Na Flórida desde que praticamente fugiu do país, o ex-presidente se vê diante de um impasse: voltar a Brasília e provavelmente ser preso ou permanecer nos Estados Unidos e correr o risco de cair no anonimato.
Por Gabriel de Arruda Castro
O condomínio Seven Bridges, em Boca Raton, na Flórida, tem muitas virtudes. A conveniência para os pedestres não é uma delas. Em um site de anúncio de imóveis que descreve as características da região, o condomínio recebeu nota 0 (de 0 a 100) nessa categoria.
A reportagem de Oeste esteve lá.
Num raio de 20 minutos de caminhada, o máximo que o morador do Seven Bridges vai encontrar, se tiver sorte, é um food truck de comida mexicana (legítima), frequentado por trabalhadores braçais que cuidam dos muitos jardins da região.
Não que os moradores do Seven Bridges pareçam se importar. A maioria deles busca justamente o isolamento.
Encravada em uma região onde os condomínios parecem competir pelo troféu de portaria mais luxuosa (quanto maior a fonte de água ou chafariz, mais sofisticado o empreendimento), o Seven Bridges parece ter sido feito sob medida para quem procura uma vida tranquila — a apenas 25 minutos da praia.
Há alguns dias, um corretor de imóveis visitou uma casa do condomínio acompanhado por emissários de Jair Bolsonaro. Eles buscavam um imóvel para o ex-presidente, que em breve deixaria a casa do lutador de MMA José Aldo, em outro condomínio, 300 quilômetros ao norte, em Orlando. Acabaram não fechando negócio.
Mas Bolsonaro parece disposto a se instalar na região de Boca Raton — por um período que pode durar semanas, meses ou anos.
Entrada do Condomínio Seven Bridges
Aglomeração em Orlando
Em 30 de dezembro, às vésperas do fim do seu mandato, Bolsonaro embarcou para a Flórida. Foi direto para a casa de José Aldo, onde morou durante um mês.
À reportagem de Oeste, um dos seguranças do condomínio disse ter ficado aliviado com a saída de Bolsonaro, na virada de janeiro para fevereiro. Não que o ex-presidente tenha causado problemas: os funcionários dizem que ele parecia ser um sujeito simpático. Mas a romaria constante de apoiadores e jornalistas acabou tirando a paz dos vizinhos mais próximos e criando um problema para a administração do local. Os seguranças do condomínio dizem que a presença de Bolsonaro estava causando aglomerações excessivas e que os brasileiros que iam até lá em busca de uma foto com o presidente nem sempre cumpriam as regras — como parar o carro no lugar certo e não bloquear a rua. Apesar de ser rodeado por muros, o condomínio Encore Resort (que oficialmente fica na cidade de Reunion, a 20 minutos da Disney World) permite o acesso de pessoas de fora de forma relativamente fácil.
Nesse condomínio, o perfil demográfico é diferente do restante da região, onde o espanhol é quase tão falado quanto o inglês. No Encore Resort, existe, sim, quem se encaixe no estereótipo da Flórida. Também há os turistas, que alugam casas por temporada para desfrutar do parque aquático do local. Mas também existem dezenas de famílias de judeus ortodoxos.
No dia em que a reportagem de Oeste visitou o local, muitos deles confraternizavam sobre a calçada. No sábado, os judeus ortodoxos não fazem nenhum tipo de trabalho, e o veto inclui dirigir carros. Como não há para onde ir a pé (assim como no condomínio de Boca Raton), a programação se resume a passeios pelo condomínio e visitas a amigos que moram na vizinhança.
No mesmo sábado, o vizinho ao lado da casa onde Bolsonaro morou fazia uma festa e aproveitava o clima ensolarado com a família à beira da piscina. Apesar de oficialmente ser inverno no Hemisfério Norte, o clima da Flórida permanece agradável. O imóvel que fora ocupado pelo ex-presidente estava completamente fechado. É uma casa de dois andares confortável, mas incomparavelmente mais simples do que o espaçoso Palácio da Alvorada. Como resquício da passagem de Bolsonaro por ali, restaram apenas um alambrado e uma espécie de tela verde que dá privacidade a quem ocupa o quintal da casa. Ambos foram instalados depois da chegada do ex-presidente.
Condomínio Encore Resort, na cidade de Reunion, Flórida
Enquanto esteve hospedado, Bolsonaro saiu poucas vezes: encontrou brasileiros num evento em Orlando, foi visto fazendo compras num mercado e comeu um sanduíche de frango na rede de fast-food KFC.
Tranquilidade em Boca Raton
Cerca de 130 mil brasileiros moram na Flórida, segundo os dados do Censo norte-americano. O número real provavelmente é bem maior. Atraídos pelo clima agradável e pela similaridade cultural (o Estado é o mais latino-americano dos EUA), cada vez mais brasileiros têm optado por se mudar para lá.
Corretora de imóveis na região há nove anos, a brasileira Gabriela Melo tem visto a demanda aumentar. “A procura de brasileiros por imóveis na Flórida sempre foi muito alta, mas tenho percebido um aumento nos últimos tempos. Muitas pessoas buscando diversificar os investimentos, e principalmente dolarizar parte do patrimônio, investindo numa moeda forte. A questão da qualidade de vida e a da segurança também são fatores fundamentais”, explica.
Gabriela diz que Boca Raton tem um perfil diferente do de Orlando e Miami. “Em Boca Raton, temos uma procura maior por famílias. Por ser uma região com excelentes escolas públicas, uma diversidade enorme de parques ao ar livre, lindas praias e ser um local mais tranquilo, geralmente são famílias com filhos ainda na escola que buscam essa região”, ela explica.
Em condomínios como o Seven Bridges, ao contrário do que acontecia em Orlando, os apoiadores de Bolsonaro não poderiam aglomerar-se na porta do presidente. Apenas pessoas previamente autorizadas podem entrar no condomínio.
Palestra na cidade
Outro sinal de que Bolsonaro pode fincar raízes em Boca Raton é a participação dele em evento marcado para este sábado (11) na cidade. O presidente vai se encontrar com brasileiros numa igreja (a Church of All Nations). A congregação é liderada por norte-americanos, mas também oferece atividades em português. Os ingressos custam US$ 10. Cerca de 600 foram colocados à venda. A maioria havia sido vendida até a quarta-feira 8.
Bolsonaro já havia participado de um evento parecido em Miami. Tanto um quanto outro foram promovidos por uma organização chamada Yes Brazil USA, criada em 2018, em apoio à candidatura dele. Bolsonaro é popular entre os brasileiros da Flórida. Em ambas as eleições presidenciais que disputou, ele teve cerca de 80% dos votos no Estado.
Com suas duas aposentadorias (a da Câmara dos Deputados e a do Exército), o ex-presidente passou a receber, brutos, cerca de R$ 42 mil. É muito dinheiro no Brasil, mas insuficiente para manter uma vida confortável na rica Boca Raton. O dinheiro mal banca o aluguel de uma casa em Seven Bridges. Os recursos obtidos com palestras poderiam ajudar Bolsonaro a se manter nos Estados Unidos. Mas, sem visto de trabalho, ele não pode exercer nenhuma atividade remunerada nos Estados Unidos. Nos últimos dias, ele deu entrada no pedido de um visto B1, que permitiria a sua permanência no país por mais seis meses (ainda assim, sem poder trabalhar).
O advogado de imigração Felipe Alexandre, que está cuidando do caso de Bolsonaro, estima que o procedimento leve de dois a quatro meses. Ele explicou a Oeste que, por ser ex-chefe de Estado, seu cliente também precisa fazer um procedimento adicional. “O trâmite é especial, porque, do pedido ao USCIS (entidade que cuida da imigração), o processo do ex-presidente precisa também de ser enviado ao Departamento de Estado, o que não acontece com portadores de outros vistos”, afirma.
Alexandre diz não poder revelar o paradeiro exato de Bolsonaro, e afirma que não há obrigatoriedade de endereço fixo durante o processo de solicitação do visto. “Um endereço fixo ajuda para receber documentos”, diz. “Não é necessário, mas a Imigração pede que seja notificada sempre que a pessoa muda de endereço.”
Casa onde Bolsonaro estava hospedado, na cidade de Reunion
O então presidente entrou no território norte-americano ainda na condição de mandatário brasileiro e pode permanecer legalmente no país de forma provisória enquanto aguarda o deferimento do novo visto. Mas, enquanto espera a documentação, ele não pode deixar os Estados Unidos. Caso isso ocorra, o processo é cancelado.
Em entrevista ao ativista norte-americano Charlie Kirk, na semana passada, o ex-presidente disse que vai voltar ao Brasil em “algumas semanas”. Mas a verdade é que a data de retorno ao Brasil está indefinida. O senador Flávio Bolsonaro resumiu a situação: “Pode ser amanhã, pode ser daqui uns seis meses, pode não voltar nunca”, disse.
Dilema à frente
O dilema entre um condomínio super-restrito (e isolado) e o contato com o eleitorado brasileiro não é o único diante de Bolsonaro. Na verdade, ele tem um impasse mais importante para resolver.
Se voltar para o Brasil e se tornar uma espécie de presidente de honra do seu partido, o PL, Bolsonaro pode enfrentar medidas judiciais pelas mãos do imprevisível Alexandre de Moraes, que já prendeu um deputado e removeu um governador do cargo.
Atualmente, Bolsonaro é investigado por sua possível incitação à invasão dos prédios públicos em Brasília, no dia 8 de janeiro. O mesmo inquérito já levou à prisão dezenas de manifestantes e até mesmo o então comandante da Polícia Militar do Distrito Federal e o então secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, acusados de omissão.
A volta ao Brasil traria riscos evidentes ao ex-presidente. Ao mesmo tempo, se ficar nos EUA, ele terá dificuldades em se manter influente na política partidária — tarefa que exige presença em reuniões, jantares, cerimônias e conversas ao pé do ouvido em Brasília.
Tudo isso somado ao isolamento num país cuja língua ele não fala fluentemente. Entre o conforto da Flórida e os holofotes de Brasília, Bolsonaro tem diante de si a primeira decisão de peso a ser tomada depois de ter deixado a Presidência.
Revista Oeste
