Prêmio Nobel de Economia: salários são a base e o impulso da economia real
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Pesquisadores fizeram estudos para entender os efeitos de salário mínimo
Pedro do Coutto
O Prêmio Nobel de Economia deste ano foi destinado ao canadense David Card , ao americano Joshua Angrist e ao holandês Guido Imbens por suas pesquisas e conclusões sobre o mercado de trabalho e os seus reflexos concretos no desenvolvimento no consumo das populações. Os três vencedores do Nobel distinguidos pela Academia Real Sueca de Ciências acentuaram que os seus trabalhos basearam-se em situações da vida real e, por isso, contém inovações quanto à metodologia do que se considera relações causais.
Na minha opinião, os três pesquisadores basearam o trabalho no que se pode chamar de Ciência da Realidade que distingue a diferença entre projetos teóricos e a sua realização na prática. Os três professores investigaram também a influência das correntes migratórias no mercado salarial, caso dos cubanos nos Estados Unidos, e não encontraram diferença em matéria de restrição salarial em virtude da maior demanda de emprego. Os salários não diminuíram e o desemprego nos Estados Unidos não aumentou, o que para eles prova que o mais importante encontra-se na produção e não na restrição da renda do trabalho.
SALÁRIO MÍNIMO – No O Globo, edição de ontem, a reportagem é de Carolina Nalin, na Folha de S. Paulo é de Ana Estela de Sousa Pinto. David Card analisou também e incorporou à tese os efeitos do salário mínimo no mercado de trabalho. Angrist e Imbens interpretaram as conclusões. Ao que se refere à contratação de empregados, os ganhadores do Nobel dão um exemplo do McDonald ‘s que chegou a oferecer US$ 50 de bônus para os que aceitarem fazer entrevista para admissão na rede da empresa.
Um outro aspecto que vale ser acrescentado contido no estudo: o salário mínimo norte-americano, do qual todos os demais salários são múltiplos, são elevados e a economia do país é a maior do mundo chegando a representar 25% do Produto Bruto mundial que é da ordem de US$ 127 trilhões.
INFLAÇÃO NO PICO – Estudo do banco J.P. Morgan, concluído na última segunda-feira e publicado na Folha de S. Paulo de ontem por Leonardo Vieceli, demonstra que a inflação brasileira alcançou em setembro o seu pico, atingindo 10,2%. É possível que seja esse um limite de aumento para 12 meses, portanto de setembro de 2020 a setembro de 2021.
Mas o problema, digo, é que não existem hipóteses, aliás nunca aconteceu, de um processo inflacionário ter regredido a níveis anteriores ao do seu crescimento. Assim, daqui para frente, o IBGE e a Fundação Getúlio Vargas podem encontrar avanços mensais menores, mas eles incidirão inevitavelmente sobre os números absolutos formados pela incidência dos 26,2% que romperam o limite que não se verificava há mais de 30 anos. Os salários de setembro de 2020 a setembro de 2021 perderam, mais uma vez, para a inflação e continuarão perdendo em função dos acréscimos que ocorrerão a partir deste mês de outubro.
REJEIÇÃO – Com base nos índices mais recentes do Datafolha, Ranier Bragon, Folha de S. Paulo, edição de ontem, coloca em confronto duas posições que até o momento estão influindo na disposição do eleitorado brasileiro: 59% não votariam em Jair Bolsonaro de modo algum e 38% de modo algum votariam em Lula da Silva. A rejeição relativa a Bolsonaro é a maior registrada pelos presidentes eleitos desde 1989. Um quadro estatístico acompanha a matéria.
A meu ver existe uma certa lógica que se reflete também nas pesquisas do Datafolha para a sucessão presidencial de outubro de 2022. No primeiro turno, Lula alcançaria 44 pontos contra 26 de Jair Bolsonaro. No segundo turno, Lula da Silva alcançaria 56% contra 31% de Bolsonaro. Verifica-se, portanto, uma correlação lógica entre a rejeição e a aprovação dos dois principais candidatos. A rejeição a Bolsonaro é mais de 20 pontos superior à resistência a Lula da Silva. E a vantagem de Lula da Silva sobre Bolsonaro em um segundo turno é de 25%.
Em seu espaço de ontem na Folha de S. Paulo, Hélio Schwartsman escreve um artigo, como sempre muito bom, sobre o enigma que leva o presidente Jair Bolsonaro a uma posição contra as vacinas capazes de imunizar a população da Covid-19 e também sua permanente oposição ao uso das máscaras. São atitudes, de fato, incompreensíveis. Não há nenhum sentido alguém ser contra o uso das vacinas ou das máscaras. Esse comportamento talvez esteja tornando-se em mais um fator para a rejeição do atual presidente da República.
CRECHES – Paulo Saldaña, Folha de S. Paulo, focaliza o déficit da rede de creches no país, destacando que mais de 2,2 milhões de crianças brasileiras estão fora do sistema pré-escolar, fundamental para a sociabilização, para a sua alimentação e liberação de mães para o mercado de trabalho. Lembro de pesquisa feita pela antiga LBA, quando presidida pelo engenheiro Luiz Fernando da Silva Pinto, sobre a importância das creches em todos os sentidos.
Na época, eu integrava a Diretoria da entidade. Paralelamente, no final dos anos 70, pesquisa do MEC revelou que o índice médio de reprovação na primeira e segunda séries do antigo primário era de 47%, porém esse índice caía para 20% quando as crianças tinham sido atendidas pelas redes de creche antes de ingressarem no ensino formal. Na época, a população infantil no início do curso primário era de oito milhões de crianças.
Assim, uma reprovação de 47% significava a necessidade de mais um ano de aprendizado para o contingente que iniciava o primário. O atendimento em creche, assim, liberava mais de dois milhões de vagas nas escolas públicas. Porque é evidente que o índice de reprovação era muito mais alto nos grupos de renda menor. Inclsuive os grupos de renda mais elevada colocavam os seus filhos em creches particulares.
ABORTO NO PAÍS – Carol Pires, Folha de S. Paulo de ontem, escreveu artigo sobre o problema do aborto no país, atacando aqueles que defendem a criminalização da prática. Os problemas em torno desta questão são múltiplos e de toda ordem. Uma pesquisa do passado feita também no final dos anos 70, revelou que eram praticados por ano no Brasil 1,3 milhão abortos dos quais 30% decorrentes de procedimentos rudimentares, sem higiene ou cuidados necessários.
O problema continua em uma escala muito alta certamente nos dias de hoje, e a solução mais efetiva não é de criminalizar, na minha impressão, mas de consolidar uma política de planejamento familiar. Isso porque uma faixa enorme de mulheres não deseja ter o número de filhos, mas não sabem como evitar a gravidez indesejada.
Quanto melhor e mais eficaz for a politica de planejamento familiar, menor será o número de abortos, sendo que 30% dos abortos praticados nos anos 70 acarretavam a necessidade de atendimento hospitalar. O planejamento familiar evitaria tanto um problema quanto o outro.