sábado, junho 18, 2022

As eleições da desilusão




Bolsonaro está liquidando o antipetismo

Por César Felício (foto)

A se confirmar o resultado que se prenuncia para a eleição presidencial, de acordo com as pesquisas de intenção de voto, ela merecerá ser estudada por representar uma quebra de tendência. Um livro recente mostra o tamanho do paradoxo da eleição deste ano e uma pesquisa internacional dá uma pista de uma possível explicação.

A direita no Brasil estava em fase de esplendor até o começo deste ano, conforme os artigos de Antonio Lavareda, em parceria com Vinicius Silva Alves; e de Helcimara Telles, junto com Carlos Freitas, publicados no livro “Eleições municipais e pandemia”.

Nas eleições de 2018, a direita teve 58,7% dos votos por uma vaga na Câmara dos Deputados. Na disputa pelas prefeituras em 2020, 54,3%, de acordo com o levantamento do artigo assinado por Lavareda. Não se trata de raio em céu azul: a onda da direita se elevou abruptamente na eleição para deputado em 2014 e na disputa municipal de 2016, o que permite enxergar um encadeamento nas disputas.

Em 2012, 29,6% da população era governada por prefeitos filiados a partidos direitistas. Em 2020, esta porcentagem subiu para 53,3%, de acordo com artigo de Helcimara e Freitas.

A decorrência lógica seria uma situação tranquila para a reeleição do presidente Jair Bolsonaro, desde que ele abandonasse a roupagem outsider e entrasse para um partido grande, alicerçado em máquina partidária. Foi o que fez pela metade. Sem nunca deixar de colocar o golpismo em seu horizonte. Bolsonaro foi para um partido grande e tem uma rede competitiva de candidatos a governador.

Nada indicava um cavalo de pau do eleitorado para a esquerda. Aí veio a vida real e veio Lula. Na vida real o país foi submetido à interminável pandemia, à gestão desta crise por Bolsonaro e ao impacto da catástrofe na economia.

Lula tinha algo como 40% nas pesquisas de intenção de voto quando foi retirado da disputa presidencial, em 2018, e oscila entre 40% e 48% na maioria das pesquisas de agora. Ele se posicionou à frente de Bolsonaro nas pesquisas praticamente desde o momento em que voltou ao cenário, em março do ano passado.

Hoje o ex-presidente está no mesmo patamar que o atual tinha ao fim do primeiro turno nas eleições de 2018, e Bolsonaro quase do mesmo tamanho que o do petista Fernando Haddad em 2018 (29%). Para onde foi o antipetismo que vitaminou a onda de direita?

A investigação das razões de tal fenômeno obviamente ainda não fechou. E nem o quadro atual mostrado pelas pesquisas é definitivo. Mas o levantamento do Instituto Reuters, intitulado “Digital News Report 2022”, divulgado quarta-feira, indica um dado de certo modo surpreendente: o brasileiro, que consome cada vez mais notícias pelo modo digital, em que Bolsonaro impera, está cada vez mais refratário a receber notícias. Fonte de notícia no caso brasileiro é Facebook, You Tube, Whats App e até Tik Tok para nada menos que 64% dos brasileiros, de acordo com o levantamento. É onde Bolsonaro e o bolsonarismo imperam, como personagem e como tema.

Segundo a pesquisa, a proporção de pessoas que evitam deliberadamente consumir notícias pulou de 27% em 2017, ano do início da escalada bolsonarista, para 54% agora, a maior variação registrada no conjunto de 46 países pesquisados. Estão saturadas.

Consideram as informações que recebem ou deprimentes, porque a realidade brasileira por óbvio deprime, ou falsas, já que essa percepção aumentou à medida em que a mídia tradicional foi perdendo o protagonismo.

A exaustão do eleitor, em grande medida, é o esgotamento do internauta. Talvez haja um efeito colateral das “fake news”. Talvez cansaço da pandemia, de Bolsonaro, de Bolsonaro lidando com a pandemia, da incúria na administração, dos pseudoproblemas levantados pelo presidente, todos os dias, enquanto não se enxerga saída para a enrascada em que se vive no mundo real.

Isto pode indicar, e aqui se entra no terreno da hipótese, que a decepção em relação ao presente leva eleitores a buscar o refúgio em um passado idealizado, em relação ao qual toda desconstrução que se fez e que se faz é relativizada. Lula teve 46,4% dos votos em 2002 e 48,6% em 2006. Dilma conseguiu 46,9% em 2010 e 41,6% em 2014. Haddad devolveu o PT ao patamar das eleições presidenciais dos anos 90, ao ficar com 29,3%. A quebra da tendência se deu pela desilusão. A desilusão talvez esteja movendo a engrenagem novamente.

Comparação absurda

Reclamou o presidente Jair Bolsonaro do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não ter sido tão cobrado pela mídia e pela sociedade pela execução da freira norte-americana Dorothy Stang em 12 de fevereiro de 2005 quanto ele está sendo agora pelo assassinato do jornalista inglês Dom Philips e do indigenista Bruno Pereira. É verdade, ele não foi. Mas é importante ressaltar que o comportamento da autoridade máxima do País foi diferente.

Ao se tornar pública a execução da freira com seis tiros na cabeça, Lula, segundo registrou o jornal “O Globo”, “determinou empenho máximo” e convocou uma reunião governamental de emergência, da qual saiu uma força-tarefa para esclarecer o crime.

Também foi diferente o comportamento do presidente José Sarney por ocasião do assassinato do sindicalista Chico Mendes em 22 de dezembro de 1988. Por meio do general chefe do SNI, Sarney se disse “consternado” e enviou imediatamente para o Acre o chefe da Polícia Federal, Romeu Tuma, e o secretário-geral do Ministério da Justiça.

No caso de Bolsonaro, ao se tornar público o desaparecimento de Phillips e Pereira, o comportamento foi outro. O presidente disse que ambos partiram para “uma aventura” ao transitarem pelo Vale do Javari, destacou que eles não tinham aval da Funai para entrarem em uma terra indígena e por fim disse nesta quarta-feira, quando já era iminente a constatação do duplo homicídio, que Phillips era mal visto na Amazônia por suas matérias contra garimpeiros.

No afã de eximir-se de responsabilidade, faltou pouco para Bolsonaro insinuar um duplo suicídio. Apenas ontem o presidente demonstrou empatia, ao postar em rede social uma mensagem protocolar de pêsames e conforto às famílias de Phillips e Pereira. Escandalosa também pode ser a forma como se lida com o problema, além do próprio problema.

Valor Econômico

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