Publicação de Luis Celso Dirceu Lula
A FÁBULA DO AZARÃO E O DINHEIRO TRANSPARENTE
A política brasileira é pródiga em produzir enredos que desafiam a inteligência alheia, mas o caso da cinebiografia Dark Horse atinge um novo patamar de acinte. A revelação de que o empresário Daniel Vorcaro realizou dois repasses ocultos de US$ 1,6 milhão (cerca de R$ 8,5 milhões), cada um, em setembro de 2025 deita por terra, de forma inapelável, a narrativa oficial sustentada pelo senador Flávio Bolsonaro.
Até ontem, a versão vendida pelo parlamentar à opinião pública — com a empáfia habitual dos que se julgam blindados — era a de que as transações haviam sido "isoladas e encerradas" em maio de 2025. O relatório do Coaf, contudo, não aceita discursos políticos: ele registra fatos. E o fato é que o dinheiro continuou correndo por canais subterrâneos meses após a data que o senador jurava ser o limite intransponível.
O que se desenha não é a produção de uma obra cinematográfica, mas um clássico esquema de simulação financeira com contornos de escárnio. Enquanto Flávio Bolsonaro silencia diante dos microfones ou joga a responsabilidade para a produtora americana, o avanço das investigações sob a relatoria do ministro André Mendonça no STF aponta para uma suspeita muito mais rasteira do que a exaltação de um mito na tela do cinema: o desvio de divisas para o custeio de luxos e despesas pessoais no exterior.
A pressa em blindar o ex-banqueiro do Master e a insistência em negar o óbvio evidenciam o desespero de quem sabe que a linha entre o marketing político e o código penal tornou-se perigosamente tênue. Tratar o eleitorado como uma massa de manobra incapaz de somar dois mais dois é a tática de sobrevivência de uma casta que há muito perdeu o pudor. Mas as datas não batem, os valores transbordam e a verdade, ao contrário das promessas de campanha, costuma deixar rastros indeléveis.
