem chance para Barbosa.
Faltavam apenas 10 minutos para acabar a partida quando Jules Rimet, recomendado a descer lentamente os lances de escada até o vestiário, deixou a tribuna de honra. Ao seu lado, além de delegados da FIFA e representantes do alto comando da CBD, iam meia dúzia de guardas armados com a missão de proteger a taça de ouro que Rimet levava nas mãos. Lentamente, a comitiva descia em direção ao campo.
Aos 36 minutos - os uruguaios se superando, os brasileiros sem saber se lutavam para manter o marcador ou se se lançavam à frente em busca do segundo gol - deu-se o lance capital do jogo. Mai uma vez acionado pela direita, Ghiggia ameaçou duas vezes passar por Bigode. O zagueiro brasileiro recuava, Ghiggia avançava. Nessa indecisão de Bigode, o jogador uruguaio correu finalmente até a linha de fundo. E, quando se esperava um novo passe para o centro da área, como no lance do primeiro gol, Ghiggia chutou mal, espirrado, torto. E a bola entrou sob o corpo de Barbosa.
O gol de Ghiggia foi recebido em silêncio por todo o estádio. No entanto, sua força fora tão grande, seu impacto de tal forma violento, que o gol, um simples gol, parecia dividir a vida do brasileiro em duas fases distintas: antes e depois dele. Em Montevidéu, dois uruguaios morreram de emoção ao ouvir pelo rádio aquele desfecho inesperado. Aqui, dois brasileiros também não resistiram: um deles foi traído pelo coração, no instante do gol de Ghiggia; outro, procurou a morte por conta própria, atirando-se, tão logo o jogo acabou, do alto da arquibancada para o pátio interno que circunda o estádio.
Eis o MaracanazoQuando Jules Rimet chegou ao campo, para entregar a taça de ouro ao grande capitão Augusto da Costa, não entendeu nada. O jogo já tinha acabado, mas não havia guardas enfileirados, equipes perfiladas, nada, enfim, do que estava previsto pelo cerimonial preparado por Mário Pollo. Com a taça de ouro nas mãos, Rimet via, atônito, um bando de jogadores de camisa azul-celeste saltando de alegria no campo: como vinte anos antes, o Uruguai era o campeão do mundo.
Enquanto os jogadores brasileiros deixavam, desolados, o campo em que haviam perdido a última batalha, Rimet, ainda sem saber ao certo o que tinha acontecido, sentiu a taça escapar-lhe bruscamente das mãos. Pensou em gritar, mas logo viu que os jogadores uruguaios a tinham levado para a tradicional volta olímpica. Depois, o próprio Obdulio Varela veio trazê-la a Rimet, para que o presidente da FIFA, então, a entregasse oficialmente a ele, el gran capitán. Era um uruguaio alto, forte, de cabelos crespos, sisudo e caladão, que tinha a camisa encharcada de suor, como se tivesse, mesmo, enfrentado e vencido um país inteiro.
Artilheiro
Ademir (Brasil), 9 gols
Nome completo: Ademir de MenezesNascimento: 8 de novembro de 1922, em RecifeClubes: Sport, Vasco e Fluminense
Por causa de seu maxilar avantajado, foi conhecido como "Queixada". Foi um dos principais jogadores do Brasil na década de 1940, liderando o "Expresso da Vitória", grande equipe do Vasco na época. Em 1946, o técnico Gentil Cardoso chegou ao Fluminense e disse: "Dêem-me o Ademir que eu lhes darei o título". O atacante foi contratado e o Tricolor ganhou o estadual daquele ano.
As batalhas do Maracanã
Campeão:
Uruguai
Vice:
Brasil
Ficha técnica
Sede: BrasilPaíses inscritos: 13Participantes: 13Gols: 88Média de gols: 4Média de público: 60.773
Em 16 de julho, cumpria-se o último capítulo da história da quarta Copa do Mundo. Uma história que começara 12 anos antes, em 1938, quando o jornalista Célio de Barros, representando a CBD no congresso que a FIFA realizara em Paris, lançara oficialmente a candidatura do Brasil à organização da Copa do Mundo de 1942. Com a Alemanha fora de cogitação, o Brasil ficava como único candidato à organização da próxima Copa do Mundo, marcada de início para 1949 e um ano depois transferida para 1950.
Imediatamente, no Rio, os preparativos tiveram início. Um colossal estádio, nos terrenos do antigo Derby Club, teria de ser construído em tempo recorde: faltavam menos de dois anos para a abertura da Copa do Mundo quando a pedra fundamental do Maracanã foi lançada. Outros estádios - em São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba e Recife - eram ampliados ou remodelados em poucos meses.
A quarta Copa do Mundo, se por um lado contava com duas presenças ilustres - o Uruguai, que depois de 20 anos voltava a lutar pela taça de ouro, e a Inglaterra, que finalmente se filiava à FIFA -, por outro se caracterizaria pela ausência de um punhado de países não menos ilustres. Hungria, Tchecoslováquia e Polônia nem chegaram a se inscrever. A Alemanha, arrasada pela guerra, não tinha sequer uma federação nacional. Na América do Sul, as desistências de Argentina, Peru e Equador reduziam de cinco para quatro os classificados nas eliminatórias continentais: Uruguai, Chile, Paraguai e Bolívia. Como resultado, não se conseguiu chegar aos 16 finalistas previstos.
Desde o início, embora entre os convocados estivessem os mais legítimos representantes de uma das mais brilhantes gerações de craques brasileiros, as atenções do torcedor se concentravam em um santista de 43 anos, alto, robusto, de bigodes espessos e poucos sorrisos, em cujas mãos parecia estar o próprio destino do Brasil naquela Copa do Mundo: o técnico Flávio Costa. Na época treinador do Vasco, era então um dos homens de maior prestígio no futebol brasileiro.
Começam as críticas A quarta Copa do Mundo começou fria. Conforme determinava o regulamento, os 13 finalistas foram divididos, por sorteio, em quatro grupos. Uma divisão técnica e aritmeticamente imperfeita, como se verá. O Comitê Organizador cometera a imprudência de confiar apenas no sorteio, em vez de adotar o critério semi-dirigido que prevaleceria nas Copas subseqüentes.
Assim, no Grupo l, ficaram Brasil, Iugoslávia, México e Suíça; no Grupo 2, Inglaterra, Espanha, Chile e Estados Unidos; no 3, Itália, Suécia e Paraguai; e, no 4, apenas Uruguai e Bolívia. Desse modo, enquanto o Brasil, ou a Espanha por exemplo, tinha de disputar três jogos para chegar ao turno final, o Uruguai não precisava de mais do que um - e assim mesmo com a modestíssima Bolívia. Mas, curiosamente, na época ninguém protestou.
Em 24 de junho, o jogo de abertura. Com todos os seus problemas, o Brasil não teve de se esforçar muito para impor-se ao México por 4 x 0. A goleada de estréia não deu para camuflar, aos olhos do torcedor, os defeitos da Seleção Brasileira. Muitos retoques tinham de ser feitos até que ela se tornasse uma equipe realmente capaz de chegar ao título. Por isso, o torcedor paulista que lotou o Pacaembu, naquela quarta-feira, 28 de junho, para ver diante da Suíça o segundo teste da Seleção, tinha motivos de sobra para desconfiar.
Habilmente, visando conquistar aquele torcedor exigente, Flávio fez radicais modificações na equipe. De saída, escalava toda a linha média que era uma espécie de espinha dorsal do São Paulo: Bauer, Rui e Noronha. E, no ataque, se mantinha Baltazar e Friaça em seus postos, mexia nas demais posições, passando Maneca para a meia direita, Ademir para a esquerda no lugar de Jair e - como que para provar aos paulistas que não estava errado na história do curinga - Alfredo II na ponta direita.
Foi um desastre. Onze jogadores que jamais - nem mesmo nos treinos experimentais de Araxá - tinham atuado juntos fatalmente não poderiam entender-se dentro do campo. E o Brasil, depois de virar o primeiro tempo vencendo 2 x 1, acabou esbarrando no ferrolho suíço durante todo o segundo tempo. O torcedor já se impacientava, ao ver o ataque brasileiro afunilar-se entre os beques adversários, e chegava mesmo a esboçar as primeiras vaias, quando, a dois minutos do fim, os suíços contra-atacaram e empataram o marcador.
A reação do torcedor foi de indignação. No Pacaembu, um grupo mais exaltado queimou uma bandeira da CBD. No Rio, em Belo Horizonte, em Porto Alegre, excomungava-se Flávio Costa, o homem que tivera quase quatro meses para armar uma grande seleção e que agora não fazia mais do que tatear, como um cego, as mil peças de um quebra-cabeças.
O intocável Bauer O jogo com a Iugoslávia, no sábado, 1º de julho, era decisivo. Os iugoslavos haviam derrotado sem dificuldade os suíços (3 x 0) e os mexicanos (4 x 1), de modo que, para eliminar os brasileiros e se classificar para o turno final, não precisavam nada mais que de um empate. O jogo seria no Maracanã. Flávio sabia que teria toda a torcida ao seu lado. Mas sabia, também, que aquela poderia ser sua última chance.
Conscientemente ou por acaso, o fato é que Flávio Costa acertou em cheio na escalação da equipe para o jogo que decidiu o Grupo 1. Com uma atuação quase perfeita - que fazia esquecer a má figura de três dias antes -, o Brasil venceu por 2 x 0, gols de Ademir e Zizinho, um em cada tempo. Depois da indefinição inicial, o Brasil não tinha encontrado apenas um time, mas também uma filosofia de jogo.
Uruguai, Suécia e Espanha foram os vencedores dos outros grupos. Como se esperava, os uruguaios passaram facilmente pelos bolivianos, massacrando-os por 8 x 0, em Belo Horizonte. Com essa única vitória - e quase sem suar a camisa - estavam no turno final. Os suecos, tendo pela frente a Itália e um Paraguai brioso, mas limitado, também se classificaram. Tinham uma equipe coesa, fisicamente bem preparada, com um jovem meia-esquerda - Nacka Skoglund, de 18 anos - que começava a pintar entre os craques do campeonato. Por último, os espanhóis, com uma das melhores seleções de toda a história do seu futebol, ficaram com a vaga que os experts europeus previam ser dos ingleses.
A vaga foi decidida no Maracanã - Espanha 1 x 0 Inglaterra -, mas o jogo que moralmente alijou "os reis do futebol" na Copa fora disputado três dias antes, em Belo Horizonte, com os Estados Unidos. Era justo esperar, naquele 29 de junho, no pequeno Estádio Independência, uma tempestade de gols ingleses nas redes do pobre goleiro americano Frank Borghi. Aos 37 minutos do primeiro tempo, Joe Gaetjens, cabeceando desajeitadamente uma bola centrada por Walter Bahr, marcou o que seria o gol único da partida: Estados Unidos 1 x 0 Inglaterra.
A Copa do Mundo, que começara fria, era uma sucessão de grandes emoções no seu turno final. No mesmo dia em que Espanha e Uruguai empatavam por 2 x 2, no Pacaembu, o Brasil partia firme para o título com uma goleada de 7 x 1 sobre a Suécia, no Maracanã. A seleção que vencera a Iugoslávia fora prudentemente mantida por Flávio Costa. E brindara sua torcida com um alegre show de gols, quatro deles de Ademir.
Mas o teste decisivo seria, mesmo, o segundo jogo, em 13 de julho, contra a Espanha. Pelo menos era o que se supunha. É bem possível que, naquela tarde, mais de 200 mil pessoas tenham ido ao Maracanã. Foi um jogo inesquecível. E os brasileiros acabaram conquistando uma histórica vitória por 6 x 1. Em termos de espetáculo, não faltara nada: gols sensacionais, dribles, passes, jogadas perfeitas. De Barbosa a Bigode, incluindo Augusto e Juvenal, uma defesa segura. Bauer e Danilo, uma extraordinária dupla de meio-campo. Zizinho, Ademir e Jair, três fantásticos atacantes.
Da noite de quarta à tarde de domingo, o coração do Brasil bateu em ritmo de festa. A última batalha da guerra seria travada em 16 de julho, com o Uruguai. E todo mundo reconhecia na Seleção Brasileira mais do que uma simples favorita. Para os 51 milhões de brasileiros - a população do país, segundo o censo de 1º de julho daquele ano -, a final seria mera formalidade.
Os jogadores, que até então tinham se concentrado no Joá, aguardavam a final nos alojamentos de São Januário, gentilmente cedidos pelo Vasco da Gama. Era ano de eleições. Já se dizia por toda parte que Flávio Costa teria sua candidatura a vereador lançada nos próximos dias por um partido importante. Mas, enquanto isso não acontecia, outros candidatos agiam. Enquanto isso, em seu quarto de hotel, Obdulio Varela dormia.
Uma tragédia não anunciadaNo dia seguinte, a grande final. Por volta de meio-dia, o Maracanã já estava literalmente lotado (nunca se soube ao certo quantas pessoas estiveram lá, mas não há dúvidas de que o total superou em muito o número oficial de 173.850). Na tribuna de honra, Jules Rimet olhava, um tanto espantado, para o homem alto, de careca reluzente e gestos largos, que empunhava o microfone para um eloqüente discurso antes do jogo. Era o prefeito Ângelo Mendes de Morais: "O governo municipal cumpriu o seu dever construindo o estádio que aí está. Agora, jogadores do Brasil, cumpri o vosso!"
O Brasil inteiro, como Obdulio Varela imaginara, estava ali, naquele estádio. Só que a festa não haveria de ser brasileira. Foi uma final disputadíssima, com um primeiro tempo nervoso, em que os donos da casa, mais ofensivos, tiveram duas excelentes oportunidades de gol. Contudo, desde o início se notara que, desta vez, Zizinho, Ademir e Jair teriam de jogar o dobro para vencer a sólida defesa uruguaia. Lá na frente, lançado sempre na base da velocidade, Ghiggia obrigava Bigode a fazer uma verdadeira ginástica para marcá-lo.
Depois do primeiro tempo sem gols, o Brasil, logo aos 2 minutos do segundo, acordou para o que se acreditava ser uma grande vitória. Friaça, ao receber um passe de Zizinho, bateu Rodríguez Andrade na corrida e chutou cruzado para vencer Máspoli. Todo o Brasil comemorou o gol, sofrido, suado, demorado, mas por fim conquistado.
Os uruguaios, porém, não se entregaram. Com a caracterísitica raça, empataram o jogo, aos 26 minutos: Obdulio Varela entregou a Ghiggia, este passou rápido por Bigode, foi até a linha de fundo e de lá cruzou para Schiaffino emendar de primeira, sem chance para Barbosa.
Faltavam apenas 10 minutos para acabar a partida quando Jules Rimet, recomendado a descer lentamente os lances de escada até o vestiário, deixou a tribuna de honra. Ao seu lado, além de delegados da FIFA e representantes do alto comando da CBD, iam meia dúzia de guardas armados com a missão de proteger a taça de ouro que Rimet levava nas mãos. Lentamente, a comitiva descia em direção ao campo.
Aos 36 minutos - os uruguaios se superando, os brasileiros sem saber se lutavam para manter o marcador ou se se lançavam à frente em busca do segundo gol - deu-se o lance capital do jogo. Mai uma vez acionado pela direita, Ghiggia ameaçou duas vezes passar por Bigode. O zagueiro brasileiro recuava, Ghiggia avançava. Nessa indecisão de Bigode, o jogador uruguaio correu finalmente até a linha de fundo. E, quando se esperava um novo passe para o centro da área, como no lance do primeiro gol, Ghiggia chutou mal, espirrado, torto. E a bola entrou sob o corpo de Barbosa.
O gol de Ghiggia foi recebido em silêncio por todo o estádio. No entanto, sua força fora tão grande, seu impacto de tal forma violento, que o gol, um simples gol, parecia dividir a vida do brasileiro em duas fases distintas: antes e depois dele. Em Montevidéu, dois uruguaios morreram de emoção ao ouvir pelo rádio aquele desfecho inesperado. Aqui, dois brasileiros também não resistiram: um deles foi traído pelo coração, no instante do gol de Ghiggia; outro, procurou a morte por conta própria, atirando-se, tão logo o jogo acabou, do alto da arquibancada para o pátio interno que circunda o estádio.
Eis o MaracanazoQuando Jules Rimet chegou ao campo, para entregar a taça de ouro ao grande capitão Augusto da Costa, não entendeu nada. O jogo já tinha acabado, mas não havia guardas enfileirados, equipes perfiladas, nada, enfim, do que estava previsto pelo cerimonial preparado por Mário Pollo. Com a taça de ouro nas mãos, Rimet via, atônito, um bando de jogadores de camisa azul-celeste saltando de alegria no campo: como vinte anos antes, o Uruguai era o campeão do mundo.
Enquanto os jogadores brasileiros deixavam, desolados, o campo em que haviam perdido a última batalha, Rimet, ainda sem saber ao certo o que tinha acontecido, sentiu a taça escapar-lhe bruscamente das mãos. Pensou em gritar, mas logo viu que os jogadores uruguaios a tinham levado para a tradicional volta olímpica. Depois, o próprio Obdulio Varela veio trazê-la a Rimet, para que o presidente da FIFA, então, a entregasse oficialmente a ele, el gran capitán. Era um uruguaio alto, forte, de cabelos crespos, sisudo e caladão, que tinha a camisa encharcada de suor, como se tivesse, mesmo, enfrentado e vencido um país inteiro.
Artilheiro
Ademir (Brasil), 9 gols
Nome completo: Ademir de MenezesNascimento: 8 de novembro de 1922, em RecifeClubes: Sport, Vasco e Fluminense
Por causa de seu maxilar avantajado, foi conhecido como "Queixada". Foi um dos principais jogadores do Brasil na década de 1940, liderando o "Expresso da Vitória", grande equipe do Vasco na época. Em 1946, o técnico Gentil Cardoso chegou ao Fluminense e disse: "Dêem-me o Ademir que eu lhes darei o título". O atacante foi contratado e o Tricolor ganhou o estadual daquele ano.
Assinar:
Comentários (Atom)
Em destaque
Tista de Deda participa de debate na UPB sobre altos cachês do São João e alerta para impacto nas finanças municipais
Tista de Deda participa de debate na UPB sobre altos cachês do São João e alerta para impacto nas finanças municipais O prefeito de Jeremo...
Mais visitadas
-
É com profundo pesar que tomo conhecimento do falecimento de José Aureliano Barbosa , conhecido carinhosamente pelos amigos como “Zé de Or...
-
Compartilhar (Foto: Assessoria parlamentar) Os desembargadores do Grupo I, da 2ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Sergip...
-
Tiro no pé : É de se notar que nem os Estados Unidos fizeram barulho sobre o assunto pelo qual se entranhou a mídia tupiniquim
-
. Nota da redação deste Blog - Que Deus dê todo conforto, força e serenidade para enfrentar este luto.
-
O mundo perdeu uma pessoa que só andava alegre, cuja sua ação habitual era o riso, um pessoa humilde que demonstrava viver bem com a vida...
-
O problema econômico do nosso vizinho vai requerer um bom caldeirão de feijão e uma panela generosa de arroz. Voltar ao básico Por Felipe Sa...
-
Por`ESTADÃO O País assistiu, estarrecido, ao sequestro das Mesas Diretoras da Câmara e do Senado por parlamentares bolsonaristas que decidir...
-
É com profunda indignação, tristeza e dor que registro o falecimento do meu amigo, o farmacêutico Pablo Vinicius Dias de Freitas , aos 46...
-
Foto Divulgação - Francisco(Xico)Melo É com profunda tristeza que recebi a notícia do falecimento do ...