
Bolsonaro e Mourão já estão rompidos e apenas se aturam
Pedro do Coutto
O editorial da primeira página da edição de domingo da Folha de São Paulo, a reportagem de Gustavo Uribe e Júlia Chaib, o artigo de Jânio de Freitas e o espaço que Élio Gaspari ocupa aos domingos, tanto em O Globo quanto na Folha, acentuam que o governo Jair Bolsonaro está vivendo uma crise gravíssima. destacada por impasses e contradições que criaram uma atmosfera política igual a aquela que marcou o desfecho de 1964 que culminou coma queda do presidente João Goulart.
A densidade desta fase ao mesmo tempo em que eleva a temperatura do país também assinala uma desorganização quase geral, que está tolhendo os passos do presidente da República e assinalando que há pedras no seu caminho, como na poesia de Drummond.
MAIS DIVERGÊNCIAS – Os repórteres Gustavo Uribe e Júlia Chaib destacaram as divergências entre Bolsonaro e Hamilton Mourão decorrente da posição do vice em relação a Amazônia e a irredutibilidade de Bolsonaro para forçar uma situação capaz de levar Ricardo Salles a sair do Ministério do Meio Ambiente.
A meu ver, já deveria ter saído ha muito tempo, pois só fornece argumentos que agravam o problema do desmatamento e das queimadas. O vice-presidente da República propôs a organização de um sistema com base militar para representar o Brasil na reunião do meio ambiente marcada para o ano que vem.
O presidente Bolsonaro entretanto, colocou nas redes sociais que o Ministro Salles será o representante brasileiro na conferência. Com isso, o general Mourão sentiu-se desprestigiado.
TEXTO DEVASTADOR – O editorial da Folha foi um dos tetos mais violentos e também realistas contra Jair Bolsonaro, a quem o jornal chama de assassino por sua posição negativa no combate a pandemia do coronavírus. O artigo frisa também que passou de todos os limites a estupidez do presidente da República. Chega de molecagens no caso da vacinação, disse o artigo.
Jânio de Freitas ataca Bolsonaro e estende a ofensiva ao general Augusto Heleno, por ter mobilizado a Agência Brasileira de Inteligência no sentido de anular o processo que tramita na Justiça contra o senador Flávio Bolsonaro. É um escândalo, caso de impeachment, a conduta da presidência da República num assunto criminal que envolve o senador, enfatizou o jornalista.
Elio Gaspari parte também para o ataque, apontando a incapacidade do presidente em administrar o país. E acrescenta que, além de tudo, Bolsonaro está estudando uma forma de substituir Ernesto Araújo no Ministério das Relações Exteriores.
TEMPESTADE INSTITUCIONAL – Como se verifica, estamos atravessando uma verdadeira tempestade institucional, fomentada pela convergência dos interesses públicos legítimos com os interesses particulares, área em que também estão situados Fabrício Queiroz e sua mulher no caso das rachadinhas.
A estrada de saída está cada vez mais estreita e flutua no ar a sensação quase febril de uma ruptura dentro da democracia, na qual talvez o general Hamilton Mourão seja um caminho democrático, institucional e praticamente inevitável, através de um impeachment.