Publicado em 21 de junho de 2022 por Tribuna da Internet
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Maxciel dos Santos foi assassinado no meio da rua em 2019
Vinícius Valfré
Estadão
Um dossiê apresentado à Polícia Federal aponta que o assassinato de um amigo do indigenista Bruno Pereira foi um crime de mando. A morte do também indigenista Maxciel Pereira dos Santos, em setembro de 2019, teria sido encomendada pela rede criminosa de narcotraficantes, pescadores ilegais e garimpeiros que atua na fronteira com a Colômbia e o Peru. É o que denunciaram familiares dele a investigadores.
Quase três anos depois do assassinato de Maxciel, a Polícia Civil do Amazonas e a Polícia Federal não apresentaram qualquer explicação sobre motivos e autoria do atentado. Familiares do indigenista acreditam que o mesmo grupo que matou Maxciel está por trás dos assassinatos de Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, no último dia 5, no Rio Itaquaí, em Atalaia do Norte.
IMPUNIDADE – “Se tivessem feito justiça com a morte do Max, Bruno não teria morrido”, diz um irmão da vítima que pediu para não ser identificado.
Aos 35 anos, Maxciel seguia de moto com a mulher e a enteada na garupa pela Avenida da Amizade, a principal de Tabatinga (AM), na fronteira com a Colômbia, quando recebeu dois tiros à queima roupa.
O indigenista prestava serviços à Fundação Nacional do Índio (Funai), fiscalizava invasões no território indígena do Vale Javari e tinha a confiança de Bruno Pereira. Chegou a ser o chefe de serviços da coordenação regional da Funai no Javari. Caçula de 11 irmãos, ele morreu no dia em que voltou à cidade depois de um mês de serviço na mata.
PERUANO SUSPEITO – A família do indigenista entregou um cartão de memórias à Polícia Federal com gravações, valores supostamente pagos aos executores e nomes de testemunhas dispostas a prestar depoimento. As suspeitas giravam em torno de Rubens Villar, o “Colômbia”.
Ele é um peruano com dupla nacionalidade que exerceria forte influência em toda a região do Alto Solimões. Entregue no início de 2021, o dossiê com as indicações sobre o caso foi elaborado com apoio de indigenistas e entidades que atuam na região.
O dossiê começou a ser preparado diante da falta de respostas das autoridades sobre o assassinado de Maxciel. Familiares refizeram trajetos do indigenista em Tabatinga e Atalaia do Norte em busca de informações que pudessem explicar o crime.
A pesquisa resultou num relatório que aponta que a morte do amigo de Bruno foi encomendada por causa dos prejuízos que ele causava com as apreensões e combate ao mercado ilegal de pescados e de caça no Javari controlados por “Colômbia”.
CRIMINALIDADE – Os peixes raros da Amazônia, como o pirarucu, são somente a ponta de uma extensa cadeia criminosa que envolve pistolagem, lavagem de dinheiro e cartéis de narcotraficantes. O funcionamento dessa rede suspeita foi reconstituído pela reportagem a partir de documentos e entrevistas reservadas com investigadores, advogados, pescadores, ribeirinhos e pessoas com acesso a traficantes de drogas.
Segundo investigações em andamento da polícia, o peruano “Colômbia” tem propriedades em Benjamin Constant e na cidade peruana de Islândia. Apesar de toda a influência e das suspeitas que giram em torno dele, a polícia local somente há poucos dias confirmou de quem se trata.
Colômbia opera o esquema de venda de peixes que abastece não apenas comércios, hotéis, restaurantes e cafés do Alto Solimões, mas também de cidades mais distantes como Tefé, Manaus e Bogotá. Ele seria um intermediário de cartéis de narcotraficantes. O nome reapareceu nas apurações sobre as mortes de Bruno e Dom, mas a polícia ainda o procura.
MEMBRO DA QUADRILHA – Ao longo dos rios da fronteira, “Colômbia” tem seus prepostos. Investigadores e ribeirinhos ouvidos pelo Estadão afirmam que o pescador Amarildo Oliveira, o Pelado, seria um braço dele nas comunidades da beira do Itaquaí.
Pelado assumiu a autoria do crime, mas negou trabalhar para traficantes ou atravessadores. Como mostrou a reportagem, no depoimento à polícia ele disse somente que vende “para quem paga melhor”.
Outra suspeita em torno de “Colômbia” diz respeito a uma suposta atuação para lavar dinheiro do tráfico de drogas por meio do comércio local. Uma parte da mercadoria que chega a Tabatinga vinda de Manaus por balsas seria destinada por narcotraficantes e vendida a comerciantes a preço muito semelhante ao de custo.
LAVAGEM DO DINHEIRO – Na cidade, as mercadorias rendem pequena margem de lucro. Assim, as quadrilhas lavam o dinheiro, movimentam a economia da cidade e controlam rotas.
A morte de Maxciel abalou profundamente a família, com casos de depressão e pânico. Os familiares convivem com o medo de represálias e com a ferida aberta por causa da falta de explicações sobre o ocorrido.
A mãe do indigenista lembra que seu caçula sempre foi muito trabalhador e carinhoso. Ela conta que tinha orgulho do “filho que é da Funai”. “É uma angústia muito grande, choro todos os dias. É uma dor muito grande não saber o porquê. Não tenho mais prazer na minha vida. Eu quero justiça. Quero saber por que mataram meu filho e quero saber quem foi o mandante, porque sabemos que teve mandante”, desabafou.
Crime organizado – Apesar de todo o contexto do crime organizado na região de fronteira e do histórico de ameaças contra indigenistas na Amazônia, a Polícia Federal informou em uma nota, ainda na sexta-feira, 17, que as mortes de Bruno e Dom não foram encomendadas. “Os executores agiram sozinhos, não havendo mandante nem organização criminosa por trás do delito”, dizia o texto.
O comunicado, atípico, causou estranheza e motivou críticas de várias entidades. Entre elas, a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), para a qual Bruno passou a trabalhar após represálias políticas que sofreu na Funai. Neste domingo, a PF mudou o tom e declarou que “as investigações continuam no sentido de esclarecer todas as circunstâncias, os motivos e os envolvidos no caso”.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Crime sem mandante num terra sem lei, com oito envolvidos, é uma dedução sinistra que depõe contra os responsáveis pelas investigações. Além do mais, pescador de pirarucu jamais foi considerado bandido na Amazônia; É apenas pescador, e nada mais. (C.N.)