sábado, dezembro 17, 2022

Lula precisa parar de se exibir como um verdadeiro salvador da democracia


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Charge do Fernando Cabral (Arquivo Google)

Deu em O Globo

Por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a Polícia Federal (PF) cumpriu nesta quinta-feira mais de cem mandados de busca e apreensão para investigar apoiadores do presidente Jair Bolsonaro suspeitos de organizar atos antidemocráticos desde o anúncio do resultado do segundo turno da eleição presidencial. Já era hora de uma resposta ampla e coordenada.

O Brasil não pode ficar refém de nenhum grupo violento, de direita ou esquerda. O Estado tem o dever de prender os culpados por promover manifestações que agridem o Estado Democrático de Direito de forma violenta, como se viu na segunda-feira em Brasília.

PUNIÇÃO EXEMPLAR – Pelo mesmo motivo, as investigações de empresários do ramo dos transportes e caminhoneiros que bloquearam estradas têm de prosseguir. A punição precisa ser exemplar para que não haja nenhum incentivo a quem cogite a hipótese de voltar a propagar o caos.

O rigor, porém, não deve ser contaminado por acusações levianas nem por um espírito vingativo. Um dia depois do ataque de bolsonaristas à sede da PF em Brasília, o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, aumentou a temperatura e mentiu ao declarar que Bolsonaro “continua incentivando os ativistas fascistas que estão nas ruas se movimentando”.

Bolsonaro pode ser acusado de omissão — e isso também é grave —, mas não de incentivo. Nesse ponto, se distanciou de seu guru Donald Trump. Em 6 de janeiro de 2021, o então presidente americano insuflou pelas redes sociais as hostes que se mobilizavam, mandou preparar o carro presidencial para que o levasse ao Capitólio invadido e agrediu o agente do serviço secreto que o impediu. Não houve nada semelhante por aqui.

SALVADOR DA PÁTRIA – Ao fustigar Bolsonaro, Lula está interessado em manter vivo o clima da campanha eleitoral e em continuar coberto pelo manto de “salvador da democracia”. Seus gestos são repetidos por caciques petistas como a deputada federal e presidente do PT, Gleisi Hoffmann, que chamou Bolsonaro de cúmplice e o acusou de abrigar envolvidos.

O discurso inflamado tem contaminado até figuras mais sensatas. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o futuro ministro da Justiça, Flávio Dino, do PSB, declarou que não haverá ninguém “no dia da posse quebrando prédio em Brasília”. “Isso não vai ter porque, se tiver, aí já estará sob nosso comando a partir do dia 1º de janeiro”, disse em tom de ameaça.

O brasileiro não precisa que Lula, Gleisi ou Dino fiquem a todo tempo associando os golpistas e vândalos a Bolsonaro. Isso não é segredo para ninguém. As digitais estão por todos os lados: no vestuário, nos métodos, nas ideias e nas teses conspiratórias.

PROBLEMA PARA TODOS – Cada carro incendiado, cada vidro quebrado, cada estrada bloqueada gera desaprovação não apenas de quem votou em Lula, mas também entre os eleitores de Bolsonaro.

Além de serem um problema para o próprio bolsonarismo, os atos golpistas e de vandalismo servem de álibi para o PT desviar a atenção da opinião pública de assuntos incômodos, como mudanças na Lei das Estatais para abrir a porta a aliados no novo governo, o caráter perdulário e irresponsável da PEC da Transição ou as contradições da nova política econômica.

Quanto a golpistas e vândalos, o melhor a fazer é deixá-los se imolar, enquanto são alvo do escárnio da população e do rigor da lei.

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