Publicado em 21 de agosto de 2021 por Tribuna da Internet

Bolsonaro rejeita previamente qualquer tipo de diálogo institucional
Pedro do Coutto
Reportagem de Mariana Muniz, Paula Ferreira e Jussara Soares, O Globo de sexta-feira, revela que no início da noite de quinta-feira, o presidente Jair Bolsonaro, em mais um ato completamente absurdo, que aliás é uma rotina em seu desgoverno, encaminhou representação ao STF no sentido de estabelecer que a Corte somente possa abrir inquéritos com o aval da Procuradoria-Geral da República. O ato acrescenta mais um recorde do governo em matéria de desorientação e até mesmo de provocação.
Como é possível que o Poder Judiciário possa remeter a si mesmo para um patamar abaixo e dependente da autorização da PGR? A iniciativa de Bolsonaro tem como objetivo, acentua a reportagem, obstruir os inquéritos contra as fake news que ameaçam a democracia e com isso agridem toda a sociedade brasileira.
SEM DIÁLOGO – Por outro lado, o objetivo do presidente é o de rejeitar previamente qualquer tipo de diálogo institucional, tanto com o Poder Legislativo quanto com o Poder Judiciário. Não é possível que Bolsonaro não tenha recebido assessoria competente destinada a evitar que cometesse essa atitude dramática no quadro constitucional do país. É evidente que ele sabe muito bem que a Corte Suprema só pode rejeitar de plano tal representação e com isso pretende o chefe do Executivo agravar a crise que já coloca em posição difícil o seu próprio governo.
Bolsonaro, no fundo, digo, não deseja soluções dentro do quadro legal brasileiro. Pelo contrário. Daí porque a sabatina de Augusto Aras marcada para terça-feira no Senado, no processo de sua recondução ao cargo de Procurador-Geral , ganha uma conotação inevitavelmente política. O Senado tem plena consciência de que Bolsonaro deseja um veto a Augusto Aras já desenhado pelas acusações de inércia e omissão.
Porém, está também em discussão a escolha de André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal. Tenho a impressão de que o Senado, apesar das restrições a Aras, considera melhor reconduzi-lo do que aceitar a nomeação de Mendonça. Tanto assim que, enquanto a sabatina está marcada para terça-feira, a análise de André Mendonça pela Comissão de Constituição e Justiça não tem ainda data prevista.
DESEMBARQUE – Douglas Gavras e Isabela Bolzani publicaram reportagem na Folha de S. Paulo de ontem destacando que o mercado financeiro está vendo com desconfiança tanto os rumos econômicos quanto às rotas políticas do governo Jair Bolsonaro e começa a preparar uma operação de desembarque, temendo que o seu apoio à reeleição termine se revertendo num lance prejudicial aos próprios interesses da mão de tigre que rege o mercado financeiro do país.
A economista Zeina Latif em declaração à Folha diz que há um acúmulo de notícias negativas envolvendo o governo e o mercado começa a reagir por falta de um gatilho. O gatilho a que a economista se refere, tenho a impressão, é aquele que rege as aplicações e investimentos financeiros, sobretudo num momento em que a inflação dos últimos 12 meses, de acordo com o IBGE, atinge 7%, enquanto a taxa Selic está fixada em 5,25% ao ano.
CREDORES – Os bancos, esta que é a verdade, não são devedores, mas sim credores deste índice Selic, na medida em que a remuneração reflete a incidência do percentual sobre o total da dívida brasileira que alcança R$ 6 trilhões. O gatilho seria assim uma forma de evitar que as aplicações via Selic permanecessem num sistema de juros negativos, ou seja, inferiores à inflação do IBGE.
Mas o gatilho, digo, deve se referir também aos salários, os quais, conforme informou a TV Globo no Jornal Nacional de quinta-feira, assinalam um avanço dos preços da alimentação, enquanto os salários não saem da estaca zero. Assim, a diminuição concreta da remuneração do trabalho gera uma retração forte no consumo de alimentos, diretamente refletida e comprovada pela diminuição do consumo da população nos supermercados.
Se até os alimentos encontram-se em retração, por isso pode-se imaginar os cálculos da compressão envolvendo restaurantes, viagens, movimento na Bolsa de Valores e outras faixas econômico-financeiras que formam o sistema do Produto Interno Bruto. Com o desemprego na escala de 14,8% não há consumo que possa se expandir e, portanto, não há PIB que possa avançar.