SÃO PAULO - A destinação de verbas federais para Murici (AL), a terra do clã dos Calheiros, numa proporção bem maior que a de outras cidades alagoanas, é apenas mais uma na longa lista de acusações que, desde 25 de maio, esvaziaram completamente o prestígio político do presidente licenciado do Congresso, senador Renan Calheiros PMDB-AL).
Desde aquele dia, quando a revista "Veja" divulgou a primeira dessas suspeitas, até terça-feira da semana passada, quando Renan deixou o cargo - em tese, por 45 dias -, o nome dele estava no centro de quatro ou cinco escândalos e a resistência a deixar a presidência o isolou.
Foram 139 dias em que Renan esbravejou, manobrou no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar do Senado e no plenário, jurou que jamais deixaria o posto - tudo em vão. Ao fim, abandonado pelo governo, PT e PMDB, afastou-se para "demonstrar de forma cabal" que "não precisaria do cargo" para mostrar ao País a inocência.
O primeiro dessas escândalos veio a público quando a "Veja" o acusou de recorrer a um lobista da construtora Mendes Júnior para pagar despesas que tinha com a jornalista Mônica Veloso, de Brasília, com quem possuía, fora do casamento, uma filha de três anos. Ao defender-se, ele piorou a situação: apresentou argumentos que se mostraram falsos e notas que a Polícia Federal (PF) descobriu serem frias, sobre operações de venda de gado em Alagoas .
Em seguida, revelou-se uma operação suspeita, a venda de uma fábrica de bebidas para a Schincariol por R$ 27 milhões, muito mais do que valia. Surgiu a suspeita de que parte desse dinheiro seria um pagamento a Renan para intermediar dificuldades da fábrica de cerveja com o Fisco e o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A terceira denúncia foi a de que o presidente licenciado do Congresso teria comprado, com ajuda de laranjas, duas emissoras de rádio e um jornal em Alagoas, sem nada informar à Receita Federal. A quarta dava conta de que Renan teria participado, com outros congressistas, da arrecadação de propinas para o PMDB em vários ministérios.
O único momento de alegria do presidente licenciado, nesses quatro meses e meio, foi ser absolvido pelo plenário do Senado, onde 46 senadores se recusaram a votar pela cassação, em setembro. Agora, o maior desafio será, ao fim dos 45 dias de licença, dispor de condições para retornar ao cargo - uma hipótese em que, no Legislativo, quase ninguém mais acredita.
Fonte: Tribuna da Imprensa
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