segunda-feira, dezembro 14, 2020

Afinal, o público acredita que existe imparcialidade no jornalismo ou desconfia de algo mais?


Charges: Por uma imprensa livre!

Charge do Genildo (Arquivo Google)

Madeleine Lacsko
Gazeta do Povo

O Reuters Institute acaba de divulgar o primeiro relatório de um projeto conjunto com a Universidade de Oxford, o “Trust in News Project”, que vai durar 3 anos e analisa Reino Unido, Estados Unidos, Índia e Brasil. Um dos assuntos pesquisados é saber se o público acredita que existe imparcialidade no jornalismo ou desconfia de algo mais?

Tendência política e endossar sistematicamente o discurso de determinadas elites são fatores apontados como fundamentais para erodir a confiança do público nos jornalistas. Nos países em que a grande maioria dos jornalistas é de uma determinada tendência política, como acontece no Brasil com a esquerda, existe uma desconfiança do público nas motivações da imprensa como um todo.

PAUTAS DA ELITE – Outro ponto é a defesa sistemática de pautas que interessam apenas a uma porção muito específica da população, normalmente aquela elite intelectual com a qual os jornalistas dos grandes centros convivem.

O discurso que afeta superioridade e simplesmente ignora questões reais, porque não incomodam aquela elite, acabou por fazer com que uma parte do público se sinta órfã.

A confiança tem profundas raízes nos sentimentos. A desconfiança acaba se transferindo para todos os que, de alguma forma, façam parte do universo que a gerou, seja o da polarização política ou o dos interesses de determinadas elites.

NÃO ACREDITAM – Rebecca Walters, produtora executiva da KJRH em Tulsa (USA), relatou ter dificuldades em convencer o próprio pai de que a redação que ela chefia não tem interesses políticos ocultos. É complicado quando uma narrativa passa a ser mais forte que os laços familiares mais profundos.

“Ser transparente sobre o que se acredita é uma premissa para gerar uma forte relação de confiança”, frase de Guilherme Cunha Pereira, Diretor Executivo do GRPCOM, que é citada no primeiro relatório do Trust in News Project. Ele acrescenta:

“O fato de que a grande maioria dos meios de comunicação tem uma visão mais progressista, enquanto parte da sociedade não se alinha com isso – é supersaturada, e leva à desconfiança”. O relacionamento do público, hoje, é primeiro com os comunicadores. Organizações podem ter sistemas editoriais que cheguem perto da imparcialidade, pessoas não.

CONSTANTE MUDANÇA – “Reconhecemos que, como pesquisadores, estamos viajando não apenas por um caminho desgastado, mas também por um caminho que atravessa terrenos em constante mudança. As questões que delineamos sobre (a) o papel das plataformas, (b) estratégias de engajamento do público, (c) iniciativas de transparência e (d) preconceitos sobre as notícias, todos servirão amplamente como um roteiro, e colocaremos os usuários de notícias – pessoas cuja confiança os jornalistas procuram ganhar – no centro do nosso trabalho. Este roteiro guiará nosso caminho adiante, permitindo-nos ser guiados pelas descobertas que esperamos encontrar.”, é o encerramento do relatório.

 Estamos ainda tateando no escuro no caminho das mudanças. Confiança não se estabelece do dia para a noite, mas se perde em um piscar de olhos. Ainda continuam sendo as principais referências do público as marcas mais tradicionais, em todos os 4 países estudados, mesmo quando há descontentamento com alguma delas. Ainda estamos na fase em que o público órfão por ver tendência política ou elitismo no comportamento da imprensa empenha confiança em quem repete as práticas, mas se voltando contra quem as inaugurou. É uma fase. A única conclusão do primeiro relatório do Reuters Institute e da Universidade de Oxford é que não basta cada veículo de imprensa tentar fazer o seu, estamos em um novo mundo e precisamos repensar juntos, com a participação do público.

(artigo enviado por Mário Assis Causanilhas. A autora, Madeleine Lackso, foi Consultora Internacional do Unicef Angola, diretora de comunicação da Change.org e assessora no Supremo Tribunal Federal)

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