
Quaest: Lula e Flávio empatam em 41% no 2º turno
Pedro do Coutto
A nova pesquisa Genial/Quaest, divulgada nesta segunda-feira (7) e repercutida por O Globo nesta terça-feira, produz um número capaz de mudar a temperatura da eleição: Lula e Flávio Bolsonaro aparecem empatados em 41% num eventual segundo turno. Mais do que uma igualdade estatística, o resultado revela que a vantagem que o presidente mantinha sobre o principal nome do bolsonarismo praticamente desapareceu justamente quando a disputa começa a ganhar contornos mais decisivos.
No primeiro turno, Lula ainda lidera, com 36% das intenções de voto contra 29% de Flávio Bolsonaro. Augusto Cury aparece com 8%, enquanto os demais candidatos permanecem distantes de uma pontuação capaz de ameaçar a passagem dos dois para a segunda rodada. A fotografia, portanto, é clara: Lula continua na frente, mas já não pode transformar essa liderança em sensação de segurança.
IMPORTÂNCIA DA PESQUISA – É justamente aí que está a importância política da pesquisa. O segundo turno passou a apresentar uma disputa aberta. A Quaest entrevistou 2.004 pessoas entre 3 e 6 de setembro, com margem de erro de dois pontos percentuais. O 41% a 41%, portanto, representa um empate dentro da margem de erro, e não uma vantagem efetiva de qualquer dos candidatos.
Mais importante que o número isolado é observar a trajetória. A vantagem de Lula sobre Flávio no segundo turno vem diminuindo. Agora, desapareceu. Flávio Bolsonaro conseguiu transformar a força eleitoral do sobrenome Bolsonaro em uma candidatura competitiva própria, ocupando o espaço deixado pela inelegibilidade do pai e mobilizando o sentimento de oposição ao governo Lula.
Isso não significa, porém, que sua vitória esteja desenhada. Flávio ainda precisa demonstrar que consegue ser mais do que o filho de Jair Bolsonaro. Seu desafio é transformar a transferência de votos do pai em identidade política própria. A estratégia de confronto com o governo, o Supremo Tribunal Federal e a defesa da anistia pode fortalecer sua base, mas também pode dificultar a conquista do eleitor moderado.
VANTAGEM – Para Lula, o problema é diferente. O presidente não perdeu a liderança no primeiro turno, mas perdeu algo politicamente valioso: a percepção de que teria uma vantagem relativamente confortável contra o candidato bolsonarista numa eventual segunda rodada.
A avaliação do governo será decisiva. A pesquisa mostra uma eleição ainda fortemente polarizada, na qual os eleitores que não estão definitivamente comprometidos com nenhum dos dois polos podem decidir o resultado. E é justamente esse eleitor que ambos precisarão conquistar.
Também seria precipitado decretar a morte eleitoral dos demais candidatos. Embora os números indiquem uma forte concentração da disputa entre Lula e Flávio, fatos novos, desempenho econômico, alianças, crises ou erros de campanha podem alterar o cenário. A eleição ainda está sujeita a movimentos capazes de deslocar votos.
CONTROLE – A contradição central da pesquisa é, portanto, reveladora: Lula lidera, mas não controla a eleição. Flávio empata no segundo turno, mas ainda precisa demonstrar que pode vencer. Os demais candidatos, por sua vez, continuam sem força suficiente para romper a estrutura bipolar da disputa. O dado mais importante da Quaest não é apenas o 41% a 41%. É o fato de que Flávio Bolsonaro chegou ao mesmo patamar de Lula no momento em que a corrida entra em sua fase decisiva. Isso muda o cálculo dos dois lados.
Para o governo, significa que não basta administrar a vantagem do primeiro turno. Será necessário disputar intensamente o eleitor que ainda não escolheu seu lado. Para o bolsonarismo, significa que existe uma oportunidade real, mas também uma enorme responsabilidade: transformar a força herdada de Jair Bolsonaro em uma candidatura capaz de ampliar sua base.
A eleição de 2026, enfim, entrou em uma zona de imprevisibilidade. Lula continua favorito a chegar ao segundo turno. Flávio Bolsonaro já demonstrou que pode chegar em condições de tornar a decisão muito mais difícil. E, diante de um empate na simulação final, qualquer sensação de vitória antecipada pode se transformar em um erro político de grandes proporções.