
O dinheiro da corrupção entrou por um buraco e saiu pelo outro
Pedro do Coutto
Aline Bronzati e Niviane Magalhães publicaram reportagem na edição de ontem de O Estado de São Paulo focalizando os problemas financeiros da Odebrecht, maior empreiteira de obras do país, e que liderou, no lado empresarial, o processo devastador de corrupção desencadeada a partir do segundo governo Lula. E que velozmente atravessou os mandatos de Dilma Rousseff e navegou no lago encantado da conivência no desgoverno Michel Temer.
Entretanto, a Odebrecht assumiu dívidas no montante de bilhões de reais que deixaram a empresa aparentemente vulnerável à cobrança que em torno dela se fechou como círculo de ferro. Tal círculo reduziu, ou até zerou sua capacidade de resgate.
MUITAS DÍVIDAS – Os títulos emitidos foram para o espaço de crédito ocupado – acentua a reportagem – pelo Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES, Bradesco, Itaú e Santander. Tenho a impressão que nunca uma empresa sozinha conseguiu dever tanto a credores tão fortes.
Os leitores certamente sentiram que estou me inspirando na frase histórica de Churchill, aplicada aos pilotos da RAF que conseguiram abater, no ar, muitas bombas voadoras de Hitler que atravessaram a fronteira e tinham Londres como alvo. Nunca tantos deveram tanto a tão poucos, disse o primeiro-ministro.
DINHEIRO VOLÁTIL – Voltando a Odebrecht, que está devendo muito, é porque conseguiu assumir dívidas estratosféricas. Para onde foi o dinheiro produzido pelo mar de corrupção? Dinheiro volátil do roubo em série organizado? Basta ler as decisões da Justiça que condenou os principais ladrões.
E se a Odebrecht distribuiu rios de dinheiro para subornar e dividir vantagens ilegais com órgãos públicos, espanta que tenha submergido num mar de papeis de créditos não resgatados. Afinal a Odebrecht comandava uma face da corrupção integrada pela OAS, Andrade Gutierrez, Delta, entre outras de menor porte mas de grande voracidade demonstrada pela fúria dos assaltos em série contra o Tesouro Nacional.
Um desastre para os assalariados brasileiros, uma vez que a fonte da propina era alimentada pelo desvio de recursos públicos que deveriam ser destinados aos setores que mais necessitam deles no país. É verdade, porém não se sabe para quais destinos navegaram as taças de ouro e prata, produtos do roubo organizado.
ROUBO DE ESQUERDA? – Sabe-se apenas que uma parte corrupta deslocou-se para Cuba e Angola, principalmente no plano internacional. A corrupção sintetiza em larga escala uma cada vez maior concentração de renda. Nada mais conservador e também reacionário do que isso. Portanto devemos acentuar que o roubo em ondas enormes, como no Brasil, nada tem de centro-esquerda.
As ondas são do passado e que represam o caminho do futuro. Extrema-esquerda, hoje, só existe na Coreia do Norte e Cuba. Mas a pergunta, finalizando, continua ainda sem resposta. Para onde foram parar parcelas enormes de dinheiro da Odebrecht? Afinal de contas não existe crédito sem débito.









