
Ataques escalaram a ponto de Lula falar em rever a autonomia do BC
Pedro do Coutto
O presidente Lula da Silva retornou na terça-feira à ofensiva contra a permanência de Roberto Campos Neto no Banco Central ao afirmar em evento no Palácio do Planalto que o Senado pode demiti-lo, hipótese que o presidente da República não considera pela lei em vigor. A afirmação do presidente Lula foi divulgada em vídeo na tarde da própria terça-feira pela TV Globo e pela GloboNews que repetiram a matéria na manhã de ontem.
O Globo, a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo referiram-se ao fato. No O Globo, a reportagem foi de Alice Cravo, Fernanda Trisotto, Manoel Ventura e Letícia Cardoso. Na Folha de S. Paulo a matéria é de Natália Garcia e Mariana Holanda. No Estado de S. Paulo, escreveram Eduardo Gayer e Giordana Neves.
CONFLITO – Criou-se um conflito político insuperável, pois não é possível que o presidente do BC possa se opor dessa maneira ao presidente da República. Na minha opinião, se Campos Neto permanecer no cargo, Lula terá forte desgaste político e, sem entrar no mérito da questão, perderá uma parcela da autoridade que possui. Se o presidente do BC possui mandato, o presidente da República também tem o desempenho assegurado.
É claro que o mercado, com a sua evidente mão de tigre, deseja os juros na altura de 13,75% ao ano. Afinal de contas, qualquer pessoa se indagada se deseja aplicar em papéis com remuneração anual de 7% ou de 13%, é claro que optará pela segunda. Porém, esses juros de 13,75% travam investimentos na economia nacional. Lula afirmou isso e a meu ver tem razão.
ELETROBRAS – O presidente Lula da Silva afirmou na mesma ocasião do evento que a privatização da Eletrobras foi uma bandidagem e que a Advocacia-Geral da União está estudando um recurso na Justiça. Lula destacou que o governo, com a privatização escandalosa, ficou com 40% das ações da Eletrobras. Mas para efeito de participação na Direção da holding é como se tivesse apenas 10%. Isso é um absurdo.
De outro lado, se o governo desejar recomprar ações da Eletrobras terá que pagar três vezes mais o preço que seria pago por investidores comuns. Portanto, há uma discriminação sem pé nem cabeça. Se for privatizada a empresa, que a Eletrobras sempre foi, o preço da ação do mercado tem que ser o mesmo, seja para o governo, pessoa física ou jurídica. Lula tem razão em questionar o fato.
SALÁRIOS – O presidente acrescentou que ainda na privatização, a Direção da Eletrobras aumentou o salário dos diretores de R$ 60 mil por mês para R$ 360 mil. E a remuneração dos conselheiros que se reúnem no máximo uma vez por mês foi fixada em R$ 200 mil. O atual presidente da Eletrobras é Wilson Ferreira Júnior, que já presidiu a holding antes da privatização.
Em matéria de privatização, o que aconteceu na Eletrobras foi uma farsa. Tanto a Eletrobras, quanto a Petrobras e o Banco do Brasil são empresas já privatizadas, pois qualquer pessoa pode adquirir uma ação preferencial ou ordinária. O mercado está aberto para a compra e venda de papéis, sendo que a Petrobras e a Eletrobras também participam da Bolsa de Nova York.