BRASÍLIA - No Palácio do Planalto, o clima era de guerra. Heitor de Aquino levava uma pistola 45 na cintura. Hugo Abreu tinha como sombra três sargentos e um tenente, fortemente armados. João Baptista Figueiredo mandara instalar uma metralhadora Ponto 50, antiaérea, no teto do edifício. Apenas o general Golbery do Couto e Silva mantinha-se tranqüilo em seu gabinete, lendo "A poética", de Aristóteles.
O secretário de Imprensa, Humberto Barreto, revezava-se com seu principal auxiliar, o professor Osvaldo Quinçan, atendendo os telefonemas da imprensa, que não paravam de tocar. Segredos, no Brasil, levam geralmente quinze minutos para se tornarem conhecidos.
O presidente Ernesto Geisel, de resto irritadiço, às vezes violento, mandava chamar os auxiliares para saber se os planos políticos e militares vinham sendo milimetricamente cumpridos. Porque a reação do general Silvio Frota estava prevista. Afinal, as principais unidades militares de Brasília obedeciam às ordens do ministro do Exército.
Se decidissem invadir o Palácio do Planalto, a resistência teria que acontecer na bala, até uma solução política. Mesmo assim, a Presidência da República tomara suas precauções. A Brigada de Artilharia sediada em Cristalina, próxima a Brasília, era comandada por um general casado com uma filha do general Orlando Geisel, irmão do presidente. Desde a véspera havia sido deslocada para a periferia da capital.
Qualquer reação dos partidários de Frota estaria restrita aos limites do Distrito Federal. O problema seria o Plano Piloto e adjacências, se os "frotistas" tomassem a iniciativa, como queriam os chefes do Centro de Informações do Exército, o Ceiex, que se armaram e foram guarnecer o "Forte Apache".
Mas tinha mais. Também na véspera, o general Hugo Abreu, ex-comandante da Brigada Pára-Quedista, no Rio, havia determinado a seus antigos comandados que se preparassem para uma ação inusitada. Desde as seis da manhã que quatrocentos "boinas vermelhas" encontravam-se dentro dos aviões de transporte, no Rio, armados e embalados, prontos para voar até Brasília e, se necessário, saltarem sobre a Praça dos Três Poderes, usando suas metralhadoras desde lá de cima, para "libertar" o presidente da República.
No Setor Militar Urbano, o general Silvio Frota hesitava em desencadear uma ação militar, da qual sairia vitorioso no primeiro momento, depondo o presidente da República, ou apelar para os comandantes dos quatro Exércitos para o apoiarem naquilo que seria um golpe branco.
Mandou seus coronéis se dirigirem ao aeroporto, por volta de uma hora da tarde, para aguardar os comandantes de Exército que chegavam, conduzindo-os ao "Forte Apache". Seria o sinal de que estariam com ele e não com o presidente Geisel.
O problema é que também essa manobra estava prevista no Palácio do Planalto. Coronéis da Presidência da República já se encontravam no aeroporto da capital, com carros e ajudantes-de-ordem, à espera dos generais de quatro estrelas. Se os convencessem a ir primeiro ao gabinete de Geisel, estariam vitoriosos.
Como estamos no Brasil, situações que seriam cômicas se não fossem trágicas aconteceram no saguão de desembarque de passageiros. Os coronéis de um lado e de outro estavam carecas de se conhecer, uns da presidência, outros do gabinete do ministro do Exército. Só que fingiam nunca ter-se visto. Ignoravam-se. Ainda esta vez prevaleceu o planejamento do Planalto. Os coronéis da Presidência da República, alguns da Aeronáutica, conseguiram entrar na pista e abordar os generais antes dos adversários.
Aliás, os comandantes dos Exércitos já haviam se decidido, enquanto os aviões aterrissavam: estavam com o presidente da República, general Ernesto Geisel, não com o ministro Silvio Frota. Apenas um deles, o comandante militar da Amazônia, general Euler Bentes Monteiro, aceitou tomar o rumo do "Forte Apache", mas, mesmo assim, depois de uma volta pelo local, sem sair do carro, mandou tocar para o Palácio do Planalto.
Estava decidida a guerra. Os pára-quedistas não precisaram vir do Rio. A guarnição que tomava conta do Congresso, também trocada, do Batalhão de Guardas para o Regimento de Cavalaria, recebeu de seu comandante, íntimo amigo do general João Baptista Figueiredo, uma instrução inusitada: "Os comunistas estão tentando dar um golpe e poderão chegar aqui em caminhões do Exército, com fardas do Batalhão de Guardas ou da Polícia do Exército. Se chegarem a menos de cem metros, fogo neles!"
Eram cinco da tarde quando, no Palácio do Planalto, o presidente Geisel é avisado de que o general Silvio Frota aceitava sua demissão e estava pronto para transmitir o Ministério do Exército ao general Belford Bethlem. Encerrava-se a batalha que não houve, com um adendo: o general Silvio Frota fez distribuir pela imprensa um longo manifesto, onde denunciava o avanço do comunismo no Brasil, acusando o presidente Geisel de haver reatado relações com a China, reconhecido o governo marxista de Angola e estar trabalhando para a prevalência da União Soviética sobre os Estados Unidos.
No final, seguia-se uma lista de noventa funcionários públicos, inclusive ministros, que estavam a serviço do comunismo. Encabeçava a lista o general Golbery do Couto e Silva...
Fonte: Tribuna da Imprensa
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