As condições econômicas ruins alimentam a instabilidade político-partidária
Governos de esquerda já foram tão mal-sucedidos como os de direita na América Latina e o pêndulo atual se inclina para os primeiros, o que não significa que a nova onda traga um impulso reformista renovador importante. México, Argentina, Colômbia, Peru, Chile, Bolívia e Venezuela estão sob comando de líderes esquerdistas, aos quais pode se somar o Brasil, se Luiz Inácio Lula da Silva se mantiver muito à frente nas pesquisas, como agora.
Mas os atuais líderes são bastante distintos entre si, embora tenham de reagir às mesmas condições econômicas, que hoje são muito adversas em toda a região. Afligidos por inflação alta, baixo crescimento - exceto Colômbia - e alto desemprego, a paciência dos eleitores tem se mostrado no limite. Um exemplo deste estado de espírito se vê no Chile, onde foi eleito o presidente mais jovem da história do país, Gabriel Boric, 36 anos, com 55,9% dos votos. Pouco mais de um mês após a posse, sua popularidade despencou para 36%. Em junho, ela subiu para 44%, ainda abaixo dos 47% que o rejeitam. É o pior resultado para o período em relação aos antecessores Sebastián Piñera e Michelle Bachelet.
A ideologia não tem ajudado o presidente peruano Pedro Castillo, 51 anos, que em menos de um ano de governo foi alvo de duas tentativas de impeachment (na última, 55 deputados votaram contra e 54 a favor) e trocou seu gabinete ministerial quatro vezes. O Peru teve antes dele 4 presidentes em 4 anos.
Gustavo Petro, de 62 anos, é o novo membro dessa constelação. Ex-guerrilheiro do M19 e ex-prefeito de Bogotá, venceu um candidato exótico direitista, Rodolfo Hernández, por 11,28 milhões a 10,58 milhões de votos. Petro é o primeiro presidente de esquerda no país, após derrotar os partidos do establishment que se revezavam desde sempre no poder. A Colômbia é o país que mais crescerá entre as maiores economias da América Latina no ano, 5,8% segundo as projeções do FMI.
Um ponto em comum a todos, com exceção do chileno Boric, é a apologia do intervencionismo estatal, que produziu a ruína venezuelana e a estagnação argentina. O colombiano Petro, por exemplo, divulgou em plataforma eleitoral que em sua gestão o “Estado atuará como empregador de última instância, oferecendo emprego aos que queiram e possam trabalhar, mas não o encontram no setor privado” - uma promessa delirante. As intervenções nos preços dos peronistas na Argentina são conhecidas, seus efeitos devastadores também. Já Boric critica o modelo venezuelano e defende a responsabilidade fiscal. “A esquerda precisa abraçá-la, pois é garantia de que a vida do nosso povo vai melhorar”, disse.
Os eixos de governo anunciados por Boric - direitos sociais, melhor democracia, justiça e segurança, meio ambiente e crescimento inclusivo - figuram nos planos de todos os governos de esquerda da região. Há virtudes e grandes desafios. Redistribuição de renda e abrangentes programas sociais se chocam hoje com situações econômicas bastante adversas. Isso limita as intenções distributivistas, frustra promessas eleitorais e desilude eleitores, que votarão em candidatos de outros espectros políticos nos próximos pleitos, como tem ocorrido na Argentina, ou escolherão candidatos fora dos partidos tradicionais, como no Brasil, com Jair Bolsonaro, e na própria Colômbia, com Hernández.
As condições econômicas ruins alimentam a instabilidade político-partidária. Mesmo vitoriosos, Petro, Boric e Castillo, que criaram movimentos próprios, não têm maioria nos parlamentos, e o argentino Alberto Fernández a perdeu na eleição de meio de mandato. Boa parte das promessas eleitorais ficarão pela metade do caminho ou não serão executadas.
A maior promessa de renovação da nova safra de esquerda, Gabriel Boric, terá de governar a baixa velocidade até 4 de setembro, quando ocorrerá o plebiscito sobre a nova Constituição, elaborado pela Assembleia Constituinte, que dividiu o eleitorado ao meio. Boric poderá ter de acatar e agir sob premissas que não defende.
A renovação se combina com a ortodoxia ideológica em doses variadas nesses governos. Petro tem plataforma ecológica abrangente, embora possa inviabilizar sua gestão com sua ideia de não conceder mais licenças para exploração de petróleo. Boric lançou o plano “Menos Armas, Mais Segurança”, com proibição do porte de armas e reforma da polícia. Dos partidos mais “velhos”, porém, como o peronista argentino e o PT brasileiro, a expectativa é mais do mesmo, ou menos.
Valor Econômico
