terça-feira, julho 13, 2021

Nesse ciclo paranoico, Jair Bolsonaro corre o risco de nem passar para o segundo turno

Publicado em 13 de julho de 2021 por Tribuna da Internet

Charge reproduzida do Arquivo Google

Merval Pereira
O Globo

A pandemia que expõe aos olhos do país a inépcia, a falta de empatia e a corrupção nas entranhas do governo do presidente Bolsonaro, especialmente devido à CPI da Covid, foi a mesma que o poupou de manifestações populares mais vigorosas, devido ao receio de sair às ruas em manifestações políticas imprescindíveis  ao desencadeamento de um processo de impeachment.

O Centrão somente permitirá que um impeachment comece a ser debatido na Câmara se a popularidade de Bolsonaro cair a um ponto irreversível, como aconteceu com Dilma. A disputa regional em Alagoas entre o presidente da Câmara, Artur Lira e o relator da CPI, senador Renan Calheiros, impede que isso aconteça. A abertura do processo de impeachment será uma derrota pessoal de Lira.

RETOMADA – A aceleração da vacinação proporcionará uma retomada econômica, reduzindo a pressão sobre o presidente, mas facilitará a mobilização de grandes massas populares e aumentará o consumo de energia, o que poderá provocar um apagão em pleno ano eleitoral.

Não são nada promissoras as perspectivas para o governo brasileiro no último ano do mandato presidencial, e as pesquisas de opinião já indicam esse declínio de popularidade. Dificilmente os que hoje consideram Bolsonaro, segundo o Datafolha, autoritário, despreparado, desonesto, indeciso, incompetente, falso e pouco inteligente mudarão de ideia, e não apenas por falta de tempo para o presidente provar-se o contrário.

Por falta mesmo de capacidade de ser outro que não esse, que a percepção popular identificou tardiamente.

APENAS ANTIPETISTA – Sempre foi tudo isso, mas conseguiu enganar muitos, que se deixaram levar por promessas vãs, arremedos de honestidade, um liberalismo econômico que não combinava com sua postura anterior. Ser o antipetista exemplar bastou para que centenas de milhares de eleitores, que hoje rejeitam sua maneira grosseira de falar e de se comportar, e o retrocesso civilizacional que impõe ao país, o escolhessem.

Bolsonaro conseguiu arrastar o eleitorado do PSDB no sul, sudeste, centro oeste, tradicionais nichos tucanos que, a partir dali, se fortaleciam para enfrentar o PT, pelo menos no primeiro turno.

Enfraquecido desde o mensalão – nunca é demais lembrar que no primeiro turno de 2006 o tucano Geraldo Alckmin teve 41% dos votos -, o PT conseguiu manter-se no poder com um misto de populismo, fisiologismo e muito dinheiro desviado dos cofres públicos para bancar as campanhas eleitorais.

AÉCIO QUASE VENCEU – A partir de 2013, com as grandes manifestações de massa contra o governo Dilma, esse eleitorado de centro e centro-direita foi à busca de quem derrotasse o PT nas eleições presidenciais. O tucano Aécio Neves quase venceu a eleição de 2014, e Bolsonaro, que não passa de um Cabo Daciolo com um parafuso a mais, tornou-se a saída diante de um Alckmin amorfo em 2018 e um Ciro Gomes traído por Lula em favor de Haddad.

Quando Ciro tentou ser a alternativa aos extremos, já não havia mais tempo. Sua imagem de destemperado está sendo repaginada pelo marqueteiro João Santana, para que possa tentar assumir o papel de terceira via que não colou em 2018, porque ele ficou a meio caminho. O ambiente político naquela ocasião pedia sangue nos olhos dos candidatos, o que Bolsonaro tem de sobra.

TERCEIRA VIA – Hoje, o ex-presidente Lula surge nas pesquisas como a alternativa natural, mas elas mostram também que o caminho para uma terceira via nunca esteve tão aberto, com a possibilidade de Bolsonaro, que desmancha a olhos vistos, nem mesmo chegar ao segundo turno. Essa massa eleitoral que abandonou Bolsonaro, no momento passou-se na maioria para o PT, num movimento que nada tem de perene.

O mais provável é que a campanha presidencial apresente aos eleitores outras opções, enquanto Lula e Bolsonaro se digladiarão, retroalimentando a disputa de ódio que hoje já está em andamento.

Difícil imaginar que quem fugiu do PT como o diabo da cruz em 2018 volte a ele apenas para derrotar Bolsonaro. Só se for a única alternativa. Como foi Bolsonaro em relação ao PT. É preciso quebrar esse ciclo paranóico.


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