Publicado em 16 de junho de 2022 por Tribuna da Internet

Editorial significou uma mudança de posicionamento do jornal
Pedro do Coutto
Causou surpresa, acredito que para todos os leitores, o editorial da edição desta quarta-feira de O Globo, atacando posicionamentos do Supremo Tribunal Federal e, no caso das urnas eletrônicas, atribuindo ao ministro Edson Fachin, presidente do TSE, ter alimentado desavença que ele próprio criou com militares. O editorial cita também frase do ministro Gilmar Mendes dizendo que o Supremo não é partido de oposição ao governo.
O editorial significou uma mudança de posicionamento do jornal ao dizer, inclusive, que o STF vem promovendo uma politização quando a Corte deveria manter-se equidistante e alheia às paixões. Parece a cada dia (a Corte) mais contaminada pelo noticiário como se devesse prestar contas à opinião pública e não à lei e à Constituição.
PRAZO – O artigo focaliza também a atitude do ministro Luís Roberto Barroso que deu prazo ao governo quanto às buscas do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips, desaparecidos na Amazônia. Aí, o editorial passa para o caso das urnas eletrônicas, afirmando que “o ministro Edson Fachin se esforça para desvencilhar-se da desavença insólita que ele próprio alimentou com os militares em torno das urnas eletrônicas”.
Quando presidente do TSE, o ministro Barroso solicitou ao ministro da Defesa a colaboração das Forças Armadas para integrar o sistema de fiscalização da votação e computação dos votos através das urnas que modernizaram as eleições brasileiras a partir de 1996. Mas o editorial diz que Fachin, ao substituir Barroso, alimentou uma desavença insólita com os militares em torno das urnas eletrônicas.
O editorial, por coincidência, colide com os artigos ontem publicados na mesma edição pela colunista Vera Magalhães e pelo colunista Elio Gaspari. Mais diretamente por Vera Magalhães, cujo título do artigo foi “Temporada de caça ao Judiciário”, que na síntese acentua que “o ataque à Justiça é a antessala da agitação que Bolsonaro prepara para logo após o primeiro turno das eleições.
GOLPE – A discordância entre o editorial e o artigo é ampla, e também se evidencia com a comparação com o artigo de Elio Gaspari, que se refere às articulações de bastidores do Planalto para um golpe contra a democracia e possível resultado das urnas de outubro.
Gaspari lembra passagens anteriores sobre articulações golpistas e a resposta que obteve por parte do governo Castello Branco, antes portanto do Ato Institucional nº 5, de dezembro de 1968, decretado pelo presidente Costa e Silva.
É verdade que no governo Castello Branco foi praticada a cassação de Juscelino Kubitschek, favorito nas eleições que não ocorreram em 1965. Mas este é outro assunto. Fica para o quadro da história da política brasileira.
COLISÃO – A surpresa do editorial é que ele colide com o pensamento da maioria da opinião pública e também com a independência de seus jornalistas efetivos, como também é o caso de Bernardo Mello Franco.
Na edição de ontem, por exemplo, Bernardo Mello Franco, ataca a atuação do governo na Amazonia e sustenta que o presidente da República desfechou uma foiçada na Funai, significando que esvaziou o órgão, sendo preenchido pelo garimpo ilegal e por narcotraficantes. Temos assim, uma situação nova no jornalismo brasileiro e que deve ser motivo de análise.
CONFUSÃO NA BOVESPA – Reportagem de Eduardo Cucolo, Folha de S. Paulo de ontem, destaca a confusão em São Paulo quando o presidente Jair Bolsonaro e os ministros Paulo Guedes e Adolfo Sachsida compareceram à Bovespa para participar do lançamento das ações que marcam o início da privatização da Eletrobras. Entre os manifestantes estavam lideranças de movimentos de trabalhadores sem teto, atingidos por barragens e petroleiros.
A demanda por ações foi forte, com a participação de fundos de pensão das estatais, fundos de investimento e aplicadores do varejo. No meio do tumulto, o ministro da Economia, Paulo Guedes, defensor da privatização e contra a interferência para segurar preços, tantos os da Petrobras como os dos supermercados, elogiou o “legado dos governos militares que fizeram uma extraordinária gestão do ponto de vista da Infraestrutura”, acentuando que esse legado está sendo perdido.
Mas pedido por quem? Pelo governo atual? Por governos anteriores? Se pelos governos anteriores, por que o governo atual não corrige a questão?
ARTICULAÇOES ESTADUAIS – Na edição de ontem deste site, eu fiz referência a uma declaração do presidente Jair Bolsonaro queixando-se de que o senador, Fernando Bezerra, ex-líder do governo no Senado, não citava o seu nome nos atos políticos em Pernambuco.
O filho do senador Fernando Bezerra Coelho é candidato a prefeito de Pernambuco e não deseja unir a sua imagem a de Bolsonaro, muito atrás nas pesquisas do Datafolha no estado. O motivo, portanto, é esse, o que comprova as dificuldades que candidatos a governos nos estados encontram, dependendo da região, de se unirem a Bolsonaro ou a Lula.
TROCA-TROCA – Reportagem de Jussara Soares, Alice Cravo, Daniel Gullino e Camila Zarur , publicada no O Globo de ontem, revela que o presidente Jair Bolsonaro decidiu reabrir o debate sobre a escolha de seu candidato a vice em sua chapa, que até hoje era Braga Netto, pela deputada Tereza Cristina, ex-ministra da Agricultura, que sob a visão do Planalto acrescenta muito mais à sua candidatura.
Bolsonaro com a indicação de Tereza Cristina espera obter um crescimento substancial do voto feminina no país e combater a sua alta rejeição entre as mulheres. Segundo o jornalista Valdo Cruz, da GloboNews, Bolsonaro poderia reconduzir Braga Netto ao Ministério da Defesa.