segunda-feira, fevereiro 20, 2023

O carnaval da política tem o maior bloco do mundo, no conluio do Congresso brasileiro

Publicado em 20 de fevereiro de 2023 por Tribuna da Internet

Política é inspiração para fantasias de carnaval; FOTOS | Carnaval 2018 | G1

A fantasia tem fundamento, porque a política é enganação

Marcus André Melo
Folha

O maior bloco de Carnaval do mundo é o Galo da Madrugada. Mas temos provavelmente também agora o maior bloco parlamentar já registrado. Ele reúne 20 dos 23 partidos com representação na Câmara dos Deputados (87% do total): são 496 parlamentares ou 97% dos membros da casa.

O bloco reúne, entre outros partidos, o PT e o PL. Também integram o bloco: PCdoB e PV (que compõem a federação com o PT), União Brasil, PP, MDB, PSD, Republicanos, PSDB, Cidadania, Podemos, PSC, PDT, PSB, Avante, Solidariedade, Pros, Patriota e PTB. Apenas o Novo (3 deputados) e a federação formada por Psol e Rede (14 deputados) não participam do bloco.

QUADRO BIZARRO – A aberrante situação da Câmara não se repete no Senado, mas o quadro é igualmente bizarro: o maior bloco reúne 31 senadores de três partidos governistas, dois formalmente independentes e um de oposição.

Participam partidos do governo e da oposição. A clivagem ideológica ou governo-oposição é virtualmente inexistente. Os partidos do núcleo duro do bolsonarismo estão divididos em dois blocos: o PL forma um bloco à parte, e os Republicanos e Progressistas outro.

E la nave va. Em um contexto em que a polarização recrudesceu, atingindo níveis inéditos, e o novo presidente mantém-se em campanha permanente.

TAMBÉM NO PASSADO – Inexiste congruência em qualquer dimensão relevante entre o chefe do Executivo — seu gabinete não reflete a composição partidária da base parlamentar — e os blocos parlamentares. Não se trata de situação nova.

Nos governos Lula e Dilma inexistia congruência partidária sob qualquer métrica relevante (basta lembrar que Marcelo Crivella e George Hilton foram ministros). A incongruência apenas mudou de magnitude.

No passado ele foi uma das causas da malaise política que levou às manifestações de 2013, e a recusa iliberal da “velha política”. É fonte permanente de cinismo cívico e críticas antissistema.

OUTROS EXEMPLOS – Há registros nas democracias em que as principais forças políticas governam juntas (ex. Alemanha, Áustria, Holanda, Colômbia, entre outros). A Alemanha teve quatro grandes coalizões de governo (as Groko) entre 1966 e 2017, nas quais os arquirrivais, SPD e o CDU/CSU, chegaram a controlar 90% das cadeiras do Parlamento, como em 1966-1969. Mas as similaridades acabam aí.

A razão para a formação da groko foi programática: em 1966 os liberais do FDP, abandonaram o governo por oporem-se à reforma tributária proposta. Tais coalizões de governo são contratualizadas como mostrei aqui. Na década de 1960 e 1970, a Groko gerou enorme reação na sociedade civil e foi um dos alvos do grupo terrorista Baader-Meinhof que a chamou de “conluio da burguesia”. No Brasil, o alvo seria o “conluio da classe política”.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Artigo interessante do analista Marcus André Melo, Professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA). O bloco do Arthur Lira o reelegeu com 464 votos, recorde absoluto, com poucas defecções. 
Com a formalização da federação entre PP e União Brasil, o grupo de Arthur Lira (PP-AL) quer ocupar posições estratégicas no governo e até voltar a reivindicar pastas como Saúde ou Educação. O Centrão espera que votações de medidas provisórias, como a do Carf, indiquem que Lula precisará do União Brasil para governar. Na visão do analista Marcus André Melo, PT e PL podem votar juntos no Congresso, dependendo do conluio e dos acertos com o Centrão, vejam a que ponto de esculhambação chegamos. (C.N.)

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