terça-feira, setembro 08, 2026

Buscar Lulinha na Espanha é “imparcialidade parcial” da Folha, diz pesquisador da Universidade de Liverpool

 Ricardo Ribeiro Ferreira, acadêmico da instituição britânica que estuda postura dos grupos de imprensa corporativa, afirma que abordagem visa equiparar Lula a Flávio Bolsonaro por meio de ilações

Por: Henrique RodriguesPublicado: 07/09/2026 - às 20h56| 7 min de leitura


                 O jornalista e pesquisador Ricardo Ribeiro Ferreira - Foto: Arquivo pessoal


Apublicação de uma reportagem pela Folha de S.Paulo neste 7 de setembro, focada na localização da moradia de “Lulinha”, apelido inventado pela mídia corporativa para Fábio Luís Lula da Silva, na Espanha, acendeu o debate sobre os limites e os enquadramentos da cobertura política no país. Sem que pesem contra o filho do presidente da República quaisquer sanções judiciais, investigações ativas, denúncias ou condenações, e vivendo de forma absolutamente regular em território europeu, o destaque dado ao seu endereço e à caracterização do condomínio gerou críticas quanto à real utilidade pública da pauta no contexto do ano eleitoral.

Para compreender os mecanismos editoriais e os interesses que norteiam esse tipo de abordagem pela imprensa corporativa, entrevistamos o jornalista e pesquisador Ricardo Ribeiro Ferreira. Mestre em Jornalismo e Comunicação pela Universidade de Coimbra, doutor em Política pela Universidade de Edimburgo e Leverhulme Fellow no Departamento de Comunicação e Mídia da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, o acadêmico estuda o comportamento dos grandes veículos de comunicação no Brasil e desenvolveu o conceito de “práticas jornalísticas desdemocratizantes”.

Na entrevista a seguir, Ferreira analisa a ida do jornal à Espanha como um movimento de falsa equivalência moral entre os candidatos à Presidência da República e detalha como as dinâmicas internas das redações perpetuam viéses institucionais.

Qual é a avaliação que o senhor faz da opção editorial da Folha de S.Paulo ao enviar uma equipe para localizar e expor o endereço de Fábio Luís Lula da Silva na Espanha, considerando que não há qualquer impedimento legal ou investigação formal contra ele?

Ricardo Ribeiro Ferreira — “Qual é o intuito desta matéria senão se somar às ilações vazadas e construir, bem como ampliar, a narrativa, até o momento sem qualquer evidência, de que há alguma irregularidade ligada a Lula? Tudo sob uma falsa posição de imparcialidade e balanço… Ir atrás de Lulinha na Espanha, buscá-lo na Espanha, sem que haja qualquer impedimento judicial ou legal para que ele viva lá, é uma ‘imparcialidade parcial’, um ‘dois-ladismo’ que, na prática, beneficia um lado porque, ao substanciar ilações contra Lula e amplificar determinados enquadramentos e narrativas, coloca o candidato em pé de igualdade, ou até em posição mais precária, com seu adversário, contra quem pesam acusações irregulares amplamente mais graves e com evidências mais robustas, como a investigação das rachadinhas, os imóveis milionários comprados em dinheiro e a ligação muito mais significativa com Vorcaro no caso Master.”

Por que grandes veículos de comunicação tradicionais mantêm uma postura de constante tensionamento com o PT e com o presidente Lula, mesmo em cenários onde há ameaças explícitas ao regime democrático por parte da extrema direita?

Ricardo Ribeiro Ferreira — “Os grandes grupos de comunicação, ditos tradicionais, tendem a privilegiar seus interesses econômicos mais até do que as normas e a segurança democrática; arriscam e flertam com grupos autoritários por conta de uma agenda financeira e, algumas vezes, uma birra até infantil com o PT ou com Lula pessoalmente. Esses jornais são controlados por elites empresariais que estão mais preocupadas com ganhos financeiros do que com normas democráticas. Basta lembrar que apoiaram, em sua maioria, o golpe de 1964. Essas preferências, “o que a casa prefere”, como os jornalistas descrevem, inevitavelmente vão moldar grande parte das práticas nas redações e dos conteúdos que são produzidos. São instruções diretas na hierarquia que, por repetição, se normalizam, e depois também se criam percepções de preferências entre os profissionais; muito disso se propaga no automático, como regra não falada, o que define como algo deve ser reportado ou o que deve ser reportado.”

Sua pesquisa envolveu entrevistas com dezenas de jornalistas das principais redações do país. O que esses profissionais relatam sobre a conduta desses veículos em momentos históricos recentes, como a Operação Lava Jato e as eleições de 2018?

Ricardo Ribeiro Ferreira — “Diversas análises de conteúdos de colegas e a extensa pesquisa qualitativa que eu fiz, entrevistando 40 jornalistas de Globo, Record, Folha e UOL envolvidos nas mais importantes coberturas políticas, mostram que esses veículos fizeram, em sua maioria e por muito tempo, uma cobertura acrítica da Lava Jato, comprando vazamentos seletivos e manchetando como fato alegações nunca comprovadas. Isso colaborou para a desestabilização do governo e para o subsequente golpe parlamentar contra Dilma, amplamente apoiado e normalizado por esses jornais, e, claro, para a prisão de Lula. Depois, veio uma cobertura eleitoral em 2018 que normalizou o autoritarismo de Bolsonaro e, em alguns casos, até o protegeu, ao mesmo tempo em que criminalizava o PT e igualava falsamente Bolsonaro e Haddad em termos de corrupção e de extremismo, o que não tem qualquer aderência à realidade.”

Como essas diretrizes institucionais se traduzem no dia a dia da produção de notícias durante um período de disputa eleitoral? Existiam pressões específicas para equilibrar artificialmente a cobertura?

Ricardo Ribeiro Ferreira — “É muito comum fazerem uma campanha indireta ou uma contracampanha, fazerem um apoio estratégico. Por exemplo, jornalistas descrevem ter de fazer retrospectivas e especiais de corrupção do PT, reciclando casos antigos e até processos nos quais os políticos já tinham sido inocentados. Um jornalista usa uma expressão muito peculiar, que virou título de um dos estudos: este profissional descreve que algumas instruções na eleição de 2018 “te forçam a publicar umas merdas”, coisas que, segundo o jornalista, não eram notícia ou não deviam ser amplificadas, como desinformação e discurso de ódio. Isso porque havia constantes pedidos por mais conteúdo de Bolsonaro ou reclamações de que a cobertura estava “muito petista”, quando, na realidade, isso era um reflexo da falta de propostas e da falta de falas de interesse público substancial por parte do campo de Bolsonaro.”

No caso específico de denúncias ou suspeitas envolvendo o entorno da família do presidente Lula, os relatos dos entrevistados apontam para algum padrão diferenciado de exigência probatória em relação a outros grupos políticos?

Ricardo Ribeiro Ferreira — “Talvez muito relacionado a este caso do Lulinha, as entrevistas com jornalistas mostram de forma consistente que a chefia das redações tinha uma preferência por casos de denúncia contra o PT, para os quais não se exigia o mesmo rigor em termos de corroborar evidências, vazamentos e fontes em off… Vale o “vizinho do primo do amigo do tio do motorista do Lula acha que viu algo”, desde que tenha “Lula” no título. Para outros partidos e políticos, a barra era mais alta, disseram alguns entrevistados.”

Como o senhor conceitua esse fenômeno dentro das suas pesquisas acadêmicas e de que forma ele se manifesta no atual ciclo eleitoral de 2026?

Ricardo Ribeiro Ferreira — “Agora, a gente vê esse modus operandi se repetir. Repete-se no caso Master, nos vazamentos do gabinete de guerra de André Mendonça e na mais recente onda contra Lulinha, que, aliás, são investigações que só aparecem em eleição e nunca provam nada, o que esses jornais nunca questionam. Eu conceitualizo isso como práticas jornalísticas desdemocratizantes, porque servem a interesses privados, e não públicos, prejudicam a deliberação pública, favorecem atores autoritários e minam a qualidade da democracia.”

Por fim, quais são os fatores que levam os próprios profissionais de imprensa a perpetuarem esse modelo de cobertura dentro do ecossistema das grandes empresas de mídia?

Ricardo Ribeiro Ferreira — “Esses grandes jornais acabam por incentivar essas práticas e forçar a realização desse tipo de cobertura, seja com instruções diretas, seja por dar espaço a esse tipo de conduta… E então temos jornalistas precarizados que embarcam por temor de perder o emprego, temos jornalistas que concordam com essa agenda, e temos até os que apresentam certas pautas e enquadramentos por verem uma oportunidade para melhorar sua posição e sua carreira.”

https://revistaforum.com.br/midia/lulinha-espanha-imparcialidade-parcial-folha-pesquisador/

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