sexta-feira, abril 30, 2021

A pedido da Funai, líder indígena é intimada pela Polícia Federal por críticas ao governo Bolsonaro

Publicado em 30 de abril de 2021 por Tribuna da Internet

‘A perseguição desse governo é inaceitável. Não nos calarão’, disse Sonia

Wellington Hanna
G1 / TV Globo

A Polícia Federal intimou a líder indígena Sonia Guajajara, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), a prestar depoimento em um inquérito aberto em razão de documentário divulgado na internet que, segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai), propaga “mentiras” contra o governo.

A informação foi divulgada nesta sexta-feira, dia 30, pela revista “Época”. Vinculada ao Ministério da Justiça — ao qual também é subordinada a Polícia Federal —, a Funai é a autora do pedido de investigação da Apib.

VÍDEOS – O inquérito foi aberto em 19 de março pelo delegado Francisco Vicente Badenes Junior. Ele tomou como base documentação e vídeos enviados pela Funai em 7 de outubro do ano passado, por meio de ofício assinado pelo presidente da fundação, Marcelo Augusto Xavier da Silva, e dirigido ao então diretor-geral da Polícia Federal, Rolando Alexandre de Sousa.

Coordenadora da Apib, Sonia Guajajara foi intimada na última terça-feira, dia 27. O depoimento estava marcado para esta quinta-feira, dia 29, em Brasília, mas, segundo registros da Polícia Federal, o advogado da líder indígena informou que ela não se encontrava na capital federal e que, por isso, iria fazer um requerimento solicitando alteração da data.

PERSEGUIÇÃO – “A perseguição desse governo é inaceitável e absurda! Eles não nos calarão!”, escreveu Sonia Guajajara em uma rede social. Em nota, a Apib afirmou que a intimação foi uma forma de “criminalizar o movimento indígena“.

“O governo busca intimidar os povos indígenas em uma nítida tentativa de cercear nossa liberdade de expressão, que é a ferramenta mais importante para denunciar as violações de direitos humanos. Atualmente, mais da metade dos povos indígenas foram diretamente atingidos pela Covid-19, com mais de 53 mil casos confirmados e 1.059 mortos“, diz a nota da entidade.

PEDIDO DA FUNAI –  No documentário, uma webserie em oito episódios intitulada “Maracá”, a Apib aponta violações de direitos dos povos indígenas pelo governo federal durante a pandemia da Covid-19. De acordo com a entidade, o governo promove “genocídio indígena”.

“Trata-se de uma série de oito vídeos, com título “Agora é a Vez do Maracá”, divulgada como uma mobilização nacional e internacional em prol dos povos indígenas do Brasil durante a pandemia, com divulgação de diversas informações torcidas e tendenciosas, de forma a deformar a verdade dos fatos, acusando o governo federal de total abandono aos indígenas, além de diversas outras acusações graves”, afirma o presidente da Funai no documento enviado à PF.

No ofício, a Funai fala em “campanha de calúnia e difamação” por suposta divulgação de informações falsas sobre o número de indígenas doentes e mortos e aponta “possível cometimento de calúnia e difusão de fake news e estelionato”.

ALEGAÇÃO – De acordo com a fundação, “as referidas ‘fake news’ aparentam ter como intuito levar vítimas a eventuais prejuízos financeiros, podendo ser enquadrada no crime de estelionato (art. 171, CP), posto que busca vantagem ilícita em prejuízo alheio, ao difundir mentiras para arrecadar fundos”.

No documento, a Funai relaciona a Apib a “organizações comunistas” que, segundo a fundação, “prejudicam o Brasil, ao articular informações para denegrir a imagem para o exterior. Assim, mais uma vez fica demonstrado a articulação para captação de recurso internacional”.

AÇÃO NO SUPREMO – Uma ação contra o governo apresentada pela Apib e por seis partidos políticos (PSB, PSOL, PCdoB, Rede, PT, PDT) tramita desde o ano passado no Supremo Tribunal Federal. Na ação, a entidade e os partidos reclamam de omissão do governo federal no combate à Covid-19 entre os indígenas.

O ministro Luís Roberto Barroso, relator da ação, validou parcialmente no último dia 16 de março — depois de três versões rejeitadas — um plano de ações do governo federal para tentar conter o avanço da Covid entre os povos indígenas.

Naquela decisão, Barroso também determinou a apresentação de novas medidas capazes de isolar as comunidades indígenas de sete áreas do contato com invasores e para informar como será a execução e o monitoramento do plano homologado. A Advocacia Geral da União (AGU) apresentou uma nova versão do plano — a quinta — que agora deve ser novamente analisada pelo ministro.

Em destaque

Cemitério Jardim da Saudade inaugura Espaço de Reflexão com celebração ecumênica em Salvador

                                          Foto Divulgação Cemitério Jardim da Saudade inaugura Espaço de Reflexão com celebração ecumênica ...

Mais visitadas