quarta-feira, junho 22, 2022

Petrobras: Confusão geral no governo e posição de Sachsida contrária ao controle de preços

Publicado em 22 de junho de 2022 por Tribuna da Internet

Sashida defendeu que governo não interfira nos preços fixados

Pedro do Coutto

O caso da Petrobras desencadeou uma tempestade no governo e, principalmente, no país, dando margem a uma série de ações movidas pelo Palácio do Planalto para estabelecer um controle de preços sobre a gasolina, o óleo diesel e o gás. O presidente da Câmara Federal, Arthur Lira, chegou a propor – matéria de Manoel Ventura e Bruno Rosa, O Globo desta terça-feira, a edição de uma Medida Provisória pelo presidente Bolsonaro, alterando a lei das estatais e terminando com a autonomia das empresas mistas sob controle do governo.

Arthur Lira propõe também elevar o imposto que incide sobre o setor do petróleo. Incrível, o presidente da Câmara dos Deputados propor medida ao Executivo e, na área econômica, o ministro Paulo Guedes sequer se pronunciar. A confusão se generalizou ainda mais com a iniciativa levantada de investigar o movimento das ações da empresa estatal para verificar se ocorreram ou estão ocorrendo especulações indevidas.

PONTO CONTRÁRIO – Mas o desencontro das opiniões que marcam o desempenho do governo ampliou-se com o depoimento na manhã de ontem  e transmitido pela GloboNews, quando o ministro de Minas e Energia, Adolfo Sachsida, defendeu exatamente o ponto contrário do que foi apresentado pelo presidente Jair Bolsonaro.

Sachsida sustentou numa audiência pública das comissões de Fiscalização Financeira e Controle; de Finanças e Tributação; de Minas e Energia; e de Viação e Transporte da Câmara dos Deputados que não é possível fixar preços para a importação de gasolina e diesel uma vez que são regidos pelo mercado internacional. Como se constata, Sachsida colidiu frontalmente com a orientação do governo que pretendia desvincular a questão dos preços do reflexo eleitoral de que possa se revestir.

SEM RUMO – Verifica-se uma falta de rumo no Executivo e também, como Sachsida deixou claro, a carência de unidade de pensamento. O pronunciamento de Sachsida foi feito em audiência pública promovida por comissões da Câmara dos deputados.

O desfecho da crise da Petrobras ainda não é previsível, pois depois das declarações do ministro de Minas e Energia terão que ter reflexo na permanência ou não de Adolfo Sachsida no cargo. Se permanecer, o governo ficaria esvaziado, pois ficará flagrante que nem o ministro de Minas e Energia concorda com o controle de preços que incidem sobre os produtos de sua área.

REFINARIAS –  O ministro de Minas de Energia afirmou, conforme dito, durante audiência pública, que o problema está na importação dos subprodutos que atingem praticamente 30% do consumo de óleo diesel e da gasolina. O país, acentuo, não possui um total de refinarias capazes de processar o óleo leve do pré-sal.

A entrada de uma refinaria nesse processo demora três anos. O tempo passou, abrangendo várias gestões, sem que fosse colocada a solução do problema e há interesses que travaram a questão no país. O governo foi omisso e o Brasil paga a conta. Nada justifica a inércia que atravessou o tempo

PROJETO – Lembro quando Getúlio Vargas enviou ao Congresso o projeto criando a Petrobras. Uma onda terrível se desencadeou contra a iniciativa, refletindo a posição de tradicionais fornecedores de petróleo do mercado internacional. O projeto foi aprovado e se transformou na Lei nº 2004 de 1953. Vargas, em 1954, nomeou Juraci Magalhães, da UDN, primeiro presidente da história da Petrobras.

A Petrobras começou a funcionar e sua produção era de 5 mil barris diários. Veio a campanha eleitoral, o tema foi colocado. Juscelino Kubitschek saiu em defesa da Petrobras e uma forte onda se desencadeou contra a sua campanha. O setor militar do governo, chefiado pelo general Henrique Lott, assumiu a defesa da estatal  e o governo Juscelino veio a consolidá-la contra os ataques desfechados, com Carlos Lacerda comandando a oposição, entregando no final de seu governo uma produção de petróleo da ordem de 100 mil barris diários, um terço do consumo da época.    

ORIGEM  – O que estava por trás da campanha contra JK tinha origem nas fontes de abastecimentos adicionais do mercado internacional. A produção do Oriente Médio não era tão volumosa como acontece hoje, porém era expressiva a partir das reservas na Arabia Saudita. É evidente que os fornecedores não queriam de forma alguma a atuação da Petrobras no Brasil e um especialista no setor, Mr. Hunt, chegou a sustentar que o Brasil não tinha reservas de petróleo.

Décadas depois, compare-se a frase com a realidade moderna. Basta isso para desvendar a cortina de interesses enormes no campo do petróleo. Tenho a impressão de que  a pressão internacional está se repetindo não mais contra a Petrobras, mas contra a construção de refinarias pelo Brasil. Não é possível que se atravesse o tempo sem que se invista nas refinarias que seriam a salvação das despesas do país em dólar, sobretudo com o diesel.

CONFLITO –  Depois de o ministro Edson Fachin ter respondido ao ministro Paulo Sérgio Nogueira, da Defesa, sobre a proposta de um encontro sobre o sistema eleitoral em vigor desde 1996, o governo partiu para um outro flanco de ataque, como revelam Bela Megale e Marianna Muniz, O Globo de ontem.

O ministro da Justiça, Anderson Torres, comunicou a Fachin que a Polícia Federal poderá desenvolver programas próprios para verificar os equipamentos de recepção e computação dos votos. Quer dizer, depois da iniciativa das Forças Armadas, surge um novo fator de desconfiança levantado pelo titular da Justiça.

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