Mário Assis Causanilhas
Na parte final de seu estudo, o antropólogo Flávio Gordon explica como o filósofo Olavo de Carvalho insere a China como peça fundamental da Nova Ordem Mundial, na qual o grande capitalismo se utiliza das práticas socialistas para garantir a supremacia do capital nas relações sociais, políticas e trabalhistas.
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ENTENDA POR QUE BILIONÁRIO CAPITALISTAS INVESTEM EM TESES ESQUERDISTAS
Flávio Gordon Gazeta do Povo
Ora, se o objetivo já não é apenas o de enriquecer, mas o de dominar o Estado, e, mais amplamente, as consciências, qual modelo de regime político levou esse domínio às raias da perfeição, desenvolvendo uma tecnologia de controle da sociedade e do indivíduo jamais vista em outros contextos históricos? O modelo socialista, por óbvio.
E é também óbvio que os metacapitalistas (bilionários capitalistas que financiam a nova esquerda) só apoiam medidas socializantes por saberem que, em termos estritamente econômicos, um regime socialista pleno é uma impossibilidade lógica e prática. Sabem disso, aliás, como a Nomenklatura bolchevique sempre soube, ao menos desde que Lenin lançou a Nova Política Econômica.
ECONOMIA DE MERCADO – A estatização completa da economia é inviável, e, para se manter de pé, todo governo de tipo socialista precisa tolerar algum grau de economia de mercado, ainda que de maneira clandestina (ver, sobre isso, “USSR: The Corrupt Society – The Secret World of Soviet Capitalism, de Konstantin Simis”).
É precisamente esse misto de economia capitalista e governo socialista que tem fundamentado a nova ordem mundial surgida com o fim da Guerra Fria. Numa espécie de acordo tácito com os comunistas, os metacapitalistas do Ocidente chegaram à conclusão de que seria preciso criar alguma forma de síntese entre o dinamismo econômico do capitalismo liberal e a eficiente tecnologia de controle social e imposição de consenso manejada pelos regimes socialistas.
EXEMPLO DA CHINA – Não é à toa que, como protótipo dessa síntese, a China esteja se alçando à posição de potência hegemônica na ordem mundial contemporânea.
Com a tolerância, quando não mesmo o endosso, dos metacapitalistas. Como sugeriu o intelectual chinês Di Dongsheng, que mencionei em artigo anterior, Pequim sempre exerceu forte influência sobre Wall Street, e voltará a exercer a partir da posse de Joe Biden.
E, muito embora tudo isso ainda soe inconcebível para a maioria das pessoas (a exemplo dos meus amigos liberais), a verdade é aquela que, há 100 anos, escreveu o grande romancista britânico H. G. Wells (um notório socialdemocrata): “O grande negócio não é, de forma alguma, antipático ao comunismo. Quanto mais cresce, mais se aproxima do coletivismo”. Bingo!
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Trata-se de enésima versão da teoria conspiratória mais conhecida – a Nova Ordem Mundial. Como suas antigas previsões – iniciadas séculos atrás – jamais se concretizaram, os teoristas foram providenciando alterações através dos tempos. As mais recentes fizeram um contorcionismo danado para incluir a China. Até então, quando me falavam da tal Nova Ordem, eu perguntava, lembrando Garrincha: “Já combinaram com os russos e chineses?”. E isso desmontava qualquer teoria. Mas agora deram um jeito de incluir a China, para dar mais lógica.
Mas a teoria do terraplanista Olavo de Carvalho começa com uma falsa premissa. A de que bilionários capitalistas financiam as esquerdas para se livrarem da submissão ao mercado. O que acontece é que os grandes empresários são pessoas preparadas e de visão ampla. Chegam ao final da vida, sentados sobre aquela montanha de dinheiro e têm a consciência pesada de nada terem feito para melhorar o mundo. Por isso, as fundações investem em teses de esquerda, porque são mais humanitárias. É uma forma de aliviar um pouco a consciência, apenas isso, como acontecia antigamente, quando os velhos ricos doavam seus bens à Igreja, tentando comprar o perdão divino.
Quanto à China, não é protótipo de nada. Tem de ser uma ditadura sangrenta, porque é formada por várias nações que se odeiam, como na antiga União Soviética. São países e povos que têm tradições, línguas, hábitos e religiões diferentes. Se houver democracia, a China se desmembra em várias nações. Ela só cresceu assim, aceleradamente, porque aceitou acolher as indústrias poluidoras proibidas em seus países de origem e que lá foram remontadas. O famoso Rio Amarelo mudou de cor e não é mais perene, Morrem cerca de 20 milhões de pessoa/ano, por causa da poluição, mas o Comitê Central do Partido Comunistas não está nem aí.
O Brasil agravou a atual crise por causa dessa teoria maluca. O terraplanista Olavo de Carvalho tentou inoculá-la na cabeça de Bolsonaro, dos filhos, do chanceler Ernesto Araújo etc., e foi um desastre. Queimou os neurônios deles, que hoje estão em outra galáxia, todos são novos normais, completamente baratinados.
O vice Hamilton Mourão e os generais do Planalto escaparam por enquanto, porque tinham sido vacinados previamente na Escola Superior de Guerra. Mas a teoria é contagiosa e alguns militares já apresentam sintomas. É aí que mora o perigo, sem novidades no front ocidental. (C.N.)