Fernanda Chagas e Lílian Machado
Em seu quarto mandato, o deputado estadual Yulo Oiticica, líder do PT na Assembleia, falou sem meias palavras com a Tribuna sobre o processo de distribuição de cargos no governo, cuja briga por espaços estaria emperrando a aliança com os independentes, leia-se PTN, PSC e PV.
Mais além, deixa claro que o governador é totalmente contrário à vinda para a base só para querer ter uma parte do bolo. Sobre possíveis queixas de Marcelo em relação aos critérios adotados por Cézar Lisboa para a divisão, disse que: ‘Nilo, obviamente, não é um deputado especial, é um deputado de uma bancada’.
Colocando ainda mais lenha na fogueira, disparou não ter dúvidas que “nós teremos um novo presidente no próximo biênio”. Quando o assunto foi a sucessão municipal, pontuou que a base governista tem excesso de bons nomes.
TB - Como líder do PT na AL, de que forma avalia a força da bancada de governo?
YO - Olha, o governador Jaques Wagner teve uma vitória extraordinária, foi reconduzido no primeiro turno com mais de 64%, e isso não é qualquer coisa. Não foi só a vitória do governador Wagner, foi a vitória de um projeto e uma vitória daqueles que se juntaram a esse projeto. Todos aqueles que vieram na perspectiva de se unir ao projeto comandado por Jaques Wagner aumentaram suas bancadas. Se nós formos olhar para estadual, por exemplo, nós coligamos com todos os partidos que quiseram coligar com o PT e todos eles cresceram. E não foi diferente a bancada do PT. Nós éramos dez, aumentamos pra quatorze, portanto só a bancada do PT cresceu 40%. E a bancada do governo já foi eleita majoritária pra comandar a Assembleia Legislativa, mas, naturalmente deputados, partidos que perderam a eleição, que, inclusive, não vieram oficialmente na coligação e não apoiaram o governador na campanha já se aproximaram e após a eleição também incorporaram. Portanto, o governador tem uma bancada bastante ampliada, bastante folgada, e isso dá uma condição de maior governabilidade por conta da folga, mas isso também não significa que você possa hoje aprovar qualquer coisa. A relação inaugurada pelo governador Wagner com a Assembleia demonstra que a Bahia republicana está em curso e isso não é retórica, não é simplesmente discurso. O fato é que nós, por exemplo, no primeiro governo Wagner, derrubamos um veto do governador diante de um projeto, portanto a Assembleia faz o debate, discute, não aprova facilmente muitas coisas exatamente porque não reina mais essa subserviência absoluta do passado, mas sim o bom debate.
TB - Mas esse inchaço também não teria pontos negativos?
YO - Sem dúvidas. Tudo tem o seu preço. Em um regime capitalista onde a corrupção impera, você compra deputados e faz uma base; onde a democracia impera você divide poder, portanto aumentar essa bancada tem um preço, significa dividir secretarias, autarquias, dividir verdadeiramente o poder. Acho que o governador Jaques Wagner tem tido habilidade para não perder de vistas que o que há é a unidade em torno de um projeto, sendo assim, fica mais fácil discutir e ocupar secretarias sem perder essa dimensão.
TB - A tendência é que essa bancada aumente ainda mais com a entrada dos independentes na bancada. O senhor é a favor ou contra?
YO - Eu sou sempre a favor de crescer o time, para mim o desafio da política é unir e não separar. Portanto, todos aqueles que tentam se unir ao nosso governo numa perspectiva de unidade de projetos, que acham que o governo Wagner é o melhor para Bahia e se juntam a partir dessa concepção, acho que é muito bom. Naturalmente a vinda só pra querer ter uma parte do bolo é muito prejudicial, pois essa é a tática da barganha, da chantagem e isso é muito ruim, mas o que tem sido positivo é que o debate tem sido em torno de um projeto.
TB- A concretização dessa aliança tem demorado. O senhor acha que a briga por espaços estaria emperrando?
YO - Olha, teve alguns fatos novos nesse contexto - por exemplo, a reforma administrativa. Nós acabamos de aprová-la, há duas foi sancionada e nessa semana, no dia de hoje (sexta- feira), por exemplo, tivemos uma secretária tomando posse em um ato público, portanto esse atraso foi devido, inevitavelmente, à ocupação de cargos. Nós somos comandados pelo secretário Cézar Lisboa, que tem conduzido isso com muita maestria, espírito democrático e até diria muita tolerância. Numa perspectiva de decisão coletiva de critérios, ou seja, como está se dando a decisão para ocupação de cargos regionais? Critérios de voto. É claro que isso desagrada a alguns, mas é o critério mais democrático. Por exemplo, a Bahia hoje está dividida em 26 territórios de identidade. Dentro desses 26 territórios, em 24 o PT ganhou as eleições, ou seja, o povo da Bahia disse nesses 24 territórios que o PT tinha que estar na linha de frente. Esse é o princípio do voto, o princípio da democracia, sendo assim, quem é que tem o direito de escolher a primeira pedida? Mesmo assim volto a dizer e ressaltar a tolerância do secretário Cézar Lisboa, que mesmo depois de discutir com todos os partidos, definir os critérios, se preocupou em realizar mais mesas de negociação para discutir exatamente o que a gente pode compor, onde é que nesses territórios a gente pode abrir mão, ou seja, a ideia é construirmos onde o bom senso prevaleça, mas não acontecendo o bom senso e o entendimento, vale o critério.
TB - Rumores dão conta de que a bancada estaria insatisfeita com essa divisão de cargos.
YO - Qual a bancada? A do governo?
TB - Sim
YO - Pois é. Eis a questão, alguns acham que deveria haver outro critério. Mas qual outro critério seria? O PT, por coincidência, é também o partido do governador. Volto a dizer: o PT ganhou em 24 dos 26 territórios. Qual seria o critério? Por deputado? Se for definir por deputado, o PT também é a maior bancada, nós somos 14, quase um quarto da quantidade, tendo em vista que somos 63 no total. Portanto, se for dividir por deputado, o PT também vai ser maioria. Então não tenho dúvida de que foi consenso entre os partidos que o critério do voto é o mais democrático.
TB - Falando em Cézar Lisboa, informações dão conta de que o presidente da Assembleia, deputado Marcelo Nilo, estaria insatisfeito com os critérios adotados por ele.
YO - O deputado Marcelo Nilo é o deputado. O PDT é o partido. As mesas de negociações, quem participou da comissão política foram os presidentes de partido e os líderes de bancada. Portanto, o deputado Marcelo Nilo obviamente não é um deputado especial, é um deputado de uma bancada. Vale lembrar que o partido dele, o PDT, tem a presidência da Assembleia. Vale dizer, conduzido e duas vezes reconduzido, portanto a presença do deputado Marcelo Nilo na presidência da Assembleia é uma demonstração de que o PT não tem nenhum problema em dividir poder, partilhar a condução do governo. Todos nós sabemos que Marcelo Nilo era o deputado do PSDB, que cansou de ter posições adversas ao presidente Lula no cenário nacional. Aqui na Bahia não seria o caso porque sempre fomos oposição. Exatamente quando nos tornamos governo ele foi eleito presidente da Assembleia, portanto eu não tenho dúvida que o PDT tem uma considerável parte do poder hoje no governo baiano.
TB - Falando em presidência da Assembleia, o senhor é a favor ou contra a reeleição na Casa?
YO - Olha, todo rodízio enriquece o processo democrático. Não tenho dúvidas que qualquer processo de rodízio fortalece qualquer processo democrático, seja nos sindicatos, nas Nações Unidas, nas comunidades continentais ou nas comunidades europeias, e na Assembleia não deve ser diferente. Sou a favor do rodízio sim. Acho que o deputado Marcelo Nilo é um bom presidente, alinhado com o governo Wagner, mas também não tenho dúvidas de que nós teremos um novo presidente no próximo biênio.
TB - E quanto à bancada de oposição. Também reforça o discurso de que o grupo está fragilizado?
YO - Sem dúvidas, ela está fragilizada seja no número, seja na qualidade. Vários e bons deputados perderam a eleição, a exemplo do deputado Gaban, e o que foi líder da bancada, o deputado Heraldo Rocha. Com toda divergência ideológica que nós temos, eram deputados conceituados e que perderam a eleição. O líder da bancada de oposição, deputado Reinaldo Braga, é bastante qualificado, é o que mais tem mandatos na Assembleia, agora, é claro, é muito limitado por conta da quantidade de deputados na oposição, que está muito fragilizada e com possibilidade de ficar menor ainda.
TB - O fato de o deputado Reinaldo Braga defender o governo não contradiz com o fato de ser líder da oposição?
YO - Sem dúvidas, você que sempre foi atacante e sempre esteve no governo com todas as benesses do poder e passa a ser oposição é uma coisa muito difícil. Isso essa turma não aprendeu: viver a pão e água e ter resistência para fazer o enfrentamento, isso de fato eles não estão acostumados, portanto é natural que não tenham um desempenho tão grande. Agora volto a dizer, deputado Reinaldo é um deputado, enquanto parlamentar, altamente qualificado.
TB - Quanto à disputa para prefeitura de Salvador, o senhor acha que o nome de Pelegrino será escolhido de forma consensual?
YO - Nós temos nos partidos, junto conosco, bons candidatos, boas candidatas, portanto o primeiro debate não tem que ser sobre o candidato do PT, mas o candidato desse agrupamento, que está alinhado com o governador Wagner e construir de fato um projeto para a cidade de Salvador. A cidade de Salvador não pode mais pagar pela irresponsabilidade de tantos gestores incompetentes. De fato, precisamos eleger alguém capaz de construir uma cidade a partir do planejamento de uma discussão com a sociedade civil, seja de fato com uma gestão que tenha a perspectiva de implementar políticas públicas. Não dá pra gente sair daqui pra Aracaju e ficar com vergonha de nossa orla. Nós temos um presente da natureza, um presente de Deus que é todo o nosso lindo e gigantesco litoral, mas as praias estão um desastre, simplesmente por não se sentar para discutir com a sociedade. Não dá pra se implementar uma gestão a partir da vontade de um prefeito, mas sim a partir da vontade da cidade, da vocação da cidade.E nós hoje temos um acúmulo gigantesco enquanto sociedade organizada soteropolitana. Qualquer gestor tem que enxergar, tem que reconhecer isso como preliminar para fazer uma boa gestão. Depois veremos os nomes. Acho que o PT tem vários nomes preparados pra isso. Um deles é o deputado Nelson Pelegrino. Eu fui cogitado em alguns momentos, porque fui o segundo deputado do PT mais bem votado na capital. Temos nomes qualificados, mas o mais importante é a construção de um nome de consenso em todo esse agrupamento.
TB - Inevitavelmente, o PT tem hegemonia do estado. O senhor acha que o partido vai abrir mão da prefeitura de Salvador nessa disputa?
YO - Eu não gosto de discutir política como uma ciência exata. Eu acho que as coisas devem se dar por osmose. Eu acredito nas coisas construídas, portanto, eu acho que o PT tem toda condição sim de lançar um nome, mas eu não subestimo tantos outros excelentes nomes, que aí estão sendo colocados, do PSB, do PCdoB, do PP, portanto essa é uma discussão secundária. O PT sempre teve atitudes grandes quando foi preciso, portanto, se tiver uma candidatura melhor do que a nossa não tenho dúvidas que podemos consentir.
TB - O deputado federal, inclusive, disse em entrevista à Tribuna que vai trabalhar para que os partidos aliados e o governador entendem que a unificação em torno da candidatura de Alice Portugal é o melhor para Salvador.
YO - Olha, Alice já foi candidata a vice na chapa do PT, com Nelson Pelegrino na cabeça, mas não tenho dúvida que ela é uma deputada valorossísima, já foi minha colega na Assembleia, uma mulher, uma parlamentar de muito valor. Não tenho dúvida da sua qualificação e também não tenho dúvida de que ela está preparada para ser prefeita de Salvador. Portanto, eu acho que o nosso problema não é falta de nomes, o nosso bom problema é exatamente ter muitos bons nomes. Também não tenho dúvida que, para nós do PT, Pelegrino é altamente qualificado para o cargo.
TB - É nítido que está havendo, em especial no diretório municipal, um distanciamento entre os comunistas e petistas. O senhor acredita em rompimento futuro com vistas a 2012, como já está sendo cogitado?
YO - Não, de forma alguma. O PCdoB é aquele irmão do PT e não existe bons irmãos que nunca brigaram, mas somos do mesmo sangue ideológico, estamos no mesmo projeto político e não tenho dúvida que temos uma discussão aqui ou ali, mas vamos construir a unidade no final do caminho.
TB - Para finalizar, como o senhor avalia o governo do estado?
YO - O governo Wagner foi capaz de quebrar paradigmas. Imagine que no primeiro momento o governador Wagner convoca o chefe do Poder Judiciário, o chefe do Poder Legislativo e constrói um grupo para debater todos os assuntos relevantes da Bahia e a participação de cada um, portanto isso é uma quebra de paradigmas porque no passado era subserviência, agora é o diálogo.
Fonte: Agora