quarta-feira, novembro 02, 2022

Centro e direita já se mobilizam para formar novos polos de poder




Encerrado o segundo turno da disputa presidencial de 2022, os atores políticos do centro e da direita que foram tragados pela polarização entre Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) buscam agora alternativas para formar novos polos de poder.

Com o horizonte das eleições de 2024 (municipais) e 2026 (gerais), a direita fala em se reagrupar com o intuito de resgatar o eleitorado moderado perdido para o bolsonarismo em uma plataforma econômica liberal e o centro planeja uma reengenharia partidária para projetar novas lideranças fora da órbita do PT.

O desejo de quebrar a polarização também mobiliza organizações e articulações da sociedade civil que buscam pontos de convergência e uma agenda além da defesa da democracia.

Com a promessa do ex-presidente Lula de não disputar a reeleição, o caminho natural para o PT seria construir um nome para sua sucessão dentro da sigla. No campo oposto, o bolsonarismo vai tentar manter sua hegemonia antipetista.

Após permanecer neutro no 2° turno, o União Brasil negocia formar uma federação com o PP. Esse consórcio teria mais influência na disputa pela presidência da Câmara e cargos nas comissões do Congresso, mas também entraria junto nas disputas municipais.

Em outra frente, PSDB, MDB, Podemos e Cidadania já traçam as primeiras linhas de um projeto de poder de quatro anos que passa por 2024, mas visa também construir uma alternativa eleitoral para 2026.

O nome que se destaca é o da senadora Simone Tebet (PMDB-MS), mas o governador eleito do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB) e a eleita em Pernambuco, Raquel Lyra (PSDB-PE), também são lembrados. "É fundamental criar um polo político fora da polarização. A federação, se der certo, terá esse objetivo", disse o tesoureiro nacional do PSDB, César Gontijo.

Apoiador de Lula no 2° turno, o ex-senador José Aníbal (PSDB-SP) avalia que o "campo democrático" vai procurar se entender sobre pautas para o País. "Hoje há uma frente de setores liberais e de centro que apoia o Lula, mas não está no horizonte que ela se integre ao PT", afirmou o tucano.

Também apoiador de Lula ainda no 1° turno, o ministro da Justiça Miguel Reale Júnior, que foi um dos autores do impeachment contra a presidente Dilma Rousseff (PT), defende que esse campo busque construir uma plataforma voltada para a governança ambiental, social e corporativa, ou ESG na sigla em inglês.

"Tendo a democracia como pressuposto, a tarefa das lideranças agora é reunir os partidos que se identificam nessa agenda. Não é preciso ficar à reboque do PT. Nomes como Simone (Tebet) e Marina Silva (Rede) podem apresentar projetos próprios e se unirem."

Um dos coordenadores do grupo Derrubando Muros, que reúne intelectuais, economistas e empresários, o sociólogo José Carlos Martins esteve na linha de frente do "plantão democrático" durante a campanha presidencial, mas agora olha para frente. "Essa aglutinação repudia o comportamento grotesco do Bolsonaro e votou por contingência no PT, mas não sabe nem o endereço do partido. Defendemos um governo democrático, mas não necessariamente estaremos alinhados a ele."

MODERAÇÃO

Em um movimento que começou durante os atos pelo impeachment de Dilma em 2015, chegou ao Palácio do Planalto em 2018 e se cristalizou em 2022, o bolsonarismo arregimentou o eleitorado conservador antipetista e esvaziou movimentos e iniciativas que pregam agenda de direita liberal e moderada.

"Precisamos reconstruir a direita realmente liberal e sem a pecha de reacionária. Essa direita precisa de um partido que defenda as reformas", defendeu o ex-presidenciável do Novo, Luiz Felipe D'ávila.

Sensação em 2018, quando João Amoedo recebeu 2.679.744 votos (2,5%) na disputa presidencial, o Novo não ultrapassou a cláusula de barreiras em 2022 e discute a possibilidade de fusão. A ideia é defendida pelo governador de Minas Gerais, Romeu Zema, mas há resistências internas.

Suspenso do Novo por apoiar Lula no 2° turno, Amoedo prega uma articulação partidária da centro-direita com o PSDB, Novo e outras agremiações, mas é contra a fusão. "É preciso organizar uma oposição propositiva. O Novo pode ser a plataforma para agregar pessoas de centro direita."

Estadão / Dinheiro Rural

Força oposicionista - Editorial




Eleições para Legislativo e estados indicam que Lula terá de fazer concessões

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é o primeiro a obter um terceiro mandato por meio do voto, e Jair Bolsonaro (PL) é o primeiro presidente a perder a reeleição. O conjunto dos ineditismos de 2022, porém, não configura situação política favorável para o recém-eleito.

Lula volta ao poder com a maioria mais diminuta de um presidente desde a redemocratização. O incumbente foi derrotado pela repulsa de metade do eleitorado, mas não deixou de obter votação expressiva, tendo a seu favor a queda do desemprego e da inflação.

Dado o resultado das urnas, o petista chega ao poder com menos capital eleitoral e popularidade para queimar. Terá, assim, menos tempo para elaborar um programa de aceitação nacional mais ampla, urgência extremada pela situação social e econômica.

Lula terá de lidar com um Congresso de composição inédita na República de 1988. Partidos do velho centrão, de centro-direita e direita dominam cerca de metade da Câmara, ao menos. O centro e partidos tradicionais como MDB e PSDB perderam peso relativo ou se tornaram diminutos. A esquerda teve o pior resultado desde 1998.

O Senado tem um bloco de 35 parlamentares de PL, União Brasil, PP e Republicanos. Um outro grupo mais centrista, de MDB, PSD e PSDB, tem 24 cadeiras. O PT e seus aliados tradicionais à esquerda, 13. Embora a casa seja mais ponderada do que a Câmara, a negociação ali será também penosa.

Filiações partidárias são maleáveis e sujeitas a condições tais como a popularidade presidencial ou a barganha de poder. O ponto de partida, porém, indica que o custo de convencimento será maior, tanto mais porque parte relevante dos eleitos têm compromissos mais estritos com um eleitorado conservador ou reacionário.

No comando dos estados, a esquerda teve também seu pior resultado desde 1998. A relação dos governadores com o Executivo federal, porém, costuma se dar em termos algo mais construtivos, por interesse de cooperação administrativa e de repartição de fundos.

Registre-se que até o bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos), que conquistou o Palácio dos Bandeirantes, declarou que pretende trabalhar em harmonia com o governo petista de Brasília.

É fácil perceber que Lula terá de negociar cargos e planos a fim de montar uma coalizão parlamentar, conquistar eleitores oposicionistas, manter aqueles que aderiram a sua candidatura por rejeição a Bolsonaro e obter apoios sociais que fundamentem esses movimentos políticos.

O presidente eleito tem reafirmado que seu governo irá muito além do PT. Trata-se um bom ponto de partida, mas a tarefa será árdua.

Folha de São Paulo

Silêncio dos militares é saudável para democracia, diz especialista em Forças Armadas




Vinicius de Carvalho, professor de Estudos Brasileiros e Latino-Americanos do Departamento de Estudos de Guerra da Universidade King's College London

Lula derrotou Bolsonaro em segundo turno mais apertado da história da redemocratização

Por Luis Barrucho, em Londres 

O silêncio dos militares sobre a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é "saudável para a transição democrática".

A opinião é de Vinicius de Carvalho, professor de Estudos Brasileiros e Latino-Americanos do Departamento de Estudos de Guerra da Universidade King's College London, no Reino Unido.

Segundo ele, "militares não são força política. Militares não têm que reconhecer ou não reconhecer governos. Eles têm que simplesmente se circunscrever às suas funções, a aquilo que a Constituição determina", diz Carvalho à BBC News Brasil.

"Acho que o fato de não haver pronunciamento de militares nesse momento no Brasil é o mais saudável. Isso demonstra que não tem um apetite político ou de politização dessa eleição entre o ambiente militar", acrescenta.

Carvalho foi diretor do Brazil Institute da universidade King's College London e oficial técnico temporário no Exército Brasileiro.

Passadas 36h da vitória de Lula, o presidente Jair Bolsonaro (PL) ainda não reconheceu a derrota. Os três militares mais importantes de seu governo — o general Braga Netto (seu candidato a vice), Luiz Ramos (Secretaria-Geral da Presidência) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), todos na reserva — tampouco se pronunciaram até agora, nem oficialmente e nem nas redes sociais.

Durante todo seu governo, Bolsonaro, que é capitão reformado, manteve relação estreita com os militares, o que gerou críticas em setores da sociedade civil. Muitos deles, ainda na ativa, têm cargos comissionados no segundo e terceiro escalão de seu governo.

Um relatório de 2021 do Tribunal de Contas da União (TCU) mostrou que, sob a presidência de Bolsonaro, o governo federal mais que dobrou a presença de militares em cargos até então ocupados por civis.

Para Carvalho, no entanto, não há "nenhum sinal de fragmentação dentro da estrutura das Forças que demonstre que certos grupos estão propensos a atividades golpistas".

Questionado sobre a forte presença de militares no atual governo e como Lula lidará com isso quando assumir a Presidência, no dia 1º de janeiro de 2023, Carvalho acredita que ele "não terá que negociar com a força. Uma vez eleito presidente, ele é chefe supremo das Forças. Então, não é uma questão de negociação".

"O que está em jogo aqui é com relação à presença de militares em outros escalões do governo. Como todos eles estavam ali e não como parte de sua carreira, eles retornarão para seus quartéis, para suas funções que desempenhavam anteriormente. Alguns deles, talvez até já em período de entrarem para a reserva das Forças Armadas."

"Então, acho que o que vai acontecer simplesmente é o esvaziamento das posições de militares nos postos de governo, nas posições de governo, porque necessariamente eles não têm mais [esses cargos]. Eles não estão mais ali indicados pelo presidente para alguma função. Caso o presidente Lula decida que ele necessite de algum militar exercendo alguma função, ele também fará isso. Então não será estranho caso isso venha a acontecer."

Carvalho diz acreditar, no entanto, numa provável redução "drástica" da presença dos militares no governo do petista.

"No entanto, é bem provável e basicamente certo que essa quantidade de militares que estão desempenhando funções de governo hoje ou funções no governo hoje, isso diminuirá drasticamente."

E como se dará essa transição? Ela acontecerá suavemente?

Carvalho avalia que sim.

"Não acho que haverá contrariedade à maioria desses que estão ainda militares que estão na ativa e que estão no governo", assinala.

"Eles também compreendem muito bem que o que significa a dinâmica de suas carreiras. E reconhecem que estavam ali numa função política designada pela Presidência da República. Do ponto de vista de carreira, de desenvolvimento de carreira, eles vão voltar para o lugar que ocupavam nas escalas de promoções. O termo militar que se diz para isso é que eles estavam 'agregados', ou seja, estavam afastados da função para a qual eles deveriam estar desempenhando se estivessem na regularidade da força."

"Então, quer dizer, eles vão voltar para o que foi a dinâmica de carreira que eles tinham até então. Não vejo que haverá problemas neste retorno para essas funções anteriores", conclui.

Eleições

Na reta final da corrida presencial, Bolsonaro convocou os três comandantes das Forças Armadas para uma reunião na qual foi discutido o relatório de sua campanha sobre um suposto boicote à propaganda de rádio e televisão do chefe do Executivo.

Compareceram os três comandantes militares: o general Marco Antônio Freire Gomes (Exército), o tenente-brigadeiro do ar Carlos Baptista Júnior (Aeronáutica) e o almirante Almir Garnier Santos (Marinha). Também estava presente o ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira.

BBC Brasil

Lula não ganhou um cheque em branco - Editorial




Muitos dos que votaram no petista o fizeram não por apoiar seu programa, aliás inexistente, mas para frear Bolsonaro. Lula precisa entender que sua eleição não é aval à agenda do PT

O discurso da vitória mostrou que Luiz Inácio Lula da Silva conhece as reais circunstâncias nas quais foi eleito, pela terceira vez, presidente da República. “Esta não é uma vitória minha, nem do PT, nem dos partidos que me apoiaram nessa campanha”, disse. Esse reconhecimento é muito importante, pois indica que Lula aparentemente captou o recado das urnas – e não pode, sob pena de inviabilizar seu governo, ignorar esse recado uma vez investido da Presidência.

Uma parte significativa do eleitorado certamente não votou em Lula por concordar com o programa de governo do PT, até porque não foi apresentado nenhum programa de governo. Para esses eleitores, certamente na casa das dezenas de milhões, foi um voto para impedir que Jair Bolsonaro ficasse mais quatro anos no Palácio do Planalto. Foi um voto contra os devaneios autoritários, contra o conflito institucional, contra a irresponsabilidade no cuidado da população, contra a agressividade na vida política e social. Foi um voto, como Lula admitiu no domingo, “para que a democracia saísse vencedora”.

Eis um fato inegável das eleições de 2022. O PT ganhou a eleição presidencial, mas não obteve um cheque em branco da população. Apesar de disputar com o presidente da República mais disfuncional e incompetente desde a redemocratização, Lula não ganhou no primeiro turno. E, a confirmar as imensas reservas que o eleitorado tem em relação ao PT, a distância de votos entre Lula e Bolsonaro diminuiu significativamente no segundo turno. Em relação ao dia 2 de outubro, o candidato do PL conquistou no domingo mais 7,1 milhões de votos (de 51,1 milhões foi para 58,2 milhões) e o do PT, mais 3 milhões (de 57,3 milhões foi para 60,3 milhões).

O resultado estreitíssimo – nunca um candidato a presidente da República havia ganhado as eleições com tão pequena margem de vantagem – confirma a importância de ter havido um segundo turno. Por mais que tenha sido uma campanha sem projetos e sem propostas, na qual as agressões e mentiras foram as grandes protagonistas, essas quatro semanas serviram para que o resultado final das eleições manifestasse, tal como deve ocorrer na democracia, as preferências do eleitorado. Tanto no primeiro turno como no segundo, não houve o menor indício de adesão incondicional da população ao lulopetismo. E essa inequívoca mensagem do eleitor tem de ser respeitada e acolhida pelo candidato eleito não apenas no discurso da vitória, mas ao longo de todo o governo. Trata-se de uma decorrência da própria ideia de democracia representativa. Todo o poder emana do povo, diz a Constituição de 1988 em seu primeiro artigo.

No domingo à noite, Lula assumiu um compromisso importante com o País. “A partir de 1.º de janeiro de 2023, vou governar para 215 milhões de brasileiros, e não apenas para aqueles que votaram em mim”, afirmou. Depois de quatro anos de um governo que insistiu em dividir a sociedade e em agredir todas as instituições que não lhe foram submissas, aqui está o maior desafio do próximo presidente da República. É preciso promover a paz e a união, distensionar as relações entre os Poderes, respeitar quem pensa de forma diferente. Nada disso ocorrerá se Lula repetir o que foi feito nos 13 anos de PT no governo federal. Os tempos atuais demandam um novo agir. 

Diante da rejeição do eleitorado brasileiro ao PT, Lula, para ganhar as eleições, teve de recorrer ao apoio de lideranças políticas cujo histórico é muito diferente do de seu partido. No discurso de domingo, o presidente eleito reconheceu esse fato, agradecendo, em primeiro lugar, o apoio da senadora Simone Tebet no segundo turno. Essa necessidade de ampliar a base estava explícita já na própria composição da chapa, com Geraldo Alckmin como candidato a vice. Se ter ido muito além do PT foi importante para Lula ganhar as eleições, essa abertura será ainda mais necessária para cumprir o compromisso de governar para todos os brasileiros.

“A ninguém interessa viver num país dividido, em permanente estado de guerra”, disse Lula no domingo. Ninguém mais do que o presidente eleito tem a possibilidade de promover a paz e a união no País. Essa é agora sua responsabilidade, que não pode ficar apenas em palavras. 

O Estado de São Paulo

Bolsonaro perdeu, mas seguirá ditando ritmo da política




Presidente articulou melhor que outros políticos valores emergentes da sociedade

Por Miguel Lago* (foto)

Eleições costumam ser encaradas como forma de premiar ou punir o governo. O governante que melhora a vidas das pessoas seria reeleito ou elegeria seu sucessor. Aquele que piorasse a vida da população, não.

Em que pese a derrota, é surpreendente o sucesso eleitoral de Jair Bolsonaro (PL). A economia piorou, a fome voltou, as políticas públicas foram desmanteladas, milhares de pessoas morreram na pandemia por causa do comportamento do presidente e o futuro foi hipotecado. Em circunstâncias normais, não estaria sequer no segundo turno.

De onde vem a força de Bolsonaro? Alguns dirão que a sociedade brasileira é intrinsecamente conservadora e, portanto, preocupada com a preservação dos valores cristãos e da família. O capitão reformado seria aquele que melhor representa esse ideário.

A conclusão me parece apressada e superficial. Bolsonaro não é conservador, muito menos representa os valores cristãos.

O conservadorismo político se construiu integralmente em oposição à ruptura e à revolução. Mudanças radicais são seu pesadelo, e toda a força política conservadora busca suavizar as mudanças, impedir os arroubos, as rupturas. O conservadorismo é, por essência, contrarrevolucionário.

Bolsonaro é um revolucionário de extrema direita. Nada em seu discurso se relaciona à tradição conservadora brasileira. Ao contrário, ele articula forças emergentes e insurgentes presentes em nossa sociedade: a religiosidade neopentecostal, a estética do agro e a sociabilidade de perfil.

O Brasil é o maior país católico do mundo, mas a força religiosa preponderante é a neopentecostal. Para grande parte dos fiéis católicos, a identidade católica não é definidora das escolhas do dia a dia, como é a neopentecostal.

Esta identidade condiciona todas as decisões, desde a forma de se vestir, se comportar, consumir e votar. Sua influência no comportamento dos brasileiros é muito maior. Ainda que minoritária do ponto de vista estatístico, ela pesa muito mais do que a grande maioria silenciosa e desarticulada.

Sobre o segundo ponto, o Brasil depende cada vez mais do agronegócio. Seu peso na economia tem sido crescente e acompanha a desindustrialização do país. Essa força econômica emergente articula uma estética própria.

A vestimenta de gaúchos e sertanejos, tão típica de nossa tradição rural, foi substituídas pela de caubói. O rodeio se tornou o grande festival do país, e a música que mais toca nas rádios brasileiras é uma espécie de country music cantada em português.

A posse e o porte de arma completam a composição deste novo "homem do campo". A promoção dessa nova estética é articulada pelo setor e difundida pelo país inteiro sob os slogans "o agro é pop", "o agro é tech" e daí por diante…

Quanto ao último ponto, a população brasileira está entre as maiores consumidoras de redes sociais do mundo. A sociabilidade de grande parte de nossos compatriotas se dá primordialmente através dos perfis de redes sociais. Somos aquilo que desejamos projetar em nossos perfis. O conhecimento foi substituído pela opinião, e o encontro na praça deu lugar à aventura narcísica.

Bolsonaro soube articular muito bem esse novo ambiente comunicacional com a identidade neopentecostal e a estética do agro. Seu movimento se tornou o fio condutor dessas forças propulsoras e a partir delas o capitão reformado construiu uma nova gramática política desprendida da lógica do "bom governo".

O que está em jogo é derrubar a tradição brasileira e substituí-la por uma nova visão de mundo. Para tanto é necessário eliminar o "inimigo" —nomeado como "a esquerda", mas, na realidade, o bolsonarismo tem como alvo as construções sociais e institucionais de décadas da sociedade brasileira.

O bolsonarismo representa uma ruptura política e cultural com a tradição brasileira. Quem vota em Bolsonaro não o faz por acreditar racionalmente que ele representará melhor seus interesses, mas por representar suas opiniões. Trata-se de um voto exclusivamente identitário.

Enquanto essas forças forem as identidades políticas preponderantes no país, o bolsonarismo seguirá ditando o ritmo da política. Bolsonaro perdeu neste domingo (30) nas urnas, mas o trabalho para derrotar o bolsonarismo na sociedade será imenso.

*Cientista político, professor da Escola de Assuntos Públicos da Sciences Po (Paris) e da Escola de Assuntos Internacionais e Públicos da Universidade de Columbia (Nova York) e diretor do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS)

Folha de São Paulo

Eleições brasileiras: e se um dia tivermos de escolher entre Sócrates e Ventura?




Aos políticos no ativo deixo o apelo para que não permitam que a nossa democracia se degrade ao ponto de um dia termos de fazer uma escolha em Portugal semelhante à que os brasileiros tiveram de fazer. 

Por Raquel Abecasis 

A vitória de Lula da Silva nas eleições brasileiras deixa um amargo de boca difícil de digerir para quem se considera democrata. Sempre ouvimos dizer durante a longa experiência de vida democrática, em vários países por esse mundo fora, que em democracia há sempre alternativa. Mas as alternativas que a ainda jovem democracia brasileira produziu para estas eleições são aterradoras.

De um lado Jair Bolsonaro, o ainda Presidente, com um discurso fanático, irresponsável e ameaçador. Do outro lado Lula da Silva, surgindo como o salvador da pátria depois de ter traído milhões de brasileiros quando ocupou o Palácio do Planalto entre 2003 e 2011. Durante esses anos, o agora reeleito Presidente desenvolveu juntamente com o aparelho do Partido dos Trabalhadores uma rede de corrupção que lesou o Brasil em centenas de milhões de euros. O processo Lava Jato ficou para a história do país como uma mancha negra na sua história e reputação internacional.

Dez anos passados, aqui estamos a ouvir o discurso de vítima de Lula da Silva, eleito por sessenta milhões dos mais de cento e cinquenta milhões de brasileiros aptos para votar. Um resultado que pouco se distancia do número de votantes em Bolsonaro, cinquenta e oito milhões, que simplesmente se recusam a admitir que Lula da Silva tenha voltado a ocupar a cadeira do poder.

Horas depois da segunda volta das eleições, espera-se que o processo fique completo sem violência. Mas para quem agora respira de alívio com este resultado, vale a pena pensar que não há mal que esteja a ocorrer por esse mundo fora que não acabe por chegar cá. Particularmente se continuarmos a achar que somos um país de brandos costumes e que estas coisas só acontecem aos outros.

Confesso que quando ouvi Lula da Silva no seu discurso de vitória dizer que renasceu das cinzas e que o tentaram enterrar vivo, sem sequer uma ponta de arrependimento pelo que fez ao Brasil no passado, veio-me à memória o discurso batido do nosso antigo Primeiro-ministro José Sócrates. De resto, amigo e apoiante de Lula da Silva.

Espero não vir um dia a escrever sobre o triste caso português. Mas a verdade é que as eleições brasileiras me deixam preocupada com a hipótese de um dia em Portugal nos vermos confrontados com a escolha impossível entre André Ventura e José Sócrates.

Aos políticos que estão no ativo deixo o apelo para que não permitam que a nossa democracia se degrade tanto ao ponto de um dia termos de fazer uma escolha em Portugal semelhante à que os brasileiros tiveram de fazer por estes dias. Por favor, não nos deixem sem alternativa!

Observador (PT)

Novo governo terá de navegar em meio à turbulenta rivalidade entre EUA e China




O maior desafio da política externa do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) será navegar em um mundo cada vez mais volátil, marcado por uma bipolaridade crescente entre Estados Unidos e China. A tarefa não será fácil para um país que vem se encolhendo no cenário internacional, sofre problemas de imagem e tem pouca tração econômica para alavancar seus interesses.

De acordo com Michael Schuman, autor de Superpower Interrupted: The Chinese History of the World (Superpotência Interrompida: a história chinesa do mundo), a guerra na Ucrânia e a pandemia aceleraram a rivalidade entre chineses e americanos. As sanções internacionais à Rússia fizeram Moscou se aproximar de Pequim, e a China reduziu sua dependência do Ocidente, aumentando a polarização.

Do outro lado do espelho, a imagem é invertida. A política de covid zero de Pequim, com base em lockdowns em massa, aumentou a pressão para que países ocidentais busquem fornecedores diferentes. "A guerra e a pandemia estão levando o mundo para uma direção perigosa, dividindo-o em duas esferas, uma centrada em Washington, a outra, em Pequim", escreveu Schuman, na revista The Atlantic.

O novo governo brasileiro precisa aprender a conviver com essa rivalidade. A situação é parecida com a vivida por Getúlio Vargas, durante o Estado Novo, que formulou uma política externa pendular, entre os EUA e a Alemanha nazista, nos anos 1930 e 1940, extraindo de ambos os países concessões importantes.

"O Brasil não tem alternativa. Não podemos tomar partido neste mundo dividido", disse ao Estadão Rubens Barbosa, presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice) e ex-embaixador do Brasil nos EUA. "Essa é a posição da Índia e da maioria dos países que não querem escolher um lado."

PROTAGONISMO

Para o cientista político Guilherme Casarões, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo, um dos maiores desafios da nova política externa do Brasil, neste cenário de antagonismo entre Pequim e Washington, será como recuperar o protagonismo regional, após anos de marcha à ré da diplomacia brasileira na América do Sul.

"O Brasil perdeu o interesse pela América do Sul", disse Casarões. "Isso vem desde o governo de Dilma Rousseff, bem antes de Jair Bolsonaro." Com o vácuo deixado pelo Brasil, as relações comerciais, econômicas e tecnológicas mais importantes da região agora são com a China - embora culturalmente e politicamente a América do Sul ainda esteja mais alinhada com os EUA.

De acordo com Casarões, Lula pode até tentar retomar o espaço perdido, mas precisa interpretar essa nova dinâmica internacional. "O mundo de hoje é bem mais complexo do que era 20 anos atrás", afirmou. "Vivemos uma bipolaridade mais próxima dos tempos de Guerra Fria."

Para complicar o caminho da retomada do protagonismo, o cerco às empreiteiras brasileiras na região - as consequências mais visíveis da Lava Jato na América Latina - imobilizará ferramenta importante de política externa: os investimentos. Hoje, com índices econômicos anêmicos, o Brasil perdeu seu poder de atração.

CENÁRIO

A complexidade do cenário externo é outra questão que não deixa muita margem de erro. Apesar de ser dominado pela rivalidade crescente entre EUA e China, as relações internacionais são mais complexas do que durante o último período bipolar, entre soviéticos e americanos.

Segundo Schuman, diferentemente da Guerra Fria, quando europeus e americanos tinham uma interação apenas marginal com a União Soviética, hoje os dois polos, China e EUA, estão muito mais integrados e são economicamente interdependentes. "Além disso, há uma troca cultural maior, a tecnologia é diferente e as pessoas estão mais conectadas", disse.

É por isso que preocupa o afastamento recente e mais profundo entre chineses e americanos. Esses detalhes tornaram o cenário internacional mais confuso e órfão de análises multifacetadas. "Assim, o trabalho mais importante de um formulador de política externa é saber ler o mundo. E há várias interpretações diferentes", disse Feliciano de Sá Guimarães, diretor acadêmico do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

Segundo ele, além da bipolaridade evidente entre EUA e China, o sistema internacional pode estar caminhando para uma disputa entre modelos políticos: de um lado as democracias capitalistas; de outro, modelos capitalistas autoritários.

As duas bipolaridades não são excludentes e, muitas vezes, pode haver uma sobreposição de interesses, o que torna inútil análises rasteiras do cenário internacional. "Essa disputa pode durar décadas. Se isso ocorrer, será muito difícil que não tenhamos no futuro um grande partido autoritário de direita no Brasil", disse. "Um sistema internacional moldado nesses termos teria espaço para o bolsonarismo, mesmo derrotado na eleição."

Estadão / Dinheiro Rural

Armadilhas da inteligência” propiciaram apoio direto a Lula sem maiores reflexões




Por Carlos Maurício Ardissone 

Nos últimos tempos, tenho sido constantemente provocado e fustigado por uma questão. Como é possível que pessoas com formação intelectual diferenciada e, ao que tudo indica (ou indicou até hoje), formação moral insuspeita, possam fechar os olhos para certas obviedades em matéria de princípios sobre as quais não deveria caber discussão, nem diferentes visões ou pontos de vista?

 Trocando em miúdos, como podem pessoas com caráter e com formação intelectual destacada apoiarem a possível volta de um projeto de poder que assaltou a nação de forma inimaginável e de uma forma tão escancarada e absolutamente inquestionável?

ALTERNATIVA OPOSTA – Não há nada que possa ser dito ou falado sobre a alternativa oposta – verdadeiro, exagerado ou falso – que justifique essa cegueira coletiva e a relativização de malfeitos em tamanha escala. Acho que a resposta está na inteligência, ou na falta dela 

 (Obs: A erudição e a cultura geral muitas vezes servem como um verniz aparente e social de inteligência, mas devemos ter cuidado para não acharmos que todo erudito é necessariamente alguém com intelecto diferenciado. Muito comum erudito que se comporta como mais inteligente do que de fato é). 

Não me entendam mal. Não estou aqui insinuando que as pessoas que insistem nesse caminho sem volta de eleger um malfeitor comprovado e condenado sejam burras e desprovidas de inteligência, pelo menos na acepção mais comum da palavra.

TIPOS DE INTELIGÊNCIA – Isso mesmo, não existe apenas um tipo de inteligência. Raro é encontrar alguém dotado de todas as suas dimensões.

Existe a inteligência inata, congênita que diferencia pessoas com maior e menor potencial intelectual.  Existe a inteligência técnica que é a inteligência “assimilada e aperfeiçoada” seja por meio de educação formal ou outro tipo de treinamento, aquela que decorre da combinação do talento (a inteligência inata) com a que é potencializada pelo esforço e pelo aprendizado.  Por fim, existe a inteligência emocional, sem a qual pouco ou nada das duas primeiras serve.

Trata-se da capacidade de cada indivíduo ter domínio sobre sua psiquê e orientar da melhor forma a sua inteligência inata e⁄ou a técnica. Exige o desenvolvimento de uma visão holística sobre a humanidade, o ser humano, questões existenciais, espirituais e metafísicas.

MAIORES INIMIGOS – Histórias de vida, rancores, traumas, raivas, ranços, complexos e outros sentimentos da mesma cepa costumam ser os maiores inimigos da inteligência emocional. Permitem que as pessoas caiam em armadilhas ardilosas e tentadoras de habilidosos oportunistas retóricos, como as que são lançadas há décadas por certo inteligente inato do cenário político dessas bandas tupiniquins, com carisma, talento e vocação inegáveis para o que é malévolo e desonesto. Um mestre do disfarce e do engano. 

Isso mesmo, pessoas com formação intelectual diferenciada, mas com pouca propensão a realizar uma imersão e uma autocrítica profundas sobre a sua própria inteligência emocional, podem ser presas fáceis até para inteligentes inatos sem ou com pouca instrução, quando estes são ladinos e manipuladores.

PhDs, intelectuais, professores, acadêmicos, cientistas, pesquisadores, artistas, invariavelmente dotados de talento (atributo manifesto da inteligência inata) e de conhecimento acumulado (produto manifesto da inteligência técnica), estão sempre dispostos a cair na tentação do sedutor canto da sereia – no caso, do molusco.

CLEPTOCRATA – Isso ajuda a explicar porque no Brasil, há décadas, muitos intelectuais e professores aceitam docilmente integrar as claques de idólatras de um cleptocrata, mostrando publicamente e sem menor pudor que estão desprovidas de senso de ridículo. Histórias de vida e ressentimentos pessoais e familiares acabam por vencer o pensamento analítico, racional e, a depender do déficit de inteligência emocional, até a capacidade de julgamento moral.

 Tomemos como exemplo pessoas como Machado de Assis, Luiz Gama e André Rebouças. Em comum entre eles, a origem humilde, a cor de pele escura e a vida em meio a um tecido social hostil e preconceituoso, quando não violento.

Todos venceram esses obstáculos com força e galhardia para se tornarem figuras das mais brilhantes e admiráveis da nossa história. Foram revolucionários com atitudes e feitos e não com verborragia feita de encomenda.

GRANDES EXEMPLOS – Esses brasileiros exemplares não fizeram de suas dificuldades depositórios de ódios que os obstaculizasse e que permitisse que outros tomassem deles o controle sobre suas próprias vidas. Não permitiram que o conhecimento que acumularam e os frutos que colheram pudessem ser desperdiçados e contaminados por lamúrias próprias, familiares, de raça, de classe ou outras quaisquer.

O que não significou, em absoluto, que se deixaram seduzir e cooptar pelo status quo das elites e oligarquias que sempre mandaram no país. 

A ascensão social e profissional pela educação, meritória, admirável e associada ao estudo, à pesquisa e ao conhecimento, deveria ser celebrada “tão-somente” (o que não é pouco) como uma conquista pessoal admirável, afável, alegre, conciliadora, aglutinadora, um motivo de celebração social genuína, e não como um tributo aos sacrifícios de vivos ou mortos (parentes ou não), indivíduos ou grupos, minorias ou raças. Não se trata de ingratidão com pais que fizeram sacrifícios ou alienação de classe ou outra, apenas de dar a César o que é de César.

SUPERAÇÃO – O apego e a necessidade costumeira de exaltar o lado da “superação” na realidade representa a incapacidade de gerenciar emocionalmente e lidar com as próprias conquistas e qualidades. É uma vontade inconsciente de permanecer com os pés bem fincados no atraso e associado a sentimentos contraproducentes e mesmo de ódio, a um passado de frustrações e/ou privações das mais diversas que continuam lançando sombra ao que só deveria ser luz.  Só atraem maldade ao invés de virtude.

Eis como a inteligência emocional derrota as demais por nocaute.  E como um inteligente inato, inclinado para o mal e a corrupção, consegue manipular esses sentimentos. Não é necessário que tenha educação e conhecimento formais. Basta que seja vocacionado politicamente para a retórica e capaz de manipular afetivamente as fragilidades emocionais dos demais que estes se subjugarão aos seus “encantos” de bom grado.

Mais do que isso, desenvolverão por aquele líder um tipo de admiração infantil e cega, como a de uma criança por seu pai. O que determina essa idolatria é o elo de empatia que o líder constrói com suas tristezas e mágoas. Uma escolha que acaricia o coração, mas que envenena a mente por deturpar a razão. Fazer o L acaba por satisfazer mais do que pensar analiticamente e com uma lupa moral minimamente razoável.

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