EDITORIAL: A Dignidade de Itamar e a Lama de Hoje – A Pressão Sobre Jaques Wagner e a Necessidade do Afastamento para Defesa
Por José Montalvão
A história política do Brasil é rica em lições que os governantes atuais parecem insistir em ignorar. Na memória recente da nossa República, o governo do presidente Itamar Franco (1992-1994) destacou-se por um padrão de exigência ética e moralidade que deixou saudades. Naquela época, o presidente adotava a postura intransigente de que sua gestão não toleraria qualquer envolvimento com denúncias. Diante de suspeitas, ministros e assessores diretos se afastavam ou eram prontamente demitidos para que pudessem responder às investigações e provar sua inocência longe das benesses e do peso da máquina pública.
Os episódios da era Itamar são emblemáticos e pedagógicos:
Henrique Hargreaves (Casa Civil): Um dos homens de maior confiança de Itamar Franco, pediu demissão imediatamente após ser citado na CPI do Orçamento em 1993. Somente após ser cabalmente inocentado pela Justiça e pelo relatório final da comissão, retornou ao cargo em 1994.
Margarida Coimbra do Nascimento (Transportes): Foi demitida em 1994, com menos de três meses no cargo, após o presidente tomar conhecimento de que ela era casada com o diretor de uma empresa envolvida em escândalos.
Outros Casos: Ministros de peso como Alexandre Costa e Eliseu Resende também enfrentaram denúncias e foram corajosamente afastados do governo durante aquele mandato.
A regra de Itamar era clara: limpe seu nome primeiro, tente voltar ao governo depois.
A Queda de Braço em Brasília: O Isolamento de Jaques Wagner
Saltamos para esta sexta-feira, 19 de junho de 2026, e o contraste com o passado é assustador. Uma operação de bastidores, deflagrada com o aval do presidente Lula, tenta convencer o atual líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), a entregar o cargo após ser alvo de uma nova e demolidora fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal.
A PF cumpriu 18 mandados de busca e apreensão expedidos pelo ministro do STF, André Mendonça, vasculhando endereços ligados a Wagner em Salvador, no hotel onde ele reside em Brasília, e até nas residências de seu enteado, Eduardo Sodré Martins, e da esposa deste, Bonnie Bonilha. O caso envolve graves suspeitas de recebimento de valores ligados ao Banco Master e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
A permanência de Wagner na liderança tornou-se juridicamente e politicamente insustentável. Contudo, em vez de adotar a postura altiva e imediata de Henrique Hargreaves na década de 90, o senador baiano apega-se à cadeira. Em entrevista considerada "acima do tom" por membros do próprio governo, Wagner tentou blindar-se na amizade pessoal com Lula, afirmando achar "muito difícil" que o presidente mexa na sua posição devido à relação de confiança entre ambos.
A Hipocrisia do "Chumbo Trocado" e o Prejuízo ao País
O presidente Lula, embora tenha ligado para prestar solidariedade ao abalo emocional do aliado, não deu garantias de manutenção no cargo. O Planalto quer que a renúncia parta do próprio Wagner, sob o argumento de que ele precisa se dedicar exclusivamente à sua defesa. Afinal, as explicações dadas pelo senador na TV foram consideradas inteiramente insuficientes dentro do palácio.
Para piorar o cenário, o escândalo de Jaques Wagner virou um presente de bandeja, uma munição de calibre grosso para a oposição. Aliados do governo já avaliam que a lama que atinge o líder do PT no Senado servirá de perfeito espelho e discurso de defesa para Flávio Bolsonaro (PL). Flávio, flagrado em conversas com o mesmo ex-banqueiro Daniel Vorcaro para obter recursos para o filme “Dark Horse”, usará o caso para relativizar suas próprias acusações. É a mais pura e nefasta guerra de chumbo trocado, onde a lama de um lado tenta justificar a imundície do outro.
Conclusão: O Exemplo do Passado Deve Prevalecer
O meu ponto de vista permanece inalterado, firme e coerente: que se quebre quem for podre! Seja Jaques Wagner, seja a bancada da oposição com suas rachadinhas, seja quem for. O Brasil não pode continuar refém de políticos que colocam seus projetos pessoais e suas defesas criminais acima do interesse público.
O senador Jaques Wagner deveria mirar-se no espelho da história e honrar os exemplos de dignidade de ministros como Henrique Hargreaves. Entregar a liderança não é assumir culpa, é respeitar a liturgia do cargo, o Senado da República e o povo brasileiro. Se o parlamentar está convicto de sua integridade, que se afaste, use seus advogados (e que estes não esqueçam de assinar as procurações nos autos!) e limpe seu nome na Justiça antes de querer liderar o país. O povo está cansado do cinismo de Brasília; a moralidade e a soberania da lei devem imperar doa a quem doer!
Blog de Dede Montalvão: Resgatando a dignidade da história republicana, cobrando coerência ética das autoridades e exigindo que a lama política não paralise o progresso do Brasil!
José Montalvão Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da ABI (C-002025
