
Charge do Cazo (Arquivo Google)
Iara Lemos
IstoÉ
Em meio às polêmicas que giram em torno da incompetência do governo federal, o presidente Jair Bolsonaro verá seu futuro político ser colocado em xeque caso se confirme a tendência da eleição do deputado Baleia Rossi (MDB-SP) como o novo presidente da Câmara, em sessão marcada para o próximo dia 1º.
O deputado paulista obteve a adesão de grande parte dos parlamentares da esquerda (PT, PSB e PDT), além dos integrantes dos partidos que fazem oposição ao presidente, como PSDB, DEM e MDB. Se as perspectivas de votos se mantiverem, o líder do MDB deve ser eleito e fazer com que a assombração do impeachment do ex-capitão volte a rondar as mesas de conversas no Congresso.
CONDIÇÃO DA ESQUERDA – Afinal, essa foi uma das condições impostas pela esquerda ao definir o apoio: a possível apresentação de processos de afastamento do presidente. Essa união da oposição em torno de Rossi pode abafar o poder governista do centrão, liderado pelo candidato bolsonarista Arthur Lira (PP-AL).
A expectativa do resultado é altamente favorável ao atual presidente da Casa e adversário de Bolsonaro, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que se tornou o principal cabo eleitoral de Rossi. Ao questionar a interferência de Bolsonaro no Poder Legislativo, Rossi atraiu para a chapa de oposição uma aliança considerada improvável há pouco tempo e que uniu novamente o PT e o MDB.
PT CONTRAFEITO – Até a semana passada, os petistas acusavam os emedebistas de terem dado “um golpe” com o impeachment de Dilma Rousseff. Apesar das feridas ainda abertas, a união das duas legendas será decisiva na derrota do fisiologismo bolsonarista.
A rota seguida por Rossi, contudo, enfrenta mares revoltos, movimentados pelos ventos que sopram das benesses ofertadas pelo governo aos deputados.
Por ser o candidato apoiado pelo Palácio do Planalto, Lira começou a disputa com vantagem significativa em relação a Rossi. Afinal, a candidatura governista vinha sendo reforçada também pela oferta de cargos comissionados e até a negociação para o comando de ministérios. Tudo isso está sendo colocado na mesa pelos governistas para negociar votos a favor de Lira. É a velha política do toma lá dá cá.
500 CARGO EM OFERTA – Deputados ligados ao grupo de Baleia Rossi denunciam que Bolsonaro está oferecendo pelo menos 500 cargos aos deputados que aderirem à candidatura de Lira, além de farta distribuição de recursos de emendas parlamentares, para atrair os adesistas ao candidato governista.
Dados do Portal Transparência apontam que, no final de 2019, houve um recorde na liberação de emendas. Foram quase três vezes mais do que o valor liberado em 2018. Bolsonaro foi o que mais liberou verbas aos parlamentares desde 2015, fator que tem pesado na intenção de votos dos partidos ligados ao Centrão.
O peso da máquina governista, pela interferência de Bolsonaro na eleição, portanto, é um dos maiores temores dos aliados de Rossi. Segundo a coordenação de sua campanha, o emedebista teria hoje o apoio de 278 deputados, abrigados em 11 partidos, mas devido às pressões do Planalto temem que possa haver elevado índice de traições.
MUITA DISSIDÊNCIA – O PSL, por exemplo, que decidiu apoiar Rossi, conforme revelou seu presidente, Luciano Bivar, tem pelo menos 20 parlamentares bolsonaristas. Lira, por sua vez, teria apoio de 10 legendas, com um total de 206 votos. Entre eles, contabilizam-se os votos dos 35 parlamentares do PSD, presidido por Gilberto Kassab, ex-prefeito de São Paulo.
A posição de Kassab surpreendeu os aliados de Rossi, pois o líder pessedista sempre disse ser independente. Acabou, contudo, não resistindo aos afagos governistas, rendendo-se a Lira.
Há receio até mesmo entre os partidários da esquerda, como o PSB, onde o presidente nacional da legenda, Carlos Siqueira, teme cisões entre os 31 deputados da sigla. Embora o partido tenha fechado voto em favor de Rossi, as divergências na legenda são visíveis.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Matéria interessante, mas esqueceu de analisar as chances reais de Arthur Lira, porque os partidos do Centrão enfrentam o mesmo problema da dissidência. Há deputados centristas que não se dão com Arthur Lira e têm ótimo relacionamento com Rodrigo Maia, que vai continuar comandando o circo, atuando apenas nos bastidores. (C.N.)