Publicado em 21 de junho de 2021 por Tribuna da Internet

Charge do Aroeira (diariodocentrodomundo.com.br)
Pedro do Coutto
O número alarmante de mortos, consequência tanto do coronavírus quanto da omissão do governo federal, refletiu-se nas ruas do país no sábado através de uma onda gigantesca de protestos contra um desastre chamado Bolsonaro.
A pressão da revolta popular cada vez aumenta mais e a repercussão nos jornais e nas emissoras de televisão neste domingo objetivando a questão, teve o Palácio do Planalto protagonizando uma situação irreversível de repúdio ao que se passa no país.
NAUFRÁGIO – Um processo que expõe, além do enorme desgaste, o naufrágio evidente ocasionado pela falta de administração que incrivelmente conseguiu o que parecia impossível; todos os setores da vida nacional marcados por um maremoto de problemas que além da pandemia vão até o meio ambiente, arrastando pelo caminho qualquer perspectiva de êxito nas urnas de um presidente que ainda por cima se apresenta como candidato à reeleição de si mesmo.
Além disso, constata-se uma verdade terrível; o maior adversário de Jair Bolsonaro é ele mesmo. A onda está afetando toda sociedade brasileira porque existe um fantasma que ameaça a todos, o da contaminação que diariamente atinge de maneira virulenta mais de 60 mil pessoas. A média deste fato faz com que todas as pessoas se considerem como alvos da omissão e do negativismo. A estatística diária de mortes voltou a ultrapassar a escala de duas mil pessoas, fenômeno que torna insuportável o atendimento pelas redes hospitalares públicas e privadas.
REAÇÃO CONTRA O PLANALTO – Qualquer cidadão ou cidadã que possa ser contaminado representa uma reação a mais contra o plano alto do Planalto que se rebaixa ao que se refere ao apoio popular, como comprovam as pesquisas feitas até agora. É o momento, penso eu, de o Datafolha realizar um novo levantamento capaz de medir os reflexos da caravana de motociclistas de apoio a Bolsonaro e da onda arrebatadora dos protestos de sábado no Brasil.
A cada dia que passa, o presidente da República perde apoio, perde votos, perde a perspectiva de continuar. Só não perde a visão doentia de quem, no fundo, parece desejar punir a população sem culpa, mas castigada por exemplos de ministros que conduzem a uma insatisfação que se reflete na pressão destrutiva, característica maior de um presidente que também se encontra cada vez mais distante do candidato.
A contradição entre os compromissos de campanha e os descompromissos da Presidência fazem com que a partir de hoje o próprio Bolsonaro chegue à difícil conclusão de que a sua derrota nas urnas está sendo desenhada na consciência dos eleitores e eleitoras que se veem perdidos em seu próprio país.
TRANSFERÊNCIA DE VOTOS – Neste domingo, Roberto de Oliveira, Folha de São Paulo, focalizou a participação de ex-eleitores de Bolsonaro nas ruas da capital paulista e também no Rio de Janeiro e em Brasília. Trata-se de uma transferência de votos motivada por uma aparente esterilização de atos corruptos, mas que ultrapassaram o limite entre a vida e a morte. O governo Bolsonaro faleceu por si mesmo.
No O Globo, Daniel Gullino, Filipe Vidon, Bianca Gomes e Guilherme Caetano colocam em destaque, com base em foto da Avenida Paulista, não só o número de manifestantes, mas sobretudo a intensidade das manifestações. Uma intensidade que só é alcançada de fato quando há motivo capaz de impulsionar a multidão na busca por mudança. Sentindo a perda da substância na estrada das urnas, é mais que provável que Jair Bolsonaro volte a sua atenção para outro foco. Em toda a história universal, só há dois caminhos para o poder, às urnas ou as armas.
No caso do Brasil em 2021, as urnas precisam prevalecer, principalmente pelo fato de termos vivido 21 anos sob uma ditadura. A mesma que adeptos de Bolsonaro levam às ruas, protestando contra si próprios porque não encontram motivo para culpar as famílias dos que perderam a vida, nem na oposição política. Conforme dito, Bolsonaro é o maior adversário de si mesmo. Os fatos comprovam e o horizonte para ele pode ser incerto, mas para os eleitores e eleitoras o rumo é um reflexo de uma calamidade em nosso país.