
Charge do Takeshi Gondo (O Hoje)
José Marques, Luísa Martins e João Gabriel
Folha
Dois dias antes de ser preso pela Polícia Federal, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, perguntou ao ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), se deveria deixar o país segundo mensagens reveladas pelo jornal O Estado de S. Paulo e obtidas também pela Folha.
Os documentos da Polícia Federal mostram que Vorcaro também pediu encontros com Moraes às vésperas de ser preso, justamente para tratar dos negócios que o fizeram ser investigado.
ESTAVA FUGINDO – Vorcaro foi preso pela PF no dia 17 de novembro de 2025, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta. Documentos mostram que no dia 14 ele pergunta ao ministro se está “marcado amanhã lá em casa” ou se “prefere deixar para semana que vem”. Minutos depois, confirma: Vou chegar 14:30 ok! La em casa marcado”.
Na noite do dia 15, pelo horário brasileiro, dois dias antes da prisão, o ex-banqueiro pede um novo encontro com Moraes que “pode ser bem rápido”. “As 14 então. Passo na sua casa ou na minha?”, completa. Em 15 de novembro de 2025, um sábado, Vorcaro teria enviado a Moraes a mensagem: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”, questionando sobre a necessidade de fugir do país.
No dia seguinte, 16, um domingo, avisa: “Já estou em voo, vou pousar 14:20 e irei direto praí, tudo bem?”
MUITAS MENSAGENS – As trocas sobre os encontros aconteceram simultaneamente a outras mensagens, nas quais Vorcaro questionava Moraes sobre o andamento do processo contra ele e o Master.
Durante as trocas de mensagens, o dono do Master questiona diversas vezes sobre as apurações contra ele, se mostra indignado e diz que está tentando resolver todas as pendências para evitar problemas.
A revelação amplia o conjunto de mensagens entre Vorcaro e um interlocutor que a Polícia Federal suspeita ser Moraes. Parte desses diálogos está em documento foi enviado ao STF e sobre o qual o ministro André Mendonça, do STF, pediu manifestação da PGR (Procuradoria-Geral da
DISSE MENDONÇA – Em decisão no final de agosto, Mendonça disse que conversas que Vorcaro teve com “outra pessoa ainda não identificada” comprovam que o ex-banqueiro soube, com significativa antecedência, da decisão que determinaria a sua prisão.
De acordo com o ministro, os diálogos reforçam a hipótese investigativa segundo a qual Vorcaro “demandava intervenção junto a autoridades públicas envolvidas nos respectivos processos decisórios”.
A identificação do interlocutor de Vorcaro, prossegue o relator do caso Master, é fundamental para mapear “integrantes da suposta rede de influência e monitoramento” gerenciada pelo empresário.
GENTE GRAÚDA – Sem citar nomes ou suspeitas, Mendonça indica que nessa rede pode haver pessoas com foro especial e sujeitas a julgamento pelo próprio plenário do STF, como ministros da corte e o procurador-geral da República.
“Uma vez identificados os destinatários e demais mencionados nas referidas mensagens, devem ser igualmente fornecidas a íntegra de todas mensagens e interações existentes que envolvam as mesmas pessoas”, determina o ministro.
Um dia antes da prisão de Daniel Vorcaro, em 16 de novembro, Vorcaro também perguntou ao ministro Moraes: “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”.
NO AEROPORTO – A ordem de prisão preventiva foi assinada pelo juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal, às 15h29 de 17 de novembro. Horas depois, Vorcaro foi detido no Aeroporto Internacional de São Paulo.
No dia 15, Vorcaro perguntou a Moraes: “Aquele mesmo juiz Ricardo? E o [Gabriel] Galípolo tá sabendo? Conseguimos fazer algo?”. Já às 17h26 do dia em que acabou preso, teria enviado: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.
As mensagens extraídas do celular de Vorcaro não permitem saber o conteúdo de eventuais respostas de Moraes. Os dois usariam imagens de visualização única com capturas de textos escritos no aplicativo de notas, e a extração teria recuperado apenas conteúdos enviados pelo banqueiro.
ANDREI E PAULO – A investigação da PF apresenta uma série de mensagens enviadas por Vorcaro a partir de 30 de outubro de 2025. Em outros diálogos já revelados, o banqueiro pede a um interlocutor a atuação de “Andrei e Paulo” a seu favor. As referências seriam a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Paulo Gonet, procurador-geral da República.
A pessoa para quem a mensagem foi enviada não havia sido identificada inicialmente, mas a PF aponta suspeita de que o interlocutor seja Moraes. A informação foi divulgada inicialmente pelo site Metrópoles e confirmada pela Folha.
Em uma das mensagens, Vorcaro afirma que era “importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco”. Em outra, pede que o interlocutor tente adiar uma ação da PF: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”.
PRAZO FATAL – Mendonça deu prazo de cinco dias para que a PGR se manifeste sobre o documento da PF. A Folha procurou nesta terça-feira (1º) Andrei, Gonet e Moraes, que ainda não haviam se manifestado.
Informações obtidas pela PF também apontam que Moraes fez edições em uma minuta do contrato entre o Banco Master e o escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes. Em nota, o escritório afirmou que seu setor de compliance solicitou informações ao ministro, “na condição de marido da sócia diretora”, sobre eventuais impedimentos legais para a contratação.
Segundo o escritório, não havia impedimento porque não estava prevista atuação perante o STF e Moraes não havia julgado causas envolvendo o Master. O contrato previa pagamentos de R$ 129 milhões ao longo de três anos, a R$ 3,6 milhões por mês.
OUTRAS MENSAGENS – Em março, O Globo revelou que Vorcaro trocou mensagens de WhatsApp com Moraes ao longo do dia de sua primeira prisão. A informação foi confirmada pela Folha.
À época, Moraes afirmou que “não recebeu essas mensagens” citadas em reportagens e classificou como “ilação mentirosa” a afirmação de que elas teriam sido enviadas a ele.
Vorcaro foi preso em 17 de novembro, quando se preparava para embarcar para o exterior. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação do Master.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Em tradução simultânea, também estão envolvidos Andrei Rodrigues (PF), Paulo Gonet (PGR) e Gabriel Galípolo (BC). Com diz o genial samba de Ari do Cavaco e Bebeto Di São João, “se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão…”. (C.N.)