Publicado em 23 de junho de 2021 por Tribuna da Internet
Eurípedes Alcântara
O Globo
Edward Luttwak é um desses gênios obscuros. Fala pouco. Acerta tudo. Foi apelidado de “Maquiavel de Maryland”. Tive sorte. Sorte mesmo de conversar longamente com ele em diversas ocasiões. Numa delas, pediu dicas detalhadas sobre a estrutura fundiária do Pantanal Mato-Grossense. O acaso se deu quando me disseram em Nova York que Luttwak esnobava jornalistas. Gosto de desafios. Liguei para a casa dele e me apresentei já esperando uma resposta negativa.
— Sou Eurípedes Alcântara, jornalista brasileiro, e gostaria de entrevistá-lo.
Depois de uma breve pausa, ele disse:
— Você pode vir até aqui na semana que vem? Reserve uma tarde inteira para conversarmos.
Surpresa total. Não entendi nada.
DESFEZ O MISTÉRIO – No dia combinado, lá estava eu. Bati a campainha. Ele próprio atendeu e desfez o mistério:
— Sabe por que você está aqui hoje? Porque você se chama Eurípedes e é brasileiro. É muita coincidência. Sou fascinado pelo teatrólogo grego Eurípedes e tenho um exemplar da tragédia “Ifigênia em Aulis” impresso em 1500, ano da Descoberta do Brasil.
O livro raríssimo estava dentro de um estojo de cristal guardado num cofre climatizado. Passamos quase a tarde toda conversando. Era o auge da globalização econômica.
Luttwak me surpreendeu ainda mais por nadar contra a corrente do pensamento dominante naquele tempo, recomendando a algumas regiões do mundo, como o Pantanal, a Toscana, na Itália, e Bordeaux, na França, “toda a distância possível do progresso e da pressa da modernidade”.
SEM PROGRESSO – Disse Luttwak que a qualidade dos vinhos de Bordeaux, a riqueza ambiental e histórica da Toscana ou a beleza prístina do Pantanal só têm a perder com isso que chamamos de progresso.
Ao nos despedirmos, ele agradeceu:
— Obrigado, não é todo dia que eu posso passar uma tarde toda dizendo “Eurípedes… Eurípedes”.
Mistérios das sinapses, lembrei-me de Luttwak ao ler no excelente Brazil Journal, de Geraldo Samor, uma reportagem sobre o sucesso da Daki, startup de entregas ultrarrápidas, que se propõe a bater à sua porta com as compras de supermercado 15 minutos depois de você fazer o pedido pelo aplicativo do celular. Quinze minutos. Minha reação imediata foi querer experimentar. Não deu, pois a Daki ainda não atende o bairro onde moro.
POR QUE A URGÊNCIA? – Pensei então por que cargas-d’água alguém precisaria que um pé de alface ou um quilo de farinha chegue a sua casa mais rapidamente que uma ambulância?
Peguei na estante o livro de 1999 de Luttwak “Turbocapitalismo”, lançado em 2001 no Brasil pela Nova Alexandria. O Maquiavel de Maryland sabia das coisas. Alertava sobre um dos subprodutos indesejados do inegável progresso material trazido pela globalização econômica: a sensação incômoda de que estamos sempre devedores e atrasados, querendo tudo instantaneamente, pois em algum lugar do mundo sempre haverá alguém fazendo mais rápido e mais eficientemente algo melhor e mais barato do que nós.
Cinco anos antes, em 1994, no artigo amplamente citado “Por que o fascismo é a onda do futuro”, publicado na “London Review of Books”, Luttwak previra que o crescimento econômico dinâmico traria fenômenos sociais desagradáveis, como aumento das taxas de criminalidade, insegurança emocional e profissional, o que levaria muita gente a se encantar com as promessas de governantes autoritários e Estados inchados, provedores.
UM CONSELHO – Nascido na Romênia em 1942, Luttwak emigrou para os Estados Unidos. Pela última notícia que tive dele, tinha se associado com um milionário americano e comprado uma fazenda na Bolívia, bem perto da fronteira com o Brasil.
Da visita, lembro-me também da escultura de bronze do conde Claus von Stauffenberg, general que falhou ao tentar matar Adolf Hitler, do totem de madeira de Friedrich Nietzsche olhando tristemente para fora da janela, e do conselho:
“O pessimismo, como sabia seu homônimo grego, ajuda a enxergar os homens como eles são, e não como queremos que eles sejam”.