quinta-feira, setembro 10, 2026

Violência no campo e na cidade estão conectadas

 

Violência no campo e na cidade estão conectadas

Nos últimos dois anos, a segurança pública passou a ocupar o topo entre os problemas que mais preocupam os brasileiros. Historicamente, a economia e o desemprego surgiam como os temas que mais afligiam a população. Houve momentos em que a corrupção estava em primeiro lugar e, logo após a pandemia, em 2022, foi a vez da saúde pública ser a questão número um. Mas agora várias pesquisas de opinião pública convergem para a falta de segurança. Seis entre 10 brasileiros dizem se sentirem inseguros, segundo levantamento da Quaest divulgado em novembro de 2025.

Não à toa a segurança pública é um dos temas mais presentes nas eleições deste ano, seja nas disputas estaduais ou nacionais. O candidato à presidência pelo PSD, Ronaldo Caiado, por exemplo, fez desta a principal bandeira de campanha e promete criar um Ministério de Segurança Pública. Outros, entre eles Flávio Bolsonaro, do PL, afirmam que é possível aumentar a população carcerária no Brasil com a construção de presídios de segurança máxima ao estilo de El Salvador. 

Propostas como estas buscam claramente conquistar a população dos grandes centros urbanos, onde a preocupação com a falta de segurança é mais aguda. A mesma pesquisa Quaest do ano passado revelou que são nas regiões mais populosas do país, Sudeste e Nordeste, onde se concentra a parcela da população que mais cita a violência como problema principal.

Há, no entanto, a necessidade de se discutir a segurança pública em conexão com o que acontece fora dos grandes centros urbanos. Um dos fenômenos apontados por entidades especializadas, como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, é a consistente interiorização da criminalidade no país. As duas maiores facções - o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e o Comando Vermelho, do Rio de Janeiro, expandiram sua atuação para todo país e disputam entre elas territórios e o tráfico de drogas.


O reflexo deste crescente domínio pode ser visto na Região Norte, onde em pouco tempo algumas de suas capitais se tornaram, proporcionalmente, algumas das campeãs nas taxas de homicídio. Os últimos dados do Atlas da Violência, produzido pelo IPEA, mostraram que entre as 10 primeiras capitais com mais mortes, quatro estão no Norte. A mais violenta entre elas é Macapá, a terceira no ranking nacional, com 45,6 homicídios por 100 mil habitantes, atrás de Salvador e Maceió. Na lista também estão Manaus, Porto Velho e Belém. Entre os estados, o Amapá é, segundo as cifras de 2024, considerado o mais violento do país.


Crime organizado na Amazônia


Uma das razões para a crescente violência em municípios da Amazônia é a atuação do crime organizado fora do espaço urbano. Os analistas do tema de segurança são unânimes em apontar mudanças no conflito armado na Colômbia como um dos detonadores desta expansão das facções na região Norte. Em 2016, a desmobilização das FARC, guerrilha colombiana que dominou por décadas as rotas de tráfico de cocaína, criou uma disputa entre o PCC e CV por este negócio tão lucrativo.

Uma das rotas que passou a ser valorizada é a calha do rio Solimões. Eu vi isso com meus próprios olhos em uma viagem ao Amazonas em 2017.  Durante uma saída com pescadores locais para visitar suas áreas de captura em meio ao igapós e várzeas do grande rio, passou uma lancha a toda velocidade com homens portando fuzis. Eu perguntei aos meus guias se aqueles eram policiais ou se a lancha era do Exército. Nenhum dos dois, me disseram os pescadores. Eram traficantes e transitavam em plena luz do dia sem serem incomodados.

Junto a esta interiorização do crime organizado há uma sofisticação dos mecanismos de lavagem de dinheiro. Por sofisticação entenda-se também diversificação de negócios. Enquanto na famosa operação Carbono Oculto se revelaram operações do PCC em fundos de investimento da Faria Lima (avenida que concentra o mercado financeiro e empresas de tecnologia em São Paulo), nas áreas protegidas e territórios indígenas, as facções passaram a lucrar com a exploração de garimpos ilegais e com a grilagem de terra.

Cito os trabalhos de alguns colegas jornalistas que têm revelado estas conexões entre o crime ambiental e a falta de segurança. O projeto Amazon Underworld, por exemplo, revela as ramificações do crime na Amazônia. Foi fundado pelo criminologista e repórter Bram Ebus, com quem trabalhei há seis anos em uma investigação sobre o tráfico de mercúrio para os garimpos. Ele e sua equipe têm feito um mapeamento da presença do PCC e do CV nos municípios da Amazônia Legal. Os resultados, colhidos de inquéritos policiais e processos na justiça, mostram uma presença na quase totalidade da região.

O mapa abaixo ilustra o domínio do Comando Vermelho na região enquanto podemos ver que o PCC é especialmente forte nas fronteiras. Notem que já em alguns municípios fronteiriços do Peru, a presença do CV foi registrada.

Fonte: Amazon Underworld

Mas o que significa na prática a presença destas facções na Amazônia? Em uma investigação recente, feita em parceria com a InfoAmazonia e Amazon Underworld, o repórter Bruno Abbud visitou a Terra Indígena Sararé no Mato Grosso. Ali, a Polícia Federal comprovou a existência de um garimpo ilegal de ouro comandado pelo CV. Os relatos ouvidos por Bruno dos indígenas são aterradores. Assemelham-se muito aos de moradores de comunidades dominadas por milícias no Rio de Janeiro. Ou seja, coação com integrantes armados e conquista de partes do território.   

Portanto, é justo dizer que não são apenas as populações das grandes cidades que estão amedrontadas. O Brasil sempre foi um campeão de conflitos no campo, como mostra a longa série histórica da Comissão Pastoral da Terra. Muitos destes conflitos também atingem diretamente os povos indígenas. Mas agora alguns indicadores mostram que a violência nas terras indígenas já têm origem na presença do crime organizado. Foi isso o que registrou o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) em seu último relatório em que mostrou que no ano passado houve um aumento de 22% de indígenas assassinados.

É dado que choca considerando os recentes esforços do governo Lula de retomar a demarcação de território indígenas, territórios quilombolas e reservas extrativistas. Revela que mesmo uma política que reverteu o completo abandono promovido nos quatro anos de Bolsonaro não foram suficientes para barrar o aumento da violência em terras protegidas. 

Por isso, nestas poucas semanas que restam antes do primeiro turno das eleições, será essencial olhar as políticas de segurança pública não apenas com o viés policial, mas também com ações de combate ao crime ambiental e o crescimento do crime organizado na Amazônia.
 
Para saber mais
Ouro, escavadeiras e fuzis: facções e milícias dominam garimpos na Terra Indígena Sararé (por Bruno Abbud)



Um abraço,


Gustavo Faleiros

gustavo.faleiros@apublica.org

Colunista da Agência Pública

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