segunda-feira, setembro 07, 2026

Corrupção e democracia ganham maior destaque na decisão dos eleitores em 2026

Publicado em 7 de setembro de 2026 por Tribuna da Internet

Charge do Duke (Instagram)

Pedro do Coutto

A eleição presidencial de 2026 começa a revelar, para além da disputa entre nomes e partidos, quais serão os critérios capazes de definir o voto de uma parcela decisiva do eleitorado. Pesquisa Quaest divulgada neste domingo (6) mostra que a ausência de envolvimento em casos de corrupção e o compromisso com a defesa da democracia estão entre os fatores de maior peso na escolha do próximo presidente da República. ,

O resultado ajuda a explicar por que a campanha que se aproxima tende a ser travada não apenas no terreno tradicional da economia, da segurança pública e dos programas sociais, mas também em torno de uma questão mais profunda: em quem o eleitor acredita ser possível confiar para exercer o poder.

LUGAR CENTRAL – A corrupção volta, assim, a ocupar um lugar central no imaginário político brasileiro. Não se trata de uma novidade absoluta. Poucos temas foram tão decisivos nas últimas décadas para destruir reputações, impulsionar candidaturas e reorganizar forças políticas. A diferença é que, depois de anos de polarização extrema, o tema reaparece num ambiente em que praticamente todos os grandes campos políticos carregam desgastes, contradições ou questionamentos.

Isso torna a exigência do eleitor potencialmente mais ampla: não basta denunciar a corrupção do adversário; será preciso convencer que se está disposto a submeter o próprio grupo aos mesmos critérios de investigação, transparência e responsabilização.

É nesse ponto que a pesquisa contém uma advertência importante para a política brasileira. O combate à corrupção pode ser uma bandeira democrática, mas também pode ser transformado em instrumento de manipulação. A experiência recente do país mostrou como denúncias legítimas podem coexistir com espetacularização, seletividade e exploração eleitoral da indignação pública. Para o eleitor de 2026, portanto, a diferença poderá estar menos no político que simplesmente grita mais alto contra a corrupção e mais naquele que apresenta coerência entre discurso e comportamento.

SEQUÊNCIA DE CRISES – A defesa da democracia, outro fator que aparece com grande peso, acrescenta uma dimensão ainda mais significativa à eleição. O Brasil chega a 2026 depois de uma sequência de crises institucionais que colocou no centro do debate a relação entre eleições, respeito ao resultado das urnas, funcionamento das instituições e limites da ação política. Não por acaso, pesquisas anteriores já vinham identificando o crescimento da preocupação com ameaças à democracia como critério de avaliação e rejeição de lideranças políticas.

Esse dado é particularmente relevante porque desmonta uma leitura simplista segundo a qual a democracia seria uma preocupação restrita a especialistas, instituições ou setores politicamente engajados. Quando a preservação democrática entra na conta do eleitor, ela passa a ser uma questão eleitoral concreta. O candidato não será avaliado apenas pelo que promete fazer com o poder, mas também pela forma como demonstra que pretende exercê-lo e, sobretudo, pelos limites que aceita respeitar quando contrariado.

Há, naturalmente, uma contradição que desafia os candidatos. A polarização produz um eleitorado disposto a defender valores democráticos, mas também alimenta a tentação de relativizar esses mesmos valores quando a ameaça vem do próprio campo político. A democracia, porém, não se prova apenas quando protege aliados. Ela se prova justamente na disposição de aceitar regras, instituições e direitos mesmo quando beneficiam adversários. Esse será um dos testes mais difíceis para os discursos de 2026.

DISPUTA ACIRRADA – O cenário eleitoral recente torna essa discussão ainda mais relevante. A disputa pela Presidência permanece acirrada, com diferentes levantamentos indicando forte polarização e, em alguns cenários, margens muito estreitas entre os principais concorrentes. A própria Quaest divulgada nos últimos dias mostrou uma corrida competitiva, com grande contingente de eleitores ainda sujeito à influência dos acontecimentos e do desempenho das campanhas.

É justamente nesse espaço que corrupção e democracia podem ganhar importância decisiva. Em eleições altamente polarizadas, os candidatos normalmente preservam núcleos fiéis de apoio, mas precisam disputar o eleitor menos ideológico, aquele que não se identifica integralmente com nenhum dos polos e que tende a fazer uma avaliação mais pragmática e moral dos concorrentes. Para esse segmento, uma nova denúncia, uma investigação mal explicada, uma contradição ou um comportamento considerado autoritário pode custar votos suficientes para alterar o resultado.

A pesquisa também deve ser lida como um recado às campanhas que apostam exclusivamente na guerra cultural e na mobilização das paixões políticas. O eleitor pode continuar preocupado com emprego, inflação, saúde, segurança e renda — temas que não desaparecem de uma eleição presidencial —, mas está sinalizando que deseja respostas para outra questão: quem merece receber poder sem representar um risco para o patrimônio público e para as regras do jogo democrático?

DESCONFIANÇA – Não existe resposta fácil. A desconfiança nas instituições e nos políticos não será resolvida por slogans sobre honestidade nem por declarações genéricas em defesa da democracia. O combate à corrupção exige mecanismos concretos de transparência, prevenção e investigação. A defesa democrática exige respeito efetivo à Constituição, às eleições, à liberdade de expressão, ao devido processo legal e à separação dos Poderes. Organizações dedicadas ao acompanhamento da corrupção, como a Transparência Internacional – Brasil, têm insistido justamente na importância de transformar compromissos genéricos em medidas verificáveis e políticas públicas concretas.

A eleição de 2026, portanto, poderá ser decidida também por uma disputa de credibilidade. O eleitor parece menos disposto a conceder um cheque em branco e mais interessado em saber o que cada candidato representa quando a propaganda termina e o poder começa. Corrupção e democracia não são temas abstratos: a primeira trata do uso privado de recursos e estruturas que deveriam servir ao interesse público; a segunda estabelece os limites para que ninguém se considere acima das regras.

Quem compreender essa mudança terá uma vantagem importante na campanha. Quem imaginar que bastará acusar o adversário de corrupto ou inimigo da democracia, sem responder às próprias contradições, poderá descobrir tarde demais que o eleitor está cobrando algo mais difícil: coerência. E, numa eleição em que a confiança se torna um dos principais ativos políticos, talvez seja justamente ela, muito mais do que uma promessa de campanha, que venha a decidir quem terá a chave do Palácio do Planalto.


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