terça-feira, janeiro 10, 2023

Os golpistas, os cúmplices e os lenientes




Por Demétrio Magnoli (foto)

A invasão do Capitólio deu-se em 6 de janeiro de 2021. Exatos dois anos depois, tivemos o “nosso Capitólio”. Lá, Donald Trump, o presidente golpista, tentou destruir a democracia americana instruindo uma turba com núcleos de milícias supremacistas a invadir o Congresso, na hora da oficialização do resultado eleitoral. Aqui, Jair Bolsonaro, o presidente golpista, fugiu para os EUA após a posse do novo presidente, entregando a seus articuladores de redes sociais a missão de promover um badernaço.

Os golpistas são todos conhecidos. Nomes e RGs. Alguns poucos brilham no inquérito do STF. A maioria segue livre, leve e solta, graças à cumplicidade da PGR (leia-se Augusto Aras) e da Polícia Federal. Atrás dos cúmplices diretos, avultam as sombras de certo número de generais, almirantes e brigadeiros que cultivam um sonho maluco de retorno ao passado.

Na Brasília do “nosso Capitólio”, a cumplicidade direta ficou a cargo do governador Ibaneis Rocha e de seu secretário da (In)Segurança Pública, Anderson Torres, ex-ministro da (In)Justiça bolsonarista. O circo golpista era pedra cantada. Simulou-se proteção policial aos Três Poderes. O contingente diminuto passou horas fingindo cumprir sua função, em meio a selfies com os vândalos. A repressão efetiva só começou no fim da tarde, quando Ibaneis sentiu a água chegar ao seu pescoço.

A intervenção federal na Segurança Pública do DF é pouco. Soluço quase ridículo. Sem intervenção federal no próprio governo do DF, teremos desistido de proteger a ordem democrática.

Gleisi Hoffmann, presidente do PT, correu para acusar Ibaneis. Teria, uma vez na vida, razão completa — não fosse a circunstância de que a acusação se destinava a desviar os holofotes do governo Lula. Sem leniência, o “nosso Capitólio” nunca ocorreria.

Nos EUA, a invasão do Congresso surpreendeu a todos. Aqui, era segredo de domínio público. Durante semanas, inclusive a inaugural do novo governo, o ministro da Justiça, Flávio Dino, clamou pela supressão dos acampamentos golpistas. Contudo a leniência de Lula travou-lhe o passo.

O presidente resolveu incumbir o ministro da Defesa, José Múcio, da dissolução dos acampamentos. Múcio engajou-se no esporte da procrastinação, entregando-se ao papo de aranha (“os atos fazem parte da democracia”) e mesmo a um vergonhoso tipo de solidariedade com os golpistas (“tenho amigos e familiares nos acampamentos”). Mas o equívoco de Lula não foi, exatamente, dar a incumbência a Múcio — foi dá-la ao ministério errado. As hordas acamparam nas ruas, diante dos quartéis — não dentro deles. Cabia às forças policiais, não às Forças Armadas, removê-las da cena. Por que a Força Nacional não agiu?

A resposta encontra-se na inclinação de Lula à contemporização. O presidente temia confrontar a facção militar bolsonarista — e, para circundar o problema, deflagrou a “Operação Múcio”. O certo, institucionalmente, era encarregar Dino de coordenar, sem demora, a repressão policial. Ninguém duvida de que o governo teria o amparo de Alexandre de Moraes e da maioria decente do STF para baixar o cassetete da democracia.

O circo do vandalismo golpista desmoraliza, em definitivo, o bolsonarismo. Quantos dos eleitores de Bolsonaro permanecerão solidários com seu ídolo, depois do 8 de janeiro de Brasília?

O ponto, porém, é outro. Lula desistirá da leniência mais escandalosa para não desistir de governar. Os peixinhos pequenos da baderna serão processados e presos. Talvez caiam alguns peixes médios, como Anderson Torres, que se expuseram em demasia. Mas e os peixes grandes? Como fica o cenário para os chefes, os incentivadores, os articuladores, os financiadores dos acampamentos golpistas?

Nos EUA, fizeram-se mais de 900 prisões — e o inquérito continua a se alargar. Por aqui, cumpriremos as leis? Ou escolheremos a célebre “cordialidade brasileira”, na forma consagrada da conciliação por cima?

Democracia se faz com diálogo — e também com repressão. O cassetete democrático obedece rigidamente às regras do processo legal, mas não exclui a prisão. Passa da hora de brandi-lo. Sem leniência.

O Globo

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