
Charge do Duke (O Tempo)
Merval Pereira
O Globo
A partir da decisão do Congresso de rejeitar o voto impresso, o presidente Bolsonaro perderá as condições de tentar virar a mesa ou de qualquer outro tipo de ação, a não ser reclamar, o que já começou a fazer. O deputado Artur Lira, presidente da Câmara, resolveu levar a questão ao plenário, o que, além de uma homenagem a Bolsonaro, terá o mérito de definir o assunto definitivamente.
Bolsonaro ficará sem argumento para alegar que está sendo roubado e que existe um movimento para eleger Lula. A maioria dos partidos já decidiu que irá votar contra o voto impresso e assim ele vai sofrer uma derrota muito grande na Câmara, perdendo o argumento do golpe; não poderá tentar dar um golpe e jogar fora das quatro linhas com a alegação de que a eleição foi roubada.
NOVA ESTRATÉGIA – Com a possibilidade real de ficar inelegível com o inquérito aberto contra ele no TSE, Bolsonaro precisa avaliar bem sua estratégia política, que claramente tem o objetivo de causar confusão e enfrentamento de autoridades para retornar ao Bolsonaro da campanha de 2018 – que na verdade nunca existiu, mas deu certo. Caso ele se torne inelegível, só uma revolução popular e não acredito que tenha apoio do povo para isso.
Ele pode até gostar da ideia de ser declarado inelegível para se fazer de vítima de um complô com os mesmos que tornaram Lula elegível – que é uma saída boa para o populismo, mas o deixa ameaçado.
SEM GOLPE – Os políticos que o apoiam devem estar dizendo a ele que uma ditadura não interessa, porque fecha o Congresso e é melhor ter eleição com um candidato forte.
A essa altura, imaginar um golpe militar no Brasil é tão anacrônico no mundo moderno, que não acredito que aconteça. Mas Bolsonaro acredita. O último que acreditou foi Jânio Quadros, que renunciou pensando que o povo sairia atrás dele na rua e nada aconteceu.