"DEPOIS QUE ESPANTA A BOIADA, É DIFÍCIL JUNTAR": A Trapalhada Estratégica de André Mendonça no STF
Por José Montalvão
A sabedoria popular do sertão e da vida no campo guarda ensinamentos profundos que se aplicam com perfeição à alta política e ao Judiciário em Brasília. O clássico ditado "depois que espanta a boiada, é difícil juntar" resume a realidade incontornável da gestão de crises: conter o caos generalizado e tentar corrigir um erro de avaliação exige um esforço infinitamente maior do que ter agido com prudência, temperança e equilíbrio desde o início.
No dia a dia, essa expressão retrata o momento em que o controle é perdido por decisões impulsivas. Quando se abre a porteira sem medir as consequências, a informação vaza, o pânico se instala, as desconfianças se multiplicam e reconquistar a ordem torna-se uma missão quase impossível.
Foi exatamente a expressão "porteira aberta, estouro da boiada" que passou a ecoar nos bastidores de Brasília para descrever a condução atabalhoada do ministro André Mendonça no rumoroso caso do Banco Master dentro do Supremo Tribunal Federal (STF). Ao tentar "abarcar o mundo com os braços" e protagonizar uma ofensiva sem o devido cálculo de danos institucionais, o magistrado acabou por deflagrar uma crise imprevisível que agora ameaça tragá-lo no próprio turbilhão que ajudou a criar.
A Abertura da Porteira e o Estouro no STF
Na condição de relator de trechos das apurações ligadas ao Banco Master, o ministro André Mendonça adotou uma postura de força: ordenou que a Polícia Federal identificasse em escassas 72 horas os nomes citados em relatórios e, ato contínuo, derrubou o sigilo de um documento com mais de 200 páginas.
O relatório expôs diálogos e menções ao banqueiro Daniel Vorcaro, atingindo diretamente figuras centrais da República, como o ministro Alexandre de Moraes e o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet. A intenção de jogar luz sobre os fatos ou de encurralar pares na Corte, no entanto, gerou um efeito rebote imediato e devastador.
A Dificuldade de Juntar o Gado: O Reversão dos Fatos
Como ensina a regra do campo, o estouro do gado não escolhe lado para pisar. A tentativa de Mendonça de empurrar o caso a passos largos para o Plenário da Corte acabou por abrir uma fresta pela qual o seu próprio gabinete terminou atingido.
Pouco após a espetaculosa divulgação dos dados, vieram a público mensagens e áudios extraídos do aparelho celular do próprio empresário Daniel Vorcaro. As revelações trouxeram à tona a informação de que o próprio ministro André Mendonça havia mantido encontro reservado com o banqueiro em março de 2025.
O troco institucional não demorou: o ministro Alexandre de Moraes formalizou uma representação contra Mendonça, encaminhada à presidência do STF, apontando indícios de irregularidades e cobrando apuração sobre a conduta do colega de bancada.
Conclusão: O Caos Processual e a Ruína do Controle
A enxurrada de recursos, suspeições, pedidos de impedimento e representações cruzadas que agora assalta a Suprema Corte mostra que a boiada correu para longe do controle do relator. Daqui para a frente, ninguém mais conseguirá recolher os estragos ou fingir normalidade institucional na Praça dos Três Poderes.
Ao tentar abraçar o mundo com os braços e fazer uso de uma exposição precipitada, o ministro André Mendonça produziu o oposto do que exige a magistratura: em vez de pacificação e justiça cética, gerou um tumulto processual sem precedentes. Fica a lição do sertão para a toga de Brasília: quem abre a porteira sem saber para onde o gado vai correr, acaba pisoteado pela própria poeira que levantou!
José Montalvão
Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI - Registro C-002025).
Blog de Dede Montalvão: Analisando as crises da República com o rigor do jornalismo e a lucidez da sabedoria popular!