quinta-feira, setembro 03, 2026

Justiça cobra provas independentes de reportagens para liberar dados no caso ‘Dark Horse’


Policiais solicitaram acesso a dados financeiros de empresa

Bruno Ribeiro
Folha

A Vara Estadual das Garantias fez uma série de questionamentos à Polícia Civil de São Paulo e devolveu, sem decisão, um pedido de acesso a dados financeiros sigilosos da empresária Karina Ferreira da Gama, dona da produtora do filme “Dark Horse” e alvo de uma investigação sobre possível desvio de recursos da Prefeitura de São Paulo.

Entre os questionamentos, a Justiça perguntou quais documentos e indícios de irregularidade a polícia reuniu sobre o caso que não vieram de reportagens de jornais sobre o assunto e condicionou esses esclarecimentos à concessão do pedido.

COMPARTILHAMENTO DE PROVAS – Na semana passada, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino havia determinado o compartilhamento de provas do inquérito da Polícia Civil com a Polícia Federal, que também investiga a produtora, mas em uma apuração sobre recebimento de emendas parlamentares.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para o filme, havia dito que apresentaria a prestação de contas do longa-metragem, mas ainda não o fez.

O pedido da Polícia Civil à Justiça havia sido feito em maio. A manifestação da Justiça entrou no sistema do Diário de Justiça Eletrônico nesta segunda-feira (31). A Polícia Civil buscava autorização judicial para ter acesso a relatórios de inteligência financeira feitos pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) sobre o CPF de Karina e o CNPJ de sua produtora.

OPERAÇÕES ATÍPICAS – Os relatórios compilam operações atípicas comunicadas por bancos ao Coaf, mas não trazem acesso a extratos bancários A investigação se originou de uma representação feita pelo Ministério Público para apurar suspeitas de irregularidade no contrato de R$ 108 milhões entre o ICB (Instituto Conhecer Brasil) e a prefeitura.

Ao longo das investigações, o delegado Antonio Carlos Manuera Silveira afirmou que havia “consistentes suspeitas de confusão patrimonial” entre as contabilidades do ICB e da Go Up Entertainment, produtora de Karina responsável por “Dark Horse”.

O despacho da Vara de Garantias, publicado sem assinatura do juiz responsável, afirma que, em seu pedido, “a autoridade policial noticia que, embora os serviços efetivamente prestados [de fornecimento de wi-fi] correspondessem a aproximadamente R$ 43 milhões, teriam sido transferidos ao instituto cerca de R$ 69 milhões, resultando em diferença aproximada de R$ 26 milhões”.

RECURSOS PÚBLICOS – “Há, ademais, referência à possibilidade de que parte dos recursos públicos tenha sido destinada ao financiamento de atividades privadas relacionadas à produção cinematográfica desenvolvida pela empresa Go Up Entertainment, vinculada à investigada Karina”, diz o despacho.

Contudo, a Vara de Garantias citou decisão liminar do ministro do STF Alexandre de Moraes de março passado que estabeleceu seis requisitos prévios para acesso a relatórios do Coaf, com o objetivo de coibir a prática de “fishing expeditions” (investigação ampla, sem foco específico, para coleta de provas), e pediu mais informações à polícia.

Entre os esclarecimentos, “quais elementos documentais e informativos, já incorporados ao inquérito policial e independentes da notícia de crime e das matérias jornalísticas mencionadas, conferem suporte objetivo às irregularidades narradas” e “quais são os elementos concretos já existentes que justificam a inclusão de Karina Gama, pessoalmente, no âmbito da pesquisa financeira pretendida”, e não apenas suas empresas.

JUSTIFICATIVA – A Justiça pediu ainda que a polícia justificasse o período de acesso aos dados. O requerimento abrangia todas as transações a partir de junho de 2024, quando o contrato do wi-fi foi firmado. No despacho, a Justiça também concordou com pedido da Polícia Civil para prorrogar o prazo do inquérito por mais 90 dias e atendeu a outro pedido de compartilhamento de provas, feito pelo Ministério Público do Distrito Federal, que também investiga contratos do ICB.

O filme “Dark Horse” (azarão, em inglês) trata da trajetória de Jair Bolsonaro, com destaque para a facada sofrida em 2018. Flávio Bolsonaro, hoje candidato à Presidência, pediu em 2025 recursos para financiamento do longa-metragem a Daniel Vorcaro, do Master. O senador nega irregularidades e diz ter sido um pedido sem o envolvimento de recursos públicos.

O site The Intercept Brasil revelou que Vorcaro repassou R$ 61 milhões para o longa-metragem. A Polícia Federal investiga se parte do dinheiro foi usado para financiar gastos do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos.

Em destaque

Mendonça decide deixar sociedade em instituto privado que virou alvo de questionamentos

  Mendonça decide deixar sociedade em instituto privado que virou alvo de questionamentos Por Mônica Bergamo/Folhapress 03/09/2026 às 09:53 ...

Mais visitadas