Pedro Oliveira (*)
“A corrupção, Senhores senadores, desanima o trabalho, a honestidade, o bem; cresta em flor os espíritos dos moços, semeia no coração das gerações que vêm nascendo a semente da podridão, habitua os homens a não acreditar senão na estrela, na fortuna, no acaso, na loteria da sorte, promove a desonestidade, promove a venalidade, promove a relaxação, insufla a cortesania, a baixeza, sob todas as suas formas”.
O texto acima é de autoria de Rui Barbosa e foi pronunciado em um de seus memoráveis discursos no Parlamento em 1914. Se saísse do pedestal que ampara o seu busto como patrono do Senado Federal e repetisse a frase, muitos dos senhores senadores entrariam em desespero. Não pelo fato de estarem vendo “fantasma”, mas por se sentirem atingidos em cheio diante das acusações nela contidas. Rui não está mais aqui para se envergonhar, mas preveniu os brasileiros do que lhes estaria reservado pelos políticos de hoje: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”. Definitivamente as instituições brasileiras desceram a ladeira da vergonha, tomaram os caminhos da hipocrisia e mergulharam no poço da indecência e da imoralidade.
Ouvia esta semana de um conhecido jurista a frase: “Urge que a ordem seja mantida e aqueles que a violam sejam punidos, dentro da lei. É assim que funciona um Estado Democrático de Direito. E é isso que a sociedade exige”. Infelizmente, na prática, não é isso que temos assistido nos últimos tempos. O que vemos é a degradação, a cada dia mais acentuada, da classe política brasileira, o convívio com o imoral e o ilegal. As mesas de negociações espúrias montadas nos gabinetes de deputados e senadores, os corredores do Congresso Nacional transformados em feiras livres de compra e venda de obras, emendas parlamentares, licitações fraudadas e todo tipo de crime contra o erário.O que encontramos hoje é um Legislativo vulnerável, enfraquecido pelas mazelas dos que o compõem, buscando a todo custo esconder culpados e jogar para debaixo do tapete a sujeira de muitos, pois sabem que a comprovação corrupta de alguns pode levar à capitulação de quase todos. Governo e oposição estão finalmente juntos.As provas estão ai escancaradas e levantadas pela Policia Federal.As verdades estão também expostas por amantes, lobistas, propineiros e documentadas em gravações que revelam a convivência pútrida das mais destacadas personalidades da política com as máfias da corrupção e do suborno explícito. As evidências saltam aos olhos: políticos que nasceram pobres, nunca tiveram uma anotação em sua carteira de trabalho, não ganharam em nenhuma loteria, não herdaram nenhuma fortuna e possuem hoje um patrimônio invejável, apenas no exercício da “profissão” que os fizeram milionários. Seria fácil provar, mas é difícil querer provar.Um Brasil atônito, mas apático, não espera que muita coisa aconteça diante do que já viu e ouviu. Um dos responsáveis por investigações gravíssimas já declarou que “não gostaria de condenar ninguém”, um outro diz “ não temos muito o que apurar, pois já ouvimos o suficiente” como se a verdade fosse a deles. De tudo isto pode não sair uma pizza, mas é bem provável que saia um café requentado, pois é isto o que pode nos oferecer uma “cafeteira” congressual. Apenas uma coisa nos conforta. Depois dos últimos episódios o Congresso está com os glúteos de fora e nada deverá ser como antes!
(*) Pedro Oliveira - é jornalista e presidente do Instituto Cidadão
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Fonte: claudiohumberto.com.br
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