sexta-feira, julho 04, 2025

O que explica a eleição de um socialista para prefeito de Nova York?

Publicado em 4 de julho de 2025 por Tribuna da Internet

Who Is Zohran Mamdani? Meet the Democratic Candidate for NYC Mayor - WSJ

Zohran Mamdani é da ala socialista dos democratas

João Pereira Coutinho
Folha

Nunca levei a sério filmes de zumbis. Por que motivo eles estão sempre tão bravos? Na minha modesta opinião, é melhor estar meio-vivo que completamente morto. Eu próprio preferia andar por aí, meio cambaleante, mas ainda funcional, do que estar a sete palmos, imóvel, no caixão.

Se eu fizesse um filme de zumbis, o herói principal nunca fugiria deles. Ia tentar bater um papo. Eles vinham, todos tortos, e o personagem diria: “Que é isso? Calma, gente! Aproveitem a vida. Arranjem trabalho, botem uma pinturinha, passem um batonzinho.”

Mesmo os hábitos alimentares deles me parecem excessivos. Carne humana o tempo todo? Não é saudável. Tentaria diversificar a dieta com peixe, alguns legumes, alguma fruta.

EDUCAR O ZUMBI – Meu filme ideal seria sobre a educação de um zumbi. Ou como transformá-lo num membro útil da sociedade. Conheço casos de gente sem cérebro ou sem modos que conseguiu se dar bem na vida —por que não um zumbi?

Tentei explicar isso para minha esposa no meio do filme do Danny Boyle, “Extermínio”, mas ela pediu silêncio — e o resto do cinema aplaudiu. Meu reino já não é deste mundo. Mas insisto: como explicar a obsessão da cultura contemporânea com nossos amigos descerebrados?

Por tédio, talvez. Vivemos mais. Vivemos melhor. Nossas sociedades seriam irreconhecíveis para as vidas inseguras e precárias de nossos antepassados. Mas apesar disso, ou por causa disso, sentimos uma vontade animal de fantasiar nossa aniquilação física. Os zumbis são o apocalipse da classe média gentrificada.

SEMPRE EXISTIRAM – Especialistas no assunto, como o estimável Ian Olney, discordam. Mortos-vivos no cinema e na televisão sempre existiram, escreveu ele em seu livro “Zombie Cinema”. A questão é que houve uma explosão desse gênero na virada do milênio —e por motivos bem dramáticos.

O 11 de Setembro, o aquecimento global, a crise financeira de 2008, a crise dos refugiados no Mediterrâneo em 2015 e, claro, a pandemia de Covid —tudo isso só fez multiplicar o número de mortos andantes.

Seguindo esse raciocínio, os zumbis representam a ameaça terrorista, o colapso ambiental, o fim do capitalismo tardio, o medo do “estrangeiro” ou da contaminação viral —é só escolher. Eu me recuso.

VEM A PERGUNTA – Sempre que encontro um zumbi na tela, minha vontade é oferecer um banho, indicar um terapeuta, talvez um bom barbeiro. Estar meio-morto não é desculpa para abrir mão da higiene e do convívio social.

Era a pergunta de um milhão de dólares: como é possível que os mais pobres votem em Donald Trump? Não saberão eles que o partido republicano defende políticas —cortes fiscais para os mais ricos, desregulação, privatizações— que não os beneficiam?

Essa pergunta me dava bocejos. E então lembrava James Carville, estrategista da campanha de Bill Clinton em 1992, que resumiu o espírito da contenda com uma frase famosa: “É a economia, estúpido!”

É A CULTURA, ESTÚPIDO! – Em 1992, era a economia, de fato. Hoje? É a cultura, estúpido. Nem tudo é materialismo nessa vida. Os mais pobres votam na direita populista porque, entre outras razões, as causas culturais ou identitárias são mais importantes do que os benefícios econômicos.

Votam em Trump porque abominam as elites metropolitanas. Votam em Trump porque são mais conservadores em temas como o aborto ou as armas. Votam em Trump porque são mais patriotas.

O mesmo acontece na paradoxal relação entre as classes urbanas mais afluentes e a esquerda. Basta olhar para a eleição primária do partido democrata para a prefeitura de Nova York.

O NOVO PREFEITO – A vitória do socialista Zohran Mamdani, segundo o New York Times, também se deveu ao voto dos mais ricos e educados. Exatamente aqueles que mais têm a perder com as políticas socialistas do candidato — congelamento de aluguéis, impostos sobre a riqueza, restrições à especulação imobiliária etc.

O voto é cultural, não econômico. Para os apoiadores de Mamdani, “globalizar a intifada” é mais importante do que qualquer apoio à iniciativa privada.

Significa isso que a esquerda americana finalmente encontrou a receita para derrotar Trump e o trumpismo? Não me parece. Se a maioria dos eleitores — especialmente nos estados-pêndulos — continuar sendo a classe trabalhadora branca (como ainda é o caso em Wisconsin, Michigan, Pensilvânia e Ohio), não vai ser com Mamdani que esse feitiço será quebrado.


Advogado comprova que a delação de Mauro Cid tem “mentiras descaradas”

 

Advogado comprova que a delação de Mauro Cid tem “mentiras descaradas”

Advogado de Bolsonaro acredita que acareação pode beneficiar ex-presidente

Vilardi quer incluir provas, mas Moraes mantém o sigilo

Ana Pompeu
Folha

O ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), indeferiu nesta segunda-feira (30) o pedido da defesa de Jair Bolsonaro (PL) sobre o perfil nas redes sociais que aponta ser do delator Mauro Cid. Os advogados do ex-presidente queriam que o relator incluísse no processo da trama golpista de 2022 documentos que provariam a vinculação do perfil ao ex-ajudante de ordens.

“Conforme já ressaltado inúmeras vezes, não será admitido tumulto processual e pedidos que pretendam procrastinar o processo. O curso da ação penal seguirá normalmente, e a Corte analisará as questões trazidas no momento adequado”, disse o ministro.

GABRIELA4702 – O advogado Celso Vilardi, que representa o ex-presidente, apresentou ainda nesta segunda os documentos para contestar a afirmação do tenente-coronel de que não usava o perfil “Gabrielar702” para se comunicar com pessoas no Instagram.

A equipe de Bolsonaro pedia a juntada das informações mencionadas aos autos do processo antes da apresentação das alegações finais da PGR (Procuradoria-Geral da República).

As informações indicariam que o perfil no Instagram está vinculado ao e-mail “maurocid@gmail.com” —que, por sua vez, foi criado em 2005 e está atrelado ao número do celular de Cid apreendido pela PF.

MENTIRAS DESCARADAS – A defesa de Bolsonaro tem questionado a validade da colaboração premiada de Mauro Cid De acordo com o advogado, a vinculação do número de celular de Cid ao e-mail que criou o perfil no Instagram prova que “as mentiras do delator não só têm se amontoado, como são cada vez mais descaradas e, aparentemente, envolvem destruição de prova”.

Ele incluiu documentos na petição ao STF que mostram que, segundo dados do Google e da Meta, dona do Instagram, o computador que administrava o e-mail ficava no endereço de Mauro Cid.”

A resposta do relator Moraes negando o pedido teve apenas uma página.

ALEGAÇÕES FINAIS – O ministro abriu a fase de alegações finais do processo contra o núcleo central da trama golpista na última sexta (27).

É a última etapa antes do julgamento de Bolsonaro e dos outros sete réus por integrar organização criminosa que supostamente tentou dar um golpe de Estado contra a eleição de Lula (PT) em 2022.

No caso da conta “Gabrielar702”, o advogado Luiz Eduardo Kuntz, defensor de outro réu, Marcelo Câmara, enviou Supremo fotos e áudios de conversas que ele diz ter mantido com o militar nas quais ele supostamente conta detalhes de seus depoimentos e faz desabafos, o que colocaria em xeque a delação.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – O ministro Moraes conduz o inquérito de uma forma totalmente parcial e dirigida. Quando é apresentada uma prova para condenar qualquer réu, ele não aceita que também possa ser usada para defender outro réu. E o pior é que mantém a prova sob sigilo. E ainda há quem chame isso de Justiça. (C.N.)

Coordenador do Prerrogativas vê ‘sabotagem clara’ de partidos com ministérios

 Foto: Marcelo Camargo/Arquivo/Agência Brasil

O presidente Lula04 de julho de 2025 | 06:59

Coordenador do Prerrogativas vê ‘sabotagem clara’ de partidos com ministérios

brasil

A decisão de partidos com ministério no governo Lula de acionarem o STF (Supremo Tribunal Federal) para manter a derrubada do aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) é uma sabotagem clara e exige que o presidente Lula repactue suas alianças, avalia o coordenador do Prerrogativas, Marco Aurélio de Carvalho.

Oito partidos disseram que vão protocolar nesta quinta-feira (4) uma ADC (Ação Declaratória de Constitucionalidade) para confirmar a validade do decreto aprovado pelo Congresso que derrubou os aumentos das alíquotas do IOF. Desses, três têm ministérios no governo Lula: PP (Esporte), Republicanos (Portos e Aeroportos) e União Brasil (Comunicações, Turismo e Desenvolvimento Regional).

“Eu acho, no mínimo, uma ousadia um partido da base entrar com uma medida dessa”, afirma o coordenador do grupo de advogados ligado ao governo.

“Tem que haver uma repactuação de governabilidade. Nós temos que construir com esses partidos que fazem parte da base uma agenda mínima”, complementa. “Quem quiser continuar conosco tem que ter compromisso com a reconstrução do Brasil. É o momento de a gente fazer uma repactuação, de discutirmos a relação, fazer uma DR.”

Para ele, a postura de partidos com ministério e que não compartilham da agenda do governo mostra uma “sabotagem clara”. “O projeto que se sagrou vencedor nas eleições é muito claro. Ninguém pode dizer que o Lula prometeu uma coisa e está fazendo outra”, afirma.

Marco Aurélio também vê o Congresso buscando avançar em mais atribuições do governo, em uma tentativa de “impor um regime parlamentarista sem consulta popular”. “Eles já capturaram parte do orçamento com as emendas impositivas e agora estão querendo avançar, abocanhando uma outra parte das competências constitucionalmente atribuídas ao Executivo”, complementa. “É um tsunami institucional.”

Apesar das críticas, o coordenador do Prerrogativas afirma que é possível reconstruir a relação dentro de uma agenda mínima. “Eu acho que os líderes partidários, o presidente da Câmara [Hugo Motta] e o presidente da República vão agir com serenidade, pensando no Brasil.”

Danielle Brant/FolhapressPolitica Livre

Inquérito no STF que mira bolsonaristas será mantido porque fatos se multiplicaram, diz Barroso

 Foto: Gustavo Moreno/Arquivo/Divulgação

Luís Roberto Barroso04 de julho de 2025 | 06:48

Inquérito no STF que mira bolsonaristas será mantido porque fatos se multiplicaram, diz Barroso

brasil

O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Luís Roberto Barroso, confirmou que o tribunal decidiu manter aberto o inquérito das milícias digitais, que mira o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e aliados.

“O problema são os fatos que se multiplicam e, portanto, levaram à prorrogação. Descobriram-se coisas novas”, declarou. A Folha revelou em junho que o inquérito seria mantido em 2026.

Barroso afirmou nesta quinta-feira (3) ao C-Level Entrevista, videocast semanal da Folha, que havia acertado com o ministro Alexandre de Moraes o encerramento do inquérito, mas os planos mudaram porque novas revelações teriam levado à necessidade de mais apurações. Segundo o ministro, o que provoca tensão atualmente não é a investigação, mas o julgamento da trama golpista.

Na entrevista, o presidente do STF declarou que não cabe discutir anistia para acusados da trama golpista antes de uma eventual condenação.

“Em linha de princípio, anistia é uma competência do Congresso Nacional”, disse ele, ressaltando que o STF poderia vir a analisar alguma medida eventualmente aprovada pelo Parlamento. Alguns colegas do ministro veem uma anistia como inconstitucional.

Barroso comentou ainda o que seria um excesso de judicialização, que leva questões políticas com frequência ao Supremo. Ele disse considerar “razoável” uma discussão para limitar o acesso de partidos menores ao tribunal, “para dar mais representatividade a essas demandas”.

O ministro concedeu a entrevista de Portugal, onde participa do Fórum de Lisboa, conhecido como “Gilmarpalooza”.

Ele disse haver uma “percepção equivocada” sobre a atuação de ministros em eventos com a participação de empresários. “Quando eu converso com os indígenas ou os quilombolas, não tem nenhum problema. Quando eu converso com empresários, as pessoas levantam todo tipo de suspeitas.”

Inquérito das milícias digitais
O ministro Alexandre [de Moraes] e eu havíamos conversado e tínhamos a ideia de que o inquérito pudesse terminar no final do ano passado ou no início desse. O problema são os fatos, que se multiplicam e portanto levaram efetivamente à provocação [do Supremo].

Julgamento da trama golpista
O grande problema, que cria ainda um ambiente menos pacificado no país, [é] o julgamento de uma suposta tentativa de golpe, que, se tiver ocorrido, se as provas confirmarem, a gente tem que julgar mesmo, porque é preciso encerrar esses ciclos da história brasileira em que quem perdia dava golpe.

Anistia pelo 8 de Janeiro
Em relação ao 8 de Janeiro, eu mesmo apoiei a modificação da legislação para reduzirem-se as penas e quase todos serem soltos. Na votação, eu votei vencido. Não acumulei [condenações pelos crimes de] golpe de Estado com abolição violenta do Estado de Direito. Eu dei penas menores dos que as que prevaleceram. E agora há um projeto sendo discutido no Congresso para fazer prevalecer esse entendimento.

Anistia na trama golpista
Eu não gosto de especular sobre o que não aconteceu. O único comentário que eu faria, em tese, é que a anistia geralmente vem depois que existe alguma punição. Anistia antes da punição eu acho que não tem precedente.

Portanto, essa discussão, se a anistia é legítima ou não, deve ser uma discussão pós-eventual condenação. Antes de eventual condenação, eu acho que essa não é uma discussão própria.

O Supremo, ao contrário até do que se difunde, costuma ser deferente para com as escolhas políticas do Congresso Nacional, inclusive a anistia política que se deu a torturadores e representantes da ditadura, embora seja um tema polêmico, o Supremo validou na ocasião, considerando que era uma decisão política legítima do Congresso Nacional.

Eu não estou antecipando um julgamento sobre eventual futura anistia, porque depende muito de outras circunstâncias, mas em linha de princípio a anistia é uma competência do Congresso Nacional.

Gilmarpalooza e proximidade com empresários
Eu recebo os representantes dos quilombolas, e ainda recentemente fui no Quilombo dos Palmares, assim como fui a Xapuri, no Acre, assim como fui a Humaitá, na Amazônia, assim como fui a Altamira, fui a Rio Branco, fui a Porto Velho. Isso não é notícia. Quando eu venho a Lisboa, é notícia.

Existe um grande preconceito no Brasil contra a livre iniciativa, porque, quando eu converso com os indígenas ou com os quilombolas, não tem nenhum problema. Quando eu converso com empresários, as pessoas levantam todo tipo de suspeitas. E os empresários são concorrentes entre si, não é homogeneidade. Eu acho que é uma percepção injusta do que acontece.

Imagem do STF
Houve um aumento expressivo da judicialização no Brasil de uma maneira geral, tanto no Supremo como nas instâncias inferiores. O Judiciário passou a ser um poder mais relevante na vida brasileira, que desagrada mais gente e que, portanto, virou alvo de mais críticas e de mais insatisfações.

Parte das críticas são justas, e a gente precisa melhorar. E outras são injustas e vêm como consequência de uma certa má vontade dos interesses que são contrariados.

Mas a gente julga questões que contrapõem agronegócio e comunidades indígenas. Um dos dois lados vai ficar insatisfeito. A gente julga questões tributárias, o governo ou o contribuinte fica insatisfeito. Todo mundo vocaliza a sua insatisfação.

Eu não me impressiono muito com pesquisas de opinião pública que criticam o Judiciário, porque a importância de um tribunal não pode ser aferida mesmo em pesquisas de opinião pública. A gente interpreta a Constituição e com frequência desagrada muita gente.

Responsabilidade das big techs
Eu considero que [o resultado do julgamento do Marco Civil da Internet] é, talvez, é o melhor tratamento jurídico que há desse tema no mundo.

Acesso de partidos ao Supremo
Você tem uma quantidade imensa de atores que podem provocar o Supremo, o que inclui todos os partidos políticos, inclui a Mesa da Câmara, a Mesa do Senado, o presidente da República, o procurador-geral da República, todas as entidades de classe de âmbito nacional, todas as confederações sindicais e a Ordem dos Advogados do Brasil […] Acho que há em tramitação uma proposta que limita, em relação aos partidos políticos, um mínimo de representantes no Congresso. Isso me parece razoável para dar talvez mais representatividade a essas demandas.

Permanência no Supremo
Olha, eu estou tão feliz no Supremo. Saiu uma notícia de que eu iria para alguma embaixada. Não é correta essa notícia. Eu não tenho nenhuma pretensão de ir para uma embaixada. Eu tenho cumprido o meu papel no Supremo da melhor forma que eu posso.

Não pretendo ir para nenhuma embaixada e posso ficar [no STF] até os 75 anos. Estou longe disso.

Quando a minha mulher estava viva e estava doente, eu realmente compartilhei com pessoas amigas que eu pensava em me aposentar depois da presidência para aproveitar a vida que ela tinha. Infelizmente, ela foi embora e essa motivação eu já não tenho. Então, não sei. Eu posso ficar até os 75 anos, vamos ver.

Adriana Fernandes, Bruno Boghossian e Julianna Sofia/FolhapressPolitica Livre

Congresso segue aprovando projetos que elevam gastos enquanto cobra cortes do governo

 Foto: Kayo Magalhães/Arquivo/Câmra

Plenário da Câmara04 de julho de 2025 | 07:35

Congresso segue aprovando projetos que elevam gastos enquanto cobra cortes do governo

brasil

Em uma semana marcada por cobranças do Congresso para que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) corte gastos, deputados e senadores agiram na direção contrária ao seu próprio discurso e aprovaram projetos que elevam as despesas e renúncias fiscais da União.

Uma das iniciativas equipara à deficiência a fibromialgia (que causa dor crônica generalizada, sem causa inflamatória aparente) e a síndrome de dor regional complexa. A classificação abre caminho para que pessoas com essas condições tenham acesso ao BPC (Benefício de Prestação Continuada), benefício no valor de um salário mínimo (R$ 1.518) pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda.

O BPC é hoje uma das principais fontes de preocupação do governo, devido ao aumento no número de beneficiários. Nos 12 meses até maio, o governo gastou R$ 121,5 bilhões com o programa, 12% a mais do que nos 12 meses anteriores, já descontada a inflação do período. O Executivo inclusive propôs no ano passado uma série de apertos nas regras de concessão, boa parte delas rejeitada pelo Legislativo.

Os indivíduos diagnosticados com as doenças agora classificadas como deficiência também terão direito a outros benefícios com impacto nas contas públicas, como isenção de IR (Imposto de Renda) sobre rendimentos e de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) na compra de veículos. Também poderão disputar vagas em concursos públicos por meio de cotas.

O projeto foi votado pelo Senado na quarta-feira (2) e segue agora para sanção de Lula, uma vez que já havia sido aprovado na Câmara. Dentro do governo, sua aprovação gerou consternação, por se dar justamente no momento em que o próprio Congresso cobra corte de gastos.

Apesar do discurso dos parlamentares, nas últimas semanas eles demonstraram inclinação distinta também em outros projetos.

Na última quarta, a CFT (Comissão de Finanças e Tributação) da Câmara aprovou um projeto que fixa em R$ 3.036 o piso salarial para trabalhadores de limpeza urbana e ainda garante aposentadoria especial para a categoria —ou seja, eles podem se aposentar mais cedo e com regras mais benevolentes, com impacto nas contas da Previdência Social.

Além disso, o piso pressiona o caixa dos municípios —muitos deles, em dificuldades financeiras. A CNM (Confederação Nacional de Municípios) estima um impacto entre R$ 4,9 bilhões e R$ 5,9 bilhões ao ano. Diante da fatura, o temor é que as prefeituras pressionem a União por algum tipo de ajuda, caso o projeto avance no Congresso. O texto ainda precisa passar por outras comissões e pelo plenário da Câmara.

O Senado também mantém na pauta um projeto que pode gerar uma fatura extra de mais de R$ 40 bilhões ao ano para o governo federal. Ele fixa em R$ 13,6 mil o piso salarial de médicos e cirurgiões dentistas para 20 horas semanais de trabalho. Além de garantir o valor mínimo aos profissionais federais, o texto ainda manda a União pagar uma complementação a estados e municípios para garantir que os funcionários desses entes recebam a mesma remuneração.

A proposta tramita na CAE (Comissão de Assuntos Econômicos). Em junho, a base aliada precisou articular um pedido de vista para evitar o avanço da iniciativa. O governo conseguiu segurar, mas o texto segue na pauta da comissão —e no radar de preocupações do Executivo.

Um integrante da equipe econômica diz que a investida do Congresso para elevar despesas e renúncias fiscais “está ficando incontrolável”. Segundo esse interlocutor, num cenário como este, não há revisão de gastos que seja suficiente para equilibrar o Orçamento.

Nos últimos dias, os atritos entre Executivo e Legislativo escalaram após a derrubada do decreto que aumentou o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). O governo decidiu recorrer ao STF (Supremo Tribunal Federal) para restabelecer o aumento do imposto, o que abriu uma nova crise com o Parlamento.

No decorrer do impasse, os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), defenderam cortes de gastos em diferentes ocasiões, mantra repetido por parlamentares do centrão e também da oposição.

Durante os trabalhos legislativos, porém, projetos com repercussão fiscal são votados até mesmo sem estimativa de impacto, apesar de a própria Constituição exigir que propostas que criem ou alterem despesa obrigatória ou renúncia de receitas sejam acompanhadas desses cálculos.

No caso da proposta da fibromialgia, os relatórios que embasaram a votação no plenário do Senado destacam os aspectos médicos da condição e seus efeitos sobre a pessoa —como dores, insônia, problemas de memória e concentração, ansiedade e depressão. Não fizeram menção, contudo, ao impacto orçamentário do projeto.

Na Câmara, a proposta passou pelas comissões de Saúde, de Seguridade Social e de Constituição e Justiça. O texto chegou a ser encaminhado à CFT, mas a comissão concluiu que a proposta não resultava em aumento de despesas ou renúncias, “não cabendo pronunciamento quanto à adequação financeira e orçamentária”.

Sem mais obstáculos, os deputados aprovaram o texto no plenário em setembro do ano passado, com ampla maioria: 450 votos a favor e apenas um contra, com duas abstenções. No Senado, a votação foi simbólica, sem a contagem individual de votos.

O texto aprovado define que a equiparação à deficiência dependerá de uma avaliação biopsicossocial, prevê a criação de um programa nacional de acompanhamento clínico e a criação de um cadastro. Um técnico do governo afirma que já existe hoje grande judicialização de pessoas com esse diagnóstico que buscam o benefício. A avaliação no Executivo é que o texto flexibiliza as condições de acesso e vai impactar, sim, o Orçamento.

O relator do texto no Senado, o petista Fabiano Contarato (ES), defende que a proposta reconhece a doença como uma condição que exige atenção do Estado e que atenderá 7 milhões de pessoas.

Apesar de a mudança na lei abrir caminho para o acesso ao BPC e a benefícios tributários, Contarato diz que Câmara e Senado concluíram pela ausência de impacto orçamentário.

Idiana Tomazelli e Fernanda Brigatti/Folhapress
Politica Livre

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