quarta-feira, fevereiro 08, 2023

Tiro no pé! Críticas de Lula ao BC podem elevar dívida pública em R$ 100 bilhões


Cabe ao Senado ficar “vigilante“ sobre Campos Neto e taxa de juros, diz Lula

Lula, gênio da raça, cada vez que abre a boca causa uma crise

Nathalia Garcia
Folha

Os ruídos gerados pelas críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Banco Central e à condução da política monetária têm aprofundado a piora das expectativas de inflação a cada semana e pressionado os juros, surtindo efeito reverso ao pretendido pelo governo em seu discurso.

O boletim Focus, que capta a percepção do mercado financeiro para indicadores econômicos, mostrou nesta segunda-feira (6) que a projeção para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) para este ano saltou para 5,78%, ante 5,74% na semana anterior. É a oitava semana seguida que a pesquisa traz uma revisão para cima do índice de inflação.

INFLAÇÃO FUTURA – Para 2024, período de maior relevância para a atuação do BC hoje, a expectativa também subiu, passando de 3,90% para 3,93% – terceira elevação consecutiva.

Para a taxa básica de juros (Selic), a estimativa se manteve estável em 12,50% em 2023 e foi a 9,75% ao final do próximo ano, contra 9,50% na semana anterior.

De acordo com estimativa feita por Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do BC e presidente do conselho da Jive Investments, as falas de Lula podem resultar em um custo adicional na administração da dívida pública ao redor de R$ 100 bilhões neste ano, caso a curva de juros continue acima do nível observado antes das declarações.

FALANDO DEMAIS – “É dar um tiro no pé”, resume ele sobre as declarações do presidente. De acordo com o economista, o confronto do presidente com o BC é a principal razão de as expectativas de longo prazo estarem subindo. A questão fiscal entraria em segundo plano, com o receio dos economistas de que o Brasil não tenha uma política fiscal sustentável.

“O presidente Lula tem sido muito vocal contra a política monetária, contra o BC, até pondo uma certa dúvida se ele concorda com a independência da instituição. Isso coloca em risco a capacidade de o BC fazer o trabalho dele”, diz.

Na quinta-feira (2), um dia depois de o BC subir o tom dos alertas sobre riscos fiscais, Lula chamou o presidente da instituição, Roberto Campos Neto, de “esse cidadão” e disse que pode rever a autonomia da autoridade monetária –vaprovada em lei em fevereiro de 2021.

CONTRA A AUTONOMIA – A autonomia formal do BC já foi alvo de Lula em outras ocasiões. Semanas antes, o presidente afirmou que duvidava que Campos Neto fosse mais independente do que Henrique Meirelles em seus mandatos anteriores, entre 2003 e 2010.

Presidente do BC nos governos anteriores de Lula e ministro da Fazenda na gestão Temer, Meirelles apoiou o projeto de autonomia formal do BC e defende a sua manutenção.

“Avançamos ao ponto da autonomia operacional e depois conquistamos a independência legal, não há razão nenhuma para voltar atrás, porque só vai criar prejuízos a todos e ao país”, afirma. “Retirar isso é algo que vai deteriorar completamente as expectativas.”

TUDO AO CONTRÁRIO – Para José Júlio Senna, ex-diretor do BC e chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre-FGV, Lula deveria “agradecer e não se revoltar” com a autonomia da instituição. Na visão dele, se não fosse isso, a instituição poderia ter sido utilizada politicamente pelo governo Jair Bolsonaro (PL) na disputa eleitoral contra o petista.

“Se não tivesse a independência, o governo anterior teria avançado em cima do BC e forçado uma política monetária mais frouxa que o ajudasse na eleição. Tenho zero dúvida de que isso ia acontecer”, afirma.

A politização dos juros chegou até o presidente do TCU (Tribunal de Contas da União), que reagiu em defesa do BC. “Não é possível [o governo federal] falar em endividamento e esperar que autoridade monetária fique parada, de braços cruzados”, afirmou Bruno Dantas.

HORA DE TRABALHAR – Para Senna, é hora de Lula trabalhar “enos com a retórica, e mais com as evidências. “Resolver problema do juro real alto atacando o BC, atacando a independência da instituição e pensando em elevar metas de inflação definitivamente são movimentos contraproducentes. Não só não ajudam como atrapalham”, afirma.

O ex-diretor do BC pondera que o novo governo tem pressa em recuperar o crescimento econômico e mostrar que conduz “muito bem” a economia, dado o ambiente político polarizado. Mas alerta que não há solução de curto prazo.

“Não há alternativa à queda dos juros reais a não ser por meio de ajustes robustos nas contas públicas, encampando o lado da despesa e acompanhado de um novo arcabouço fiscal de médio e longo prazo”, diz.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG 
– Em tradução simultânea, Lula está perdendo uma excelente oportunidade de ficar calado. Como o mercado estava tranquilo, ele mesmo se encarregou de provocar uma crise. É tão ignorante que confunde autonomia com independência. Amanhã, vamos publicar um artigo exclusivo de Mathias Erdtmann, sobre a necessidade de o Banco Central ter ainda mais poder e metas, como ocorre nos EUA e na Nova Zelândia, por exemplo. 
(C.N.)


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