quinta-feira, dezembro 17, 2020

Procuradores reagem a projeto na Câmara que blinda advogados: “Carta branca para lavagem de dinheiro”

Publicado em 17 de dezembro de 2020 por Tribuna da Internet

Associaçõe se uniram contra proposta que tramita em regime de urgência

Rayssa Motta
Estadão

Na semana em que a Câmara dos Deputados se prepara para votar mudanças no regramento para atividades de advocacia, a Associação Nacional dos Membros do Ministério Público (Conamp) e a Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) se uniram para subscrever uma nota contra o projeto de lei pautado em regime de urgência no plenário.

No documento, tornado público nesta quarta-feira, dia 16, as entidades argumentam que os efeitos práticos da proposta de autoria do deputado Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG) seriam a blindagem de crimes cometidos por advogados. “Carta branca para a prática de lavagem de dinheiro, algo jamais visto no Brasil ou no exterior”, dizem as associações.

ALTERAÇÕES – O texto altera o Estatuto da Advocacia e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para incluir disposições sobre a atividade privativa de advogado, a fiscalização, a competência, as prerrogativas, as sociedades de advogados, o advogado associado, os honorários advocatícios e os limites de impedimentos ao exercício da advocacia.

Entre as mudanças propostas, estão a exigência de provas periciadas e validadas pelo Poder Judiciário para autorizar o cumprimento de mandados de busca e apreensão em escritórios de advocacia ou a homologação de acordos de colaboração premiada que envolvam advogados. Pela norma, ‘mero indício, depoimento ou colaboração premiada’ não bastam para justificar a medida cautelar ou a formalização da delação.

Outra regra transfere ao Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil competência privativa para analisar e decidir sobre a regularidade da prestação do serviço jurídico pelo advogado, em processo disciplinar próprio e resguardado o sigilo – o que, na avaliação da Conamp e da ANPR, abre margem para dificultar investigações envolvendo lavagem de dinheiro via contratos simulados com bancas de advocacia.

BLINDAGEM – “A criação de uma casta de privilegiados e blindados para a prática de crimes não encontra amparo na Constituição da República e nas leis de nosso país ou estrangeiras, assim como nos tratados internacionais. O advogado é indispensável à democracia e à Justiça. Este papel, no entanto, não pode se constituir em salvo conduto para o cometimento de atos ilícitos, nem significar tratamento diferenciado quando se trata de ato criminoso”, afirmam a Conamp e a ANPR.

Na justificativa do projeto de lei, o deputado Paulo Abi-Ackel diz que o reforço das prerrogativas dos advogados tem o escopo de ‘proteger a sociedade civil de atos de arbítrio estatal’.

A votação foi marcada cerca de três meses após um desdobramento da Operação Lava Jato tornar réus advogados suspeitos de envolvimento em um esquema de tráfico de influência que, segundo o Ministério Público Federal, desviou R$ 151 milhões do Sistema S (Fecomércio, Sesc e Senac) do Rio.

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