sábado, junho 18, 2022

Em busca do populismo perdido




O governo Bolsonaro não foi populista na economia pela maior parte do tempo por questões que não dependem dele, como a pandemia, e – faça-se justiça – por algum freio de Guedes, que vem, no entanto, fazendo concessões cada vez maiores. Agora, o presidente quer recuperar o tempo perdido no final do jogo. 

Por Fernando Dantas (foto)

A lógica do populismo econômico é maximizar o bem-estar no presente, mesmo à custa de tornar pior o futuro.

É óbvio que essa conta não fecha. Como se manter no poder se o futuro um dia vai virar presente, tornando necessário arcar com o custo da irresponsabilidade passada?

O populista, claro, não tem resposta satisfatória para esse problema. Na prática, o que se vê são duas situações típicas.

Na primeira, o populista promove uma bonança insustentável, se mantém no poder enquanto ela dura, e perde eleitoralmente quanto a conta chega.

Se o sucessor for não populista, a tendência é que tente arrumar a casa, mas frequentemente apenas para ser trocado de novo por um populista, quando a população cansar da disciplina – que naturalmente não tem como ser justamente distribuída em países muito desiguais, o que o populista incorpora em seu discurso político.

É raro o caso, em países subdesenvolvidos, desiguais e instáveis, em que um não populista consiga colher o fruto que plantou em termos de políticas responsáveis – isto é, é raro que os benefícios postergados dessas ações se transformem em trunfo eleitoral para o não populista.

Antes disso, provavelmente, um populista voltará ao poder atacando a injustiça do aperto de cinto, e em seguida aproveitará qualquer melhora institucional que o não populista tenha implantado para turbinar uma nova bonança até que esta se torne insustentável. E o ciclo segue.

A segunda situação, pior, é aquela em que o populista se mantém no poder mesmo depois que a conta chega, minando as instituições democráticas até implantar na prática uma ditadura, como na Venezuela.

O controle total ou parcial das informações, a repressão da oposição política, a manipulação institucional e a capacidade de distribuir favores para grupos específicos (muito ligada ao país dispor de muitos recursos naturais, como o petróleo na Venezuela e Rússia) substituem a bonança econômica como meio de o populista se manter no poder.

Jair Bolsonaro é sem dúvida um populista – de direita, no caso –, mas que não conseguiu produzir nenhuma bonança econômica. Hoje, no mundo, ele não está sozinho nessa situação. A pandemia deixou um rastro econômico muito difícil em quase todos os países.

No mundo rico, em especial nos Estados Unidos, a atividade econômica e o mercado de trabalho voltaram com tudo, mas junto com inflação inusitadamente alta, o que é péssimo em termos de popularidade governamental.

No Brasil, a inflação disparou sem que nada exuberante tenha ocorrido na atividade e com o mercado de trabalho ainda numa situação muito ruim. O estrago em termos de popularidade presidencial é ainda pior.

O Brasil não é uma exceção no mundo em desenvolvimento. Outros países se encontram em situações parecidas, embora a alta de inflação brasileira seja particularmente aguda, tirante aberrações como Argentina e Turquia.

Não houve nos últimos anos, portanto, meios de fabricar um bonança econômica artificial, nem que governantes com inclinações populistas assim o desejassem.

Mas é preciso reconhecer que Bolsonaro, ao tomar como ministro da Economia Paulo Guedes, autointitulado liberal e ortodoxo, também criou limites para si mesmo em termos de promover populismo econômico.

Longe de esta coluna avaliar positivamente a gestão econômica do atual governo. Basta recuar no tempo para verificar que as críticas a Guedes foram muito mais frequentes que os elogios.

Mas é justo apontar que medidas como reforma da Previdência, manutenção – mesmo com graves adulterações mais para o final do mandato – do teto de gastos, autonomia do Banco Central e moderação do crédito dos bancos públicos não constituem, de forma alguma, uma agenda populista – bem pelo contrário.

Houve ainda o marco do saneamento, a recente privatização da Eletrobrás e diversos avanços microeconômicos na área de crédito e financeira em geral (como o pix, de sucesso espetacular).

Mas o sinal mais claro de “não populismo” econômico de Bolsonaro é o fato de que se caminha – salvo alguma mirabolante mágica para fazer gastos eleitoreiros – em 2022 para uma redução dos gastos federais como proporção do PIB de cerca de 1,5 ponto porcentual (pp) em comparação aos quase 20% de 2018. Que haja queda nesse quesito durante um mandato presidencial é inédito desde a redemocratização.

Talvez seja exatamente essa percepção de Bolsonaro de que, apesar de todo seu instinto populista, ele caminha para provavelmente perder a eleição que o está deixando tão alvoroçado em relação à questão dos combustíveis.

Para o populista, nada é pior do que terminar a guerra derrotado e ainda com uma parte substancial da frota intacta. É preciso partir para o tudo ou nada e perder até o último navio na tentativa de se reeleger.

Mesmo assim, talvez porque o presidente ainda tenha esperança de sair vitorioso em outubro, o PLP dos combustíveis tal como proposto pelo Executivo joga a perda permanente – líquida do aumento estrutural de arrecadação – de receita de cerca de 0,6 pp do PIB nas costas dos Estados.

São movimentos desesperados e provavelmente inúteis de um presidente de alma populista diante da iminência da derrota (obviamente, segundo a fotografia deste momento – a disputa eleitoral “só acaba quando termina”).

O Estado de São Paulo

Em destaque

Senado impõe sigilo sobre entradas de nomes ligados ao escândalo do Banco Master

Publicado em 10 de maio de 2026 por Tribuna da Internet Facebook Twitter WhatsApp Email Ouvidoria do Senado é comandada por Ciro Nogueira Ra...

Mais visitadas