Publicado em 11 de setembro de 2026 por Tribuna da Internet
‘A Turma’ intimidava adversários, aponta PF
Luísa Marzullo
O Globo
Mensagens de Daniel Vorcaro obtidas pela Polícia Federal detalham uma série de episódios em que o dono do Banco Master acionou “A Turma”, grupo ligado a policiais, para agir contra pessoas que considerava adversárias. Nos diálogos, o banqueiro e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, discutem a adoção de uma “medida mais drástica”, falam em dar um “sacode” e avaliam se um dos alvos deveria receber “apenas um susto ou outra ação”.
A existência de “A Turma” foi revelada em março, quando a PF apontou que o grupo era usado para vigilância, coleta de informações e intimidação de pessoas que contrariavam interesses de Vorcaro. Um relatório da investigação com a análise das mensagens extraídas do celular do banqueiro traz detalhes de diferentes ações discutidas pelos investigados.
LEVANTAMENTOS – Segundo a PF, o grupo era formado por seis integrantes e liderado pelo policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva. Os investigadores afirmam que a estrutura levantava informações sobre pessoas, processos e inquéritos, inclusive sigilosos, e realizava ações de intimidação. “A Turma” recebia cerca de R$ 400 mil por mês, de acordo com o relatório.
Em um dos casos, em agosto de 2024, Mourão afirmou que iria se reunir com “A Turma” e disse que seria preciso tomar uma “medida mais drástica” contra o fundador e gestor da Esh Capital, Vladimir Joelsas Timerman, que fez diversas denúncias públicas contra o banqueiro. Vorcaro respondeu: “E contra o advogado tb”.
No dia seguinte, Mourão perguntou se Vorcaro poderia conversar com integrantes do grupo para ajustar a forma como deveriam agir. O banqueiro respondeu que teria de mandar “A Turma” para São Paulo para “matar esses negócios”. O relatório não informa se alguma ação foi realizada depois da conversa.
“DEPRAVADO” – Meses antes, Vorcaro já havia acionado o grupo após receber uma decisão judicial referente a um pedido de busca e apreensão e quebra de sigilos que incluía o Banco Master. “Esse depravado do Vladimir pede busca e apreensão e a Justiça deu ouvidos”, escreveu Vorcaro. Mourão respondeu que já havia conversado com “A Turma” e que os integrantes aguardavam apenas o aval do banqueiro.
Outro diálogo citado pela PF ocorreu após postagens relacionadas a um pedido de falência do Master. Mourão informou a Vorcaro que o telefone ligado às publicações estava registrado em nome de Daniel Marinelli Meira e perguntou se queria que “A Turma” “fosse pra cima” dele. Vorcaro concordou.
Na sequência, Mourão perguntou o que deveria ser feito com Marinelli e se seria para dar “apenas um susto ou outra ação”. As mensagens também mostram Vorcaro recorrendo ao grupo por causa de notícias sobre o Banco Master. Em outubro de 2024, ele encaminhou uma reportagem e escreveu: “Esse tem que derrubar”.
“OS MENINOS” – Logo depois, acrescentou: “E mandar a turma PF atrás”. Mourão respondeu que já havia acionado “Os Meninos”, grupo que a investigação associa a hackers, e que estava indo encontrar “A Turma”.
Um dos episódios de intimidação envolvendo “A Turma” já havia sido revelado pelo O Globo em março. Ao discutir uma abordagem a dois ex-funcionários em Angra dos Reis, Vorcaro avaliou com Mourão se deveria enviar policiais ou “bicheiros”. “Polícia às vezes não vai intimidar tanto”, disse o banqueiro.
Mourão afirmou que iria com Fabiano Zettel e levaria policiais federais, mas disse que também poderia chamar “o pessoal do Rio”. Vorcaro respondeu que deveriam levar os dois e afirmou que seria bom dar um “sacode” primeiro em Leandro Garcia para assustar Luis Felipe Woyceichoski.
PRONTIDÃO – Em outra mensagem reproduzida pela PF, um integrante do grupo de policiais do Rio afirmou que estava de prontidão: “Sabe que com a gente não tem moleza”. Além das ações contra desafetos, o relatório aponta que “A Turma” era acionada por Vorcaro para obter informações sobre investigações e procedimentos envolvendo ele, seus familiares ou seus negócios. Os diálogos citam casos em tramitação na PF, no Ministério Público Federal e na Polícia Civil de São Paulo.
Em fevereiro de 2024, por exemplo, Vorcaro encaminhou a Mourão uma certidão da Delegacia de Repressão à Corrupção da PF no Rio (Delecor) que cobrava de Henrique Vorcaro uma resposta a um ofício. Mourão afirmou que já havia pedido para “A Turma” verificar o caso.
Na sequência das conversas, Marilson afirmou que o procedimento havia se originado no MPF do Rio e orientou como deveria ser elaborada a resposta. Segundo o relatório, ele disse que, como o caso havia vindo do Ministério Público, “não tinha como bloquear” e que haviam feito “aquilo que deu pra fazer”. Também alertou para que uma determinada certidão não fosse mencionada na resposta por se tratar de “documento interno”.
INTIMAÇÃO – A Polícia Civil de São Paulo também aparece nos diálogos. Em setembro de 2024, Vorcaro perguntou a Mourão: “Temos civil SP?”. Mourão respondeu que sim. Os dois conversaram por telefone por cerca de três minutos e, na sequência, Vorcaro encaminhou uma intimação expedida pelo 15º Distrito Policial de São Paulo.
Quatro dias depois, Mourão afirmou que “A Turma” havia conseguido acesso à origem do primeiro mandado de intimação enviado pelo banqueiro e que um advogado ligado ao grupo já havia “resolvido” a questão.
DISCUSSÃO – Em outro episódio, após uma convocação para prestar depoimento, houve uma discussão sobre adiar o comparecimento para descobrir antes do que se tratava. Depois que Vorcaro informou que seus advogados já haviam pedido o adiamento, Mourão disse que iria se reunir com “A Turma” e que os integrantes “já haviam pego tudo”.
Para a PF, os episódios fazem parte da atuação atribuída à estrutura coordenada por Mourão. O relatório afirma que “A Turma” tinha entre suas funções levantar informações sobre inquéritos policiais e processos em andamento, inclusive sigilosos, mapear dados de pessoas e empresas em sistemas oficiais restritos e realizar ações de intimidação contra pessoas que desagradavam Vorcaro.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Não pode haver contemplação. Daniel Vorcaro liderava uma máfia poderosíssima. A única dúvida é saber se ele era o chefe ou apenas recebia ordens do pai, Henrique Vorcaro, que pode ser libertado a qualquer momento, se o ministro André Mendonça vacilar. (C.N.)