quarta-feira, fevereiro 02, 2022

Feminismo e repressão de fantasias

 




Do mesmo jeito que um aiatolá manda cobrir o corpo feminino, que os excita, as feministas mandam cobrir qualquer coisa que remeta à submissão feminina. Porque isto as excita. 

Por Bruna Frascolla (foto)

Quem já reparou que revista de homem pelado é feita para homem? Já que a maioria da população de ambos os sexos sente atração pelo sexo oposto, seria de esperar que a maioria de interessados em fotos de homens pelados fosse feminina. No entanto, o que tínhamos era uma coleção de publicações com foto de mulher pelada para a maioria masculina de homens interessados em mulheres, e uma ou outra revista com foto de homem pelado para a minoria de homens interessados em homens. Isso nos levaria ao tabu de que homens são diferentes de mulheres. Para evitá-lo, os progressistas recorrem ao dogma de que toda diferença se explica por opressão. Assim, as mulheres estariam todas loucas para comprar revistas com modelos pelados pra ficar olhando para um monte de pênis de anônimos, mas o patriarcado não deixa. Será?

Agora as bancas estão em baixa, por causa da internet. Vou acudir então à memória do leitor e pedir que se lembre daquelas coleções cor-de-rosa com nome de mulher (tipo Sabrina). As vovozinhas adoravam e os netinhos raramente pegavam pra ler. Curiosa que sou, certa feita já peguei a da minha vovozinha (não a que gostava de cantada de pedreiro, a outra), folheei e encontrei lá, mais pro fim, o herói do romance sugando “com sofreguidão” os seios da heroína. A fórmula é sempre a mesma: mocinha romântica vai para um ambiente desconhecido e encontra um homem intrépido ou taciturno que se rende aos seus encantos. Casam e são felizes para sempre.

Tem pornografia? Tem. E faz jus ao “grafia” de pornografia, porque é tudo escrito, sem imagem nenhuma. Trata-se justamente de atiçar a imaginação da leitora. Até onde eu saiba, não existe uma coleção azul em que os porteiros fiquem lendo histórias de paulatinas conquistas amorosas que, só mais pro fim, culminam em sexo. Alguma progressista vai dizer que os homens têm uma vontade acachapante de ler histórias picantes reprimida por alguma espécie de opressão? Se for verdade, recomendo a criação da coleção "Tonho", a ser vendida para os porteiros que passam o dia nas portarias e têm tempo para ler. Na Coleção Tonho, o herói sempre conquista uma mulher difícil.

Enquanto ninguém faz o teste, dou-me o direito de apontar que os homens são mais atiçados por imagens explícitas e as mulheres pela imaginação.

O fim das bancas

Com o fim das bancas de revista, para onde foi a pornografia feminina? Bom, um exemplo evidente é 50 Tons de Cinza, que foi chamado de “pornô para mamães” e apresentado como grande novidade por isso. A mocinha virgem conhece um cara taciturno e poderoso que gosta de práticas sádicas de submissão, que incluem ciúmes extremos e cintadas no lombo. No fim, se casam.

Se a memória não falha, Jordan Peterson diz, numa dessas conferências baseadas em filmes infantis, que o arquétipo feminino do Herói está representado em A Bela e a Fera, no qual a mulher doma a fera. Se é arquétipo de Herói, eu não sei. Mas é difícil negar que ele tenha razão ao apontar a generalidade desse ideal. E não darei nenhum passo extravagante ao afirmar que existe, no mundo feminino, um fetiche romântico por domar uma fera. Isso tudo está na imaginação, e não tem nada a ver com fotos explícitas. Estas fotos são coisa do sexo masculino.

Naturalmente, a própria ideia de herói ou de conquista traz a possibilidade de fracasso. O fracasso pode ocorrer tanto pela falta de feras (que seria de São Jorge sem um dragão?) quanto por não se conseguir domar a fera. As feministas têm dito a plenos pulmões que querem homens mansinhos, que a masculinidade é tóxica etc. Alguns homens por alguma razão acreditam no que elas dizem, então tentam parecer ou ser um bando de abobado e depois ficam na internet reclamando que as mulheres só gostam de malvados.

Continuemos mais um pouquinho em nossa busca. A pornografia masculina sabidamente migrou para a internet – como quase tudo o que era papel antes. Será lógico que a feminina tenha migrado também. Onde encontramos narrativas sobre homens que parecem dragões implacáveis a serem combatidos? Nos blogues e perfis de feministas. Nos textões, os homens são sempre abusivos, implacáveis, dotados de uma masculinidade tão inebriante que intoxica as leitoras. São ciumentíssimos e estão sempre prontos para dar tabefes. A diferença é no fim do roteiro, já que a Bela não conquistou a Fera.

O que depreendo é que, das duas, uma: ou essas senhoras estão pegando um cara manso fantasiando que são umas feras, ou se meteram mesmo numa enrascada da qual saíram derrotadas.

Da internet à polícia

O leitor na certa há de se lembrar daquela história de “estupro culposo” do Intercept. No fim, não tinha nem estupro (era o caso Mari Ferrer), nem o uso do termo “estupro culposo”. Pois bem: o site tinha então uma jornalista que vivia falando de “o meu estuprador”. É “o meu estuprador” pra lá, “o meu estuprador” pra cá. Os seres humanos decentes costumam ficar embaraçados ao relatar as situações degradantes por que passaram.

A jornalista foi ao Twitter acusar um professor de tê-la estuprado. Como a coisa virou assunto de polícia, ela teve ocasião para contar nos mínimos detalhes o suposto estupro. Na mesma ocasião em que explodiu o caso Mari Ferrer, duas mulheres, uma advogada e uma ex-feminista engajada em combate a assédio, tomaram a iniciativa de defender os homens de falsas acusações. Criaram o perfil Manas e Manos com este fito e trouxeram também os detalhes do caso da jornalista, que você pode ler aqui.

Eu resumo: ele é casado e tem um caso com ela. O caso termina. Ainda assim, ela o convida para conhecer o seu novo apartamento. Ele entende isso como um convite para sexo. Ela demora a dar indícios contundentes de que não quer sexo, e, quando o faz, o homem sai correndo assustado. Poupo os leitores das descrições minuciosas que ela deu ao delegado. O que eu queria apontar nessa história é o jeitão de 50 Tons que tem o depoimento na versão dela. É um tal de ser frágil para recusar, mas ser irresistível ao mesmo tempo, e ter diante de si um homem capaz de cometer um crime para possuí-la. Mas ela fez “xô” e ele sumiu; voltou pra esposa. Resta contar para todo mundo na internet que o homem era uma fera.

Essa história terminou bem, já que a falsidade da acusação foi reconhecida pela Justiça.

Fantasias reprimidas

A polêmica do momento é a autocensura de Chico Buarque, que não vai mais cantar “Com açúcar, com afeto”, escrita a pedido do homem branco cis hétero Nara Leão. O problema, naturalmente, é o papel submisso da mulher perante o homem. Ela faz o doce predileto para o marido parar em casa, mas ele só quer saber da boemia.

A minha explicação para isso é simples: repressão da própria sexualidade. Do mesmo jeito que um aiatolá manda cobrir o corpo feminino, que os excita, as feministas mandam cobrir qualquer coisa que remeta à submissão feminina. Porque isto as excita.

Voltemos à fantasia feminina. Eu não li a coleção cor de rosa, mas disponho de um expert no assunto. Senhoras e senhores, Paulo Polzonoff participou da corrupção de vovozinhas. Ele foi tradutor de coleção cor de rosa e garante: não tem tabefe, muito menos cinto no lombo. As heroínas não fazem sexo; fazem amor. De acordo com sua experiência, tabefe aparece com Nora Roberts, que é posterior.

O homem de 50 Tons é um Deus nos acuda. Quem reclamou do livro? Os praticantes de sadomasoquismo, que dizem que ali está tudo errado, e as feministas, que têm um problema com a representação artística ou ficcional da submissão feminina. De todo modo, de admirar é que um livro com um mocinho tão medonho quanto esse tenha encantado as mulheres do século XXI.

Fica a questão, por fim: será que as mulheres de hoje fantasiam mais com submissão, tabefe e até cintada, ou será que as vovozinhas teriam vergonha de ler tais livros? Não está ao meu alcance provar nada, mas eu voto na primeira. Faz sentido que a emancipação feminina, acompanhada pelas campanhas contra a “masculinidade tóxica”, torne a submissão uma coisa mais atraente. É uma nova forma de transgressão.

No mais, anos atrás, um grande amigo galinha que só namora feminista me garantiu que mulher gosta de levar tabefe. Como não é o meu caso, fiquei incrédula e passei a perguntar a mais homens. No meio universitário, todos garantiam que sim, há alta demanda por tabefes. Um dos que ouvi disse que já deixou de fazer sexo por se recusar a dar tabefe. Esse tinha trauma de feminista e sabe que um tabefe consentido pode virar assunto de delegacia, a depender do humor da namorada.

Gazeta do Povo (PR)

À vontade para radicalizar

 




Desde há muito trato da pandemia — especificamente da vacinação — como campo ideal para o exercício da radicalização bolsonarista; território perfeito à produção-circulação de teorias conspirativas.

Por Carlos Andreazza (foto)

Claro que há outros chãos favoráveis ao fluxo do discurso sectário com vista à eleição de 2022. Por exemplo: a desinformação fidelizante difundida pela campanha do voto impresso, cruzada pela suspeição das urnas eletrônicas, uma empresa pela dilapidação do sistema eleitoral; mas cujos limites logo armariam os freios, o maior dos quais o fato de existir um inquérito instaurado de ofício, dependente apenas da caneta de Alexandre de Moraes.

Os movimentos nesse processo, muitos sob a vara da PF, assustaram.

No caso da pandemia, inexistente um inquérito como o governado por Moraes (em que o STF é vítima, acusador e juiz), a criminalização da conduta do presidente dependeria de gestões da PGR. Bolsonaro está blindado neste flanco — e sabe. A CPI da Covid, que lhe deu muito trabalho, não terá como se desdobrar sem Aras. (Lira, na Câmara, é seu sócio.) Daí por que deite e role. Daí por que, ante a vacinação de crianças, sinta-se ainda mais à vontade para acelerar o esforço por desacreditar vacinas.

Não é novidade que essa pregação desinformante opere em movimento pendular: com Bolsonaro de um lado lançando o pêndulo ao extremo dos ataques à vacinação (ou aos decretos de distanciamento social), com o que abastece sua base social, também por meio de confrontos com governadores, os tiranos ladrões da liberdade; de outro, ante a imposição do mundo real, levando o pêndulo até mesmo ao lugar em que o governo tentaria competir pela liderança do programa de vacinação, seja porque acossado por Doria, que começara a vacinar antes, seja pela repercussão da CPI.

Padrão.

O mundo real sempre se impõe. E então Bolsonaro afrouxa a corda. Até que as condições a um novo ciclo embusteiro se deem, e o bolsonarismo, liderado pelo presidente da República, dispare-se, sentindo-se seguro, em novo impulso de radicalização. O esquema se repetiu quando da vacinação de jovens. E agora, com as crianças. Pêndulo vai. O mundo real se impõe. Pêndulo vem. Uma, duas, três, mil vezes — a imposição do mundo real. Mas não tarda a que se apague — a que seja apagada — para a constituição artificial de um novo palco de combate, de uma nova forja à confecção de inimigos imaginários.

Ou não teremos visto o ministro da Saúde, personificação desse movimento pendular, falar — não faz duas semanas — em 4 mil mortes comprovadamente relacionadas à vacinação? Uma informação errada, mas não um erro.

Padrão.

Como Bolsonaro — aterrando a realidade — insiste na farsa de que esteve certo, pensando na saúde da economia brasileira, quando bradou contra a prioridade das vacinas e a necessidade de restrições à circulação de pessoas, lembremos do último trimestre de 2020. Era o momento decisivo para o fechamento de contrato com a Pfizer; para que se iniciasse a vacinação ainda naquele ano, e já estava evidente que a reativação orgânica da economia só viria com a vacinação em massa. Mas o governo foi negligente e fabricou impedimentos.

Por quê? Porque iria “surpreender o mundo”, totalmente comprado na tal imunidade de rebanho. Para que gastar com vacinas? A cloroquina como placebo que empurraria o povo às ruas, do que se colheria o produto “contaminação em massa”, situação em que, sem parar a economia, chegar-se-ia ao fim da pandemia naturalmente.

“Baixíssima probabilidade de segunda onda” em 2021 — dizia, naquela altura, um secretário de Paulo Guedes. Era a aposta no declínio da peste, imunizados os brasileiros por contágio, paralelamente à economia que se recuperava em V. Aí está. Daquela mentalidade derivando também, vacinas em segundo plano, a suspensão do auxílio emergencial entre janeiro e abril — janeiro de 21, aliás, o mês em que o governo brincaria de TratCov na Manaus sem oxigênio.

O mundo real se impôs. Bolsonaro, porém, continua a atribuir a falência da economia aos outros. E Queiroga quer ser reconhecido como o ministro que acabará com a pandemia.

Atenção à nova base de lançamento para as mentiras bolsonaristas: a variante Ômicron. A maneira agressiva como contamina consiste na própria definição de paraíso para a pregação antivacina; a moda agora sendo acusar que as pessoas, mesmo com três doses, continuam contraindo o vírus. É a materialização do inimigo imaginário, como se vacinados não pudessem se contaminar. E como se fato não fosse que — mesmo diante da violência dessa mutação e da explosão no volume de infectados — a vacina minimiza a gravidade dos casos e diminui imensamente o número de vítimas fatais.

Não adianta.

Bolsonaro domina o zap profundo, a cuja alimentação servem imposturas como a de Queiroga, e está à vontade para radicalizar; o único risco contra si, em 2022, sendo o de perder a eleição. Radicalizará para ter lastro competitivo. A estratégia: investir no campo de embate da pandemia, navegando a Ômicron, e se aproximar ainda mais dos seus 20% do eleitorado; apostar na “operação Ciro Nogueira” da máquina de modo a que a gestão patrimonialista do Orçamento lhe traga mais alguns pontos; e confiar que a mobilização do sentimento antilulopetista, talvez adormecido, mine em parte a posição de Lula.

O Globo

Triunfo da discórdia: a opinião como arma de um extenuante conflito cotidiano.

 




Há toda uma geração que aprendeu a considerar inteligentes artistas e intelectuais que optam por táticas de guerra para se fazerem relevantes no debate público. 

Por Paulo Polzonoff (foto)

Comecei a reler “The Year of Our Lord 1943” [O ano da Graça de 1943], de Alan Jacobs. Como o subtítulo deixa claro, o livro explica como o humanismo cristão reagiu à escalada de violência que culminou com a Segunda Guerra Mundial. T. S. Eliot, Simone Weil e C. S. Lewis, entre outros, são personagens desse livro magnífico. É impossível para o leitor chegar à última página sem se perguntar, não sem um quê de culpa sincera, como ele teria de fato se comportado numa época e lugar de valores tão corrompidos que. Bom, Auschwitz ainda está de pé por algum motivo.

Lá pelas tantas, Alan Jacobs, inspirado pelos nomes mais-do-que-inteligentes que povoam o livro, esculpe uma frase que há três anos não sai da minha cabeça. “Se tudo é uma questão de opinião e se todos têm direito à sua opinião, a força se torna a única forma de resolver diferenças de opinião”, diz a frase. Em 2019, e para alguém que naquela época defendia a liberdade de expressão absoluta, sem mediação nem mesmo da alma (que absurdo!), a frase foi difícil de engolir.

Afinal, ela dá a entender que as pessoas não precisariam recorrer à força (insultos, cancelamentos, linchamentos virtuais) se nem todos pudessem ou quisessem expressar sua opinião. Soa como censura, eu sei. Mas pare um segundinho para pensar. Viu? Não é. A frase dá a entender ainda que nem tudo é uma questão de opinião – o que, para alguém que vive de escrever todos os dias, soa como uma afronta. Pior: a frase paira ameaçadoramente como uma antevisão de um mundo violento dominado por opiniões dadas a esmo nas redes sociais, para o delírio daqueles que triunfam na discórdia.

Jacobs escreveu isso pensando naquele mundo de relativismo moral que pariu as ideologias totalitárias assassinas do século XX. Mas será que a frase seria diferente se ele falasse especificamente do nosso tempo? Não temos Holocausto nem líderes malucos de bigodinho ridículo pregando a superioridade de uma raça sobre outra e querendo dominar o mundo. Mas temos a torrente de opiniões inócuas (entre elas, as minhas) que, por mais que não queiram, por mais que sejam escritas para arrancar do outro um sorriso ou uma reflexão, muitas vezes acabam por fomentar uma discórdia estéril e cansativa.

Soco na boca do estômago

O problema é que o último século consagrou e exaltou a força como a forma mais “admirável” de se resolver diferenças de opinião. Repare: há toda uma geração que aprendeu a considerar inteligentes artistas e intelectuais que abdicam da criação e optam por táticas de guerra para se fazerem relevantes no debate público. (Convém dizer que, num momento especialmente bom do livro, Jacobs menciona a prevalência de termos bélicos para nos referirmos ao debate de ideias. “Fulano destruiu/arrasou Sicrano”, “Depois dessa Beltrano perdeu até o rumo de casa”. E por aí vai).

Recursos até outro dia vistos como vulgares ou indignos de uso em querelas científicas, por exemplo, são exaltados como sinal de perspicácia, malandragem e, em última análise, inteligência. Quando se trata de querelas estéticas, a coisa piora: prevalecem o niilismo, com seu manto negro de desconfiança, quando não de descrença mesmo. Não à toa, o mistério da Monalisa seduz muito mais do que a Monalisa em si.

Assim temos que admirável (até por sua, oh, coragem!) é o escritor cujo texto é um soco na boca do leitor. Também vemos nascer às ninhadas celebridades, influencers e anônimos-famosos tão tão tão acostumados ao sarcasmo que já nem dá para saber se o “bom dia” deles é sincero. Mais do que uma irritação passageira, essa opção pelo discurso agressivo como se ele fosse expressão máxima da inteligência acaba por dar origem a uma sociedade eternamente em guerra, na qual ninguém acredita em ninguém e na qual todos estão sempre à espera de um morteiro – que, infelizmente, pode vir até mesmo daquele que até outro dia você considerava amigo.

Em tempos de histeria, truculência e narcisismo, talvez esteja na hora de intelectuais e artistas (no sentido de pessoas que expressam quaisquer ideias algo mais elaboradas) fazerem uma escolha: serem reconhecidos como homens (e aqui uso o termo no sentido de ser humano, não de macho) inteligentes, mordazes, perspicazes e provocativos (no pior sentido da palavra) ou serem reconhecidos como pessoas inegavelmente boas, ainda que os inteligentes, mordazes, perspicazes e provocadores os acusem de serem os mansos ou até covardes que, evidentemente, não são.

Gazeta do Povo (PR)

Um delegado contra Lula e Moro na eleição




Governo estuda indenização de R$ 100 mil para policiais

Por Andrea Jubé

O novo estremecimento envolvendo o presidente Jair Bolsonaro e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes joga luz sobre um aliado discreto, mas que terá papel estratégico na campanha à reeleição: o ultra leal ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres (esq.).

Avesso a entrevistas e aos holofotes, Torres é um dos raros aliados a transitar entre dois núcleos da difusa base bolsonarista: o dos filhos e o político. Alçado ao cargo com o apoio de Flávio e Eduardo Bolsonaro e do ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Jorge Oliveira - considerado um integrante da família -, Torres também é desenvolto no meio político. Presidente do futuro União Brasil (UB), que resultará da fusão entre PSL e DEM, no Distrito Federal (DF), e ex-secretário de Segurança Pública do governador Ibaneis Rocha (MDB), o ministro é uma das apostas de Bolsonaro para o pleito de outubro: deverá postular uma vaga de deputado federal ou senador.

A ausência ao depoimento na Polícia Federal (PF) na sexta-feira, descumprindo intimação de Moraes, reacendeu a tensão entre Bolsonaro e o ministro do STF, que estava latente desde a crise institucional provocada pelo feriado de Sete de Setembro, quando o presidente chamou o magistrado de “canalha”.

Naquele episódio, dois atores políticos entraram em cena como bombeiros. O ex-presidente Michel Temer redigiu a carta pública na qual Bolsonaro declarou que não teve “intenção de agredir quaisquer dos Poderes”, e atribuiu os insultos aos magistrados do STF ao “calor do momento”.

Um dia após a divulgação da carta, Anderson Torres visitou Moraes na residência do magistrado em São Paulo. A conversa entre o ministro da Justiça e o ex-titular da pasta tinha o objetivo de selar um armistício e durou quatro horas.

Nesta nova desavença, entretanto, Torres e Moraes não se falaram. O encontro de ambos há quatro meses, entretanto, revelou uma faceta pouco conhecida de Torres. De postura reservada, ele é o homem do presidente para missões de bastidores.

Foi com a mediação de Temer, que Torres se reuniu com Moraes. Antes, entretanto, o ministro cumpria outra tarefa delicada em São Paulo naquele 10 de setembro: um almoço com a cúpula da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

O titular da Justiça ajudou a distensionar a relação do governo com a instituição após a notícia de que Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal poderiam se desligar Febraban. O mote era uma carta em defesa da democracia, que seria divulgada pela instituição. Umas uma das versões que circulou continha ataques ao governo.

Torres deverá ganhar mais visibilidade na campanha quando partir para o confronto contra os principais adversários de Bolsonaro - o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-ministro da Justiça Sergio Moro - em temas que foram centrais em 2018: segurança pública e corrupção.

Foi a promessa feita em seu discurso quanto tomou posse como ministro há nove meses: “A segurança publica foi uma de suas principais bandeiras de sua eleição, e ela voltará a tremular alta e imponente, isso eu posso garantir.”

Delegado de carreira da Polícia Federal, o ministro é o elo entre Bolsonaro e os policiais, uma das categorias caras ao presidente, que integram o núcleo sólido da base bolsonarista.

Após a ameaça de greve de outras categorias do funcionalismo público, Bolsonaro declarou no dia 19 que o prometido reajuste aos policiais federais, policiais rodoviários e agentes penitenciários estava suspenso.

Em meio ao impasse, os policiais podem ser contemplados com outro pleito antigo da categoria. O ministro deve enviar ao Ministério da Economia nos próximos dias uma minuta de projeto de lei para instituir uma indenização por morte, ou invalidez permanente, de policiais federais, rodoviários federais, e agentes do Departamento Penitenciário Nacional (Depen).

Pelo texto, vítimas no exercício da atividade profissional que se tornaram incapazes, ou a família, no caso de vítimas fatais, terão direito a uma indenização de R$ 100 mil.

Atualmente, as vítimas ou seus familiares têm de recorrer à Justiça para pleitear o ressarcimento e prevalece a insegurança jurídica. Se o ministro Paulo Guedes indicar a fonte de recursos, a matéria avança para a Casa Civil, de onde poderá seguir para o Congresso.

Se a proposta prosperar no Congresso, vira trunfo eleitoral. Antes disso, entretanto, Torres tem credenciais para desafiar os adversários de Bolsonaro para debates na área de segurança pública e combate à corrupção.

Dados da pasta mostram um repasse recorde de recursos aos Estados e DF para investimento em segurança pública: R$ 2,3 bilhões desde o começo da gestão. Em 2021, a execução orçamentária da pasta atingiu o patamar de 99,44%.

Outro dado é o aumento de 35% nas operações integradas entre as polícias em relação a 2020, sob a coordenação do ministério: 37 no ano passado. A operação Guardiões do Bioma reuniu 8 mil profissionais na repressão de crimes ambientais. Mais de 17 mil incêndios combatidos, mais de 1.500 multas aplicadas, e apreensão de 5.169 m3 de madeira.

Anderson Torres será o homem-chave de Bolsonaro na eleição para o confronto desses temas, bem como no esforço de eleger aliados para o Congresso. Torres não teria dificuldades de se eleger deputado federal no Distrito Federal, onde o eleitorado é majoritariamente bolsonarista, e sensível às pautas da segurança pública.

Torres deixou a secretaria de Segurança Pública do DF com resultados relevantes. Em 2019, sua gestão alcançou o menor índice de homicídios dos últimos 35 anos (13,9/100 mil habitantes. Em 2020, ele bateu o próprio recorde, exibindo o menor índice de homicídios dos últimos 41 anos no DF (12,2/100 mil habitantes.

No DF, entretanto, Bolsonaro enfrenta o mesmo dilema dos aliados no Rio Grande do Norte: dois ministros para a única vaga de candidato do governo ao Senado. Torres disputa o espaço local com a ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda, do PL. Imbróglio que as pesquisas ajudarão a solucionar adiante.

Valor Econômico

Os sobressaltos dos mercados




Conter a demanda é o efeito colateral indesejado e não o objetivo da elevação na taxa de juros

Por Luiz Gonzaga Belluzzo* (dir.) e Gabriel Galípolo* (esq.)

Em sua edição de domingo, 30 de janeiro, o Financial Times adverte em matéria de capa que os senhores das finanças estão temerosos diante das promessas do Federal Reserve de reverter paulatinamente os estímulos monetários que sustentam as exuberância nas Bolsas de Valores.

O mercado da riqueza é um fenômeno estranho à lógica convencional, sempre empenhada em formular deduções pela exclusão de contradições. Os processos de mercado não podem ser avaliados pela concepção de “ciência” que busca definir “valores de equilíbrio” extraídos de construções teóricas que empobrecem as subjetividades dos protagonistas, como aquelas formuladas sob o patrocínio das “expectativas racionais”.

As operações de mercado são viabilizadas por equivalências que simultaneamente significam percepções contrárias de valores. Seria uma ousadia convocar Theodor Adorno e sua Dialética Negativa para testemunhar que “palavras como problema e solução soam falsas na filosofia porque postulam a independência do pensado em relação ao pensamento precisamente lá onde pensamento e pensado são mediados reciprocamente”.

Ficamos com George Soros e seu conceito de reflexividade para investigar a natureza das relações entre os protagonistas dos mercados financeiros. “A característica distintiva da reflexividade é que ela introduz um elemento de incerteza no pensamento dos participantes e um elemento de indeterminação na situação em que participam”.

O preço da operação (equivalência) significa uma oportunidade vantajosa para renúncia de liquidez e aquisição do ativo para o comprador, e de renúncia do ativo em troca de liquidez para o vendedor. No mercado financeiro cada qual prevê o futuro a sua maneira. O comprador acredita que o prêmio esperado compensa o risco, ocorrendo o oposto com o vendedor. O benefício para o comprador será realizado caso o tempo entregue os ganhos esperados com a aquisição do ativo.

As percepções distintas de valores são possíveis no presente enquanto expectativas distintas, mas o futuro não proporcionará um resultado mutuamente vantajoso. O tempo irá dissolver as percepções de benefícios mútuos, revelando ganhadores e perdedores, ao confirmar, superar ou frustrar as apostas.

A economia colaborativa descrita na teoria clássica - sempre dedicada em atribuir vantagens mútuas nas trocas entre agentes mobilizados pelo desejo de consumo de utilidades diversas - é subvertida por movimentos de agentes com percepções inversas quanto à estratégia para realizar um desejo mútuo (e contraposto) de expandir seu valor em dinheiro.

As transações dependem da existência destas percepções contrárias quanto a expectativa de evolução do ativo a partir de um mesmo preço. Os preços são formados por convenções dos agentes de mercado, enquanto registro da expectativa média da maioria aferida pelo volume financeiro destinado às probabilidades.

Subitamente, o consenso das expectativas interrompe o funcionamento do mercado. A crise financeira de 2008 é um caso exemplar de elevação radical da preferência pela liquidez, capaz de interromper o funcionamento do mercado e atirar os ativos em uma espiral descendente. A generalização das apostas na desvalorização dos ativos promove o empenho coletivo dos agentes na venda, carente da demanda de agentes com expectativas contrárias (compradores). A expectativa de queda é capaz de realizar o próprio efeito temido, pois o aumento na oferta e queda na demanda dos ativos provoca sua desvalorização.

Ante a generalização das opiniões de mercado na venda de ativos e demanda por liquidez, as autoridades monetárias não apenas tentaram induzir a reversão das expectativas baixistas em altistas por meio dos instrumentos convencionais, como redução nas taxas de juros, mas passaram a desempenhar o papel de posição contrária, ofertando liquidez e demandando ativos, para viabilizar o funcionamento do mercado.

Em janeiro de 2022 os balanços dos bancos centrais da Europa, EUA, China e Japão somam um estoque de US$ 31 trilhões em ativos. A demonstração da possibilidade de o governo produzir a demanda e recursos para preservar o valor dos ativos no mercado financeiro, fomentou o debate e propostas quanto a possibilidade de o governo proporcionar demanda por emprego aos desempregados, ofertar recursos para suprir o déficit de serviços público ou utilizar o orçamento para conduzir a transição para uma economia ambientalmente sustentável.

Enquanto Biden investe em seu pacote de estímulo fiscal, Jerome Powell, de forma hesitante, mas progressiva, tem sinalizado a retirada dos estímulos monetários com redução nas compras de ativos, elevação na taxa de juro e perspectiva de redução do balanço do Fed. Foi suficiente para provocar a desvalorização do real e elevar a curva de juros no Brasil.

Na economia brasileira, com 29 milhões de subutilizados, 12 milhões de desempregados e o menor rendimento da série histórica do IBGE, conter a demanda é o efeito colateral indesejado e não o objetivo da elevação na taxa de juros. A elevação da Selic parece estar mais dedicada a aumentar o prêmio dos detentores de posições em reais para conter os efeitos da desvalorização cambial na inflação.

Os efeitos do aumento nos juros são sentidos de forma imediata nos ativos que sofrem marcação a mercado, pela penalização nos valores presentes estimados pelo desconto das receitas esperadas à uma taxa mais elevada, mas também promovem a desvalorização de ativos menos líquidos, as condições de investimento para as empresas e de consumo para as pessoas, enfim, a redução da rentabilidade dos negócios pelo aumento do serviço da dívida.

O conhecido estrangulamento externo, condicionante dos ciclos da economia brasileira, é reeditado em patamar mais elevado. No Brasil só é possível realizar política monetária em atenção às condições de emprego e renda do país quando as relações de prêmio e risco entre as moedas americana e brasileira não promovem inflação.

Em 1929 ou 2008, superar a crise exigiu avançar em novos caminhos na busca de maior capacidade em determinar o destino econômico e reafirmar o cuidado mútuo que significa a vida em sociedade. É hora de mudar o receituário.

*Gabriel Galípolo é presidente do Banco Fator e mestre em economia (PUC-SP).

*Luiz Gonzaga Belluzzo é professor titular de Economia da Unicamp

Valor Econômico

Liberdade de expressão para quem?




Quando uma opinião coloca em risco outros direitos, é evidente que ela deve ser tolhida

Por Joel Pinheiro da Fonseca (foto)

A liberdade de expressão é um valor inegociável, mas é preciso impor limites. Quando a expressão de uma opinião, ou ainda de uma informação falsa, coloca em risco outros direitos, como o direito à vida, é evidente que ela deve ser tolhida. Ninguém pode gritar "fogo!" em um cinema lotado.

A pandemia sublinhou o dilema. Notícias falsas tiraram vidas. Isolamento social, máscara, até vacinas; tudo foi alvo de fake news. Vidas foram perdidas em nome de uma fictícia liberdade de mentir e enganar.

E se aceitamos essa lógica com a pandemia da Covid, é evidente que devemos aplicá-la também a outros perigos. Nem só de Covid morre a humanidade. Machismo, racismo, LGBTfobia, fanatismo religioso, desigualdade social e tantas outras injustiças também matam. Não vamos fazer nada?​

É uma visão ingênua —embora nada inocente— acreditar num debate público idealizado, em que o que importa são argumentos. Na realidade, opiniões refletem os conflitos de poder da sociedade, mal disfarçados por construtos teóricos.

Alguns buscam a igualdade e o bem comum; outros, manter seus interesses e privilégios. Quando um branco questiona consensos estabelecidos da pauta antirracista, isso não é liberdade de expressão, é racismo. Quando um autor (ou autora) cis questiona se mulheres trans devam ser tratadas como mulheres, isso não é liberdade de expressão, é discurso de ódio.

Esse tipo de questionamento "teórico" é uma ameaça concreta aos mais vulneráveis. Saber que ele existe no interior de algumas mentes retrógradas é odioso. Permitir que seja lido ou ouvido, criminoso. De nada adianta publicar ao lado um artiguinho contrário, que ninguém lerá, para criar um falso equilíbrio. Pessoas são mortas e violentadas nas ruas por causa desse tipo de discurso. Defender a tal liberdade irrestrita é defender que um jornal possa matar e violentar pessoas.

Os bons sentimentos dos magnatas do Vale do Silício e dos barões da velha mídia —que juram combater fake news e extremismo— só vão até a página dois. No momento em que têm que escolher entre verdade e lucro, é óbvio para que lado irão. Trump só foi banido das redes depois de perder a eleição. Joe Rogan segue veiculando seu podcast criminoso no Spotify. Da Folha, então, eu nem saberia por onde começar.

Enquanto reformas de longo prazo da educação não levarem o povo a abandonar seus gurus e charlatães e a seguir apenas intelectuais bem embasados, é preciso que nos resguardemos contra retrocessos. Quando empresas vacilam, o Direito Penal deve ser decisivo: separar o joio do trigo, dizer quem pode e não pode ter espaço nas plataformas e tomar medidas contra as que continuam a dar palco para discursos perigosos.

Poderíamos formar algo como um comitê de notáveis, apenas com referências indiscutíveis das ciências (exatas, biológicas e humanas), com a devida representatividade de todas as minorias sociais, para julgar previamente artigos, podcasts ou vídeos que possam ter conteúdo problemático. É isso ou a barbárie. Aliás, se nada for feito, e rápido, contra aplicativos como o Telegram, Bolsonaro pode até vencer as eleições. Estão vendo aonde leva essa "liberdade"?

Apenas o que defende o bem comum, que luta contra injustiças, que se pauta pelo rigor da ciência, que acompanha a marcha da História, deve ter espaço. Mentira e injustiça não têm espaço numa sociedade democrática. Fora isso, a liberdade de expressão deve ser irrestrita.

Folha de São Paulo

A Europa contra os radicalismos - Editorial


Itália: o presidente Sergio Mattarella


Tudo somado, as eleições em Portugal e na Itália fortaleceram o centro à custa dos extremos

Na última década, a ascensão de movimentos antiliberais despertou apreensão quanto ao futuro da democracia. O radicalismo das militâncias identitárias à esquerda, longe de ser mitigado, foi antagonizado por um populismo de direita caracterizado por uma retórica antielite, flerte com teorias conspiratórias, nativismo e ultraconservadorismo cultural. Na Europa, esse movimento ganhou tração após o colapso financeiro de 2008 e a crise imigratória, e hoje a extrema direita está estabelecida. 

Mas há sinais de que as democracias europeias estão se adaptando e, por assim dizer, “neutralizando” os extremismos. As eleições parlamentares em Portugal e para a presidência da República na Itália, no último fim de semana, deram alguns desses sinais. Mas suas ambivalências mostram que o risco está longe de estar afastado.

Na Itália, as eleições foram confusas como sempre e estabilizadoras como nunca. O colégio eleitoral, formado por parlamentares e delegados regionais, reelegeu o presidente Sergio Mattarella. A solução de compromisso aglutinou os principais partidos, exceto um, evitando o colapso do governo do primeiro-ministro Mario Draghi. Draghi assumiu há um ano com uma agenda reformista e ganhou mais um ano para consolidá-la. É uma chance para a Itália canalizar os recursos do fundo de recuperação europeu para gerar crescimento, empregos e inovação. Isso pode estimular o crescimento europeu, renitentemente freado pela estagnação da economia italiana.

Em Portugal, o incumbente Partido Socialista levou a maioria absoluta no Parlamento. As eleições foram precipitadas após seus aliados da esquerda radical, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, recusarem o Orçamento do primeiro-ministro António Costa. Costa classificou o resultado como “uma vitória da humildade e da confiança e pela estabilidade”.

Mas essa estabilidade está longe de estar consolidada. A extrema esquerda foi penalizada por sua intransigência, com perdas expressivas, mas o partido de extrema direita Chega saltou de 1 para 12 cadeiras, e hoje é a terceira força no Parlamento.

Na Itália, a direita se dividiu. A Liga Norte e o Força Itália se uniram ao governo, deixando o Irmãos da Itália, de extrema direita, na oposição. Mas as pesquisas mostram que ele é o partido de direita mais popular, e poderia ter vencido as eleições gerais, se tivessem sido convocadas. A composição de última hora impediu esse desfecho. Mas em cerca de um ano há a possibilidade de os italianos elegerem o primeiro governo de extrema direita desde o pós-guerra.

Com exceção de países menores, como a Hungria e a Polônia, a rápida e estridente ascensão da extrema direita na Europa não tem sido seguida por uma consolidação do eleitorado. Até o momento, as maiores democracias europeias foram preservadas do grande teste de um governo de extrema direita. Mas crises como a da pandemia podem mudar o sentimento popular. Por hora, ao, respectivamente, contornar uma crise e evitar outra, Portugal e Itália mostraram ser possível fortalecer o centro à custa dos extremos.

O Estado de São Paulo

Eleições 2022 - fazer história ou repeti-la




O Brasil merece que nessas eleições possamos tirar o foco das personalidades e mirar na discussão de projetos de País

Por Paulo Hartung* (foto)

Ainda numa trágica e nebulosa travessia pandêmica, eis que 2022 chega com sua agenda eleitoral decisiva para o País. No retrato por ora desenhado para a disputa, com seus desafios e oportunidades, os votos parecem se destinar basicamente a duas alternativas: fazer história ou repetir a história.

A oportunidade de fazer história significa ajudar a construir projeto que possibilite um “novo início” para a nossa nação, fundado na superação do abismo das desigualdades socioeconômicas e ancorado nas potencialidades das demandas por infraestrutura, da digitalidade, da ampliação das interfaces econômicas do Brasil com o mundo e do imperativo da economia verde, inaugurando a era de desenvolvimento sustentável e inclusivo.

A opção por fazer história dialoga com reformas estruturantes (como a tributária e a administrativa) e os investimentos prioritários em educação, saúde e segurança. Passa também por um projeto político que vise ao bem comum e ao interesse coletivo, em ambiente organizado e dinamizado pelos valores humanísticos e democráticos.

Essa escolha pressupõe escrever o roteiro de uma nova caminhada. Algo que simplesmente não combina com o perverso jogo de repetir o passado como uma solução (falsa!) para o presente e o futuro.

E o que implica o equívoco de repetir a história, mesmo diante do risco de tê-la como farsa ou contrafação? Representa, entre tantos gestos, insistir em estéreis formas de personalismo ou caudilhismo; reiterar práticas nefastas, como o patrimonialismo e o populismo, que vestem múltiplas cores; copiar decisões de efeitos perversos e até trágicos, com o despudor antirrepublicano que, ilusória e precariamente, sustenta mitos redentores, mas com pés de barro.

Como sabemos, o passado pode ser fonte inesgotável de inspirações para narrativas que viabilizem os mais diversos propósitos, inclusive indisfarçáveis manipulações, em todos os polos e vias políticos. Em vez de ser fonte de lições e aprendizados que ajudem a corrigir rumos e trajetórias, muitas vezes o tempo pretérito é colocado como alternativa de um impossível “copia e cola” que responda às angústias da hora com atalhos mágicos, sempre enganadores e ineficazes.

Ademais, pode-se afirmar que, no ano do bicentenário de nossa Independência, o Brasil acumula uma caminhada histórica que serve a tudo, menos para justificar repetições. Sob o peso da herança colonialista e das chagas do longo período escravagista, o País até hoje não logrou fazer de suas imensas riquezas uma realidade de prosperidade verdadeiramente compartilhada. É como se teimássemos em bailar, vergonhosamente, à beira de um precipício de injustiças sociais e econômicas cada vez mais profundo.

A questão que o nosso tempo coloca é entender de onde viemos, onde estamos e para onde queremos e precisamos seguir como nação. Da recente transição alemã, é possível extrair exemplos de conduta e agenda paradigmáticos de como a boa política tem o condão de articular convergências. Pactuando consensos num amplo espectro político, definiu-se um roteiro sólido para o futuro do País, aumentando a chance de prolongar a boa governança que Angela Merkel deixou como legado.

Do exterior também se pode perceber um alerta: o cenário econômico mundial não será favorável nos próximos tempos. Dessa sorte, se nos conformarmos com o embate superficial e simplista de distintos personalismos, não só desperdiçaremos a oportunidade de fazer história, mas também estaremos marchando em direção a um perigoso despenhadeiro.

“A maior virtude das eleições é que elas permitem, sob algumas condições, que possamos processar quaisquer conflitos que surjam em nossa sociedade de maneira livre e relativamente pacífica, evitando a violência”, considera Adam Przeworski, no instigante livro Por que as eleições importam?.

Sobre a vinculação das eleições com a democracia, ambas invenções históricas eivadas de limitações e distantes da perfeição, como qualquer obra humana, porém ainda sem substitutas à altura, o autor considera que “devemos empreender todos os esforços possíveis para permitir que as pessoas decidam livremente como e por quem elas desejam ser governadas e deixar que os governos atuem”.

As próximas eleições brasileiras dialogam profundamente com questões articuladas no pensamento de Adam Przeworski, especialmente quanto às conexões entre o voto e a democracia, a paz social, a liberdade e a possibilidade de mudar os rumos na história.

Recusar o que está incomodando é necessário, apesar de insuficiente. Assim como manter ou trazer de volta retratos para o mesmo lugar não deve ser a questão a dominar o debate num pleito crucial como o que se avizinha.

Qualquer que seja a latitude político-ideológica, o Brasil merece que nessas eleições possamos tirar o foco das personalidades e mirar na discussão de projetos de País. Programas que, em vez de repetir a história, escrevam a história de um novo tempo entre nós. Uma era na qual finalmente deixemos de ser o “País do futuro” para nos tornarmos, democraticamente, um país de oportunidades para todos, sobretudo para a nossa juventude. 

*ECONOMISTA, PRESIDENTE EXECUTIVO DA IBÁ, MEMBRO DO CONSELHO DO TODOS PELA EDUCAÇÃO, FOI GOVERNADOR DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO (2003-2010/2015-2018)

O Estado de São Paulo

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