sexta-feira, setembro 11, 2026

Vorcaro bancou viagens de servidores do BC para o exterior, diz PF

 

Vorcaro bancou viagens de servidores do BC para o exterior, diz PF

Por Raphael Di Cunto, Laura Intrieri e João Gabriel/Folhapress

11/09/2026 às 07:25

Foto: Divulgação/Arquivo

Imagem de Vorcaro bancou viagens de servidores do BC para o exterior, diz PF

Daniel Vorcaro

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro bancou viagens e jantares internacionais para os dois servidores do Banco Central acusados de atuar para favorecer o Banco Master, afirma a PF (Polícia Federal) em relatórios enviados ao STF (Supremo Tribunal Federal).

De acordo com a investigação, Vorcaro teria custeado parte de uma viagem do ex-chefe de Supervisão Bancária Belline Santana junto com a esposa para Paris e do ex-diretor de Fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza para a Disney, nos Estados Unidos.

Nesta quinta (10), o ministro André Mendonça decretou o fim do sigilo de parte dos documentos envolvendo o Banco Master. O levantamento do sigilo ocorreu seguindo uma determinação do presidente do STF, ministro Edson Fachin.

De acordo com Fachin, a medida foi tomada como parte da organização da sessão prevista para a próxima terça (15), quando o plenário deve se reunir para analisar o relatório da PF que aponta Moraes como interlocutor de Vorcaro, e o pedido de nulidade do documento feito pela PGR (Procuradoria-Geral da República).

Segundo a investigação, Vorcaro teria organizado uma viagem de Belline e da esposa para Paris. O ex-banqueiro "tratou diretamente com prestadores de serviços no exterior sobre reservas de restaurantes, recepção e logística, chegando inclusive a encaminhar o contato pessoal do servidor para que a programação fosse finalizada", diz a PF.

Vorcaro orienta duas pessoas que um jantar deveria ser organizado no restaurante Lapérouse e um almoço no restaurante Loulou. "Uma indicação de que os eventos seriam pagos por Vorcaro é o fato de ele indicar que deveriam ser pedidos nos restaurantes bons vinhos e comida", afirma o relatório policial.

O documento cita que Belline e a mulher viajaram a Paris no período das mensagens, mas não indica outras despesas pagas e nem dos valores.

Procurada, a defesa de Paulo Sérgio afirmou que ele custeou integralmente as passagens, a hospedagem, os ingressos, a compra de moeda estrangeira e as despesas feitas com cartões de crédito durante a viagem com a família. Segundo os advogados, a origem dos recursos pode ser comprovada documentalmente.

A defesa de Belini foi procurada na madrugada desta sexta (11), mas não respondeu até a publicação da reportagem.

A defesa disse que a viagem já estava programada para as férias escolares de janeiro e fevereiro de 2024 e que Vorcaro soube dela durante o agendamento de uma reunião entre o Banco Central e a instituição supervisionada. Segundo essa versão, apenas no dia do embarque o banqueiro ofereceu a Paulo Sérgio uma vaga remanescente em um pacote de acesso prioritário aos parques da Disney e da Universal.

Paulo Sérgio teria aceitado a oferta mediante o pagamento de US$ 8.000 em espécie, nos Estados Unidos, a uma pessoa indicada por Vorcaro. A defesa afirmou ainda que ele desconhecia eventual pagamento de US$ 38 mil feito pelo ex-banqueiro ao agente de viagens Leonardo Giunchetti e que não participou, autorizou nem presenciou uma transação desse valor.

A PF afirma ainda que o ex-chefe de Supervisão Bancária do Banco Central receberia R$ 500 mil por mês do Banco Master. Documentos anexados ao processo mostram comprovantes de repasses para ele, no valor total de R$ 3,8 milhões.

A polícia afirma ser o pagamento para favorecer o Banco Master. O servidor e os responsáveis pelo pagamento se defenderam dizendo que se tratava de recursos para um programa de treinamento financeiro de jovens.

O advogado de Belline Santana, Leonardo Palazzi, afirmou em manifestação anterior à Folha que o depoimento do diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, confirmou a atuação funcional e institucional de seu cliente, inclusive na interlocução com a Polícia Federal sobre possíveis ilícitos no Master. A defesa disse que Belline adotou as providências necessárias e negou que Vorcaro tivesse exercido influência sobre ele.

No caso de Paulo Sérgio, a PF diz que "identificaram-se elementos que apontam para o custeio de viagem internacional à Disney para ele e sua família", com base em diálogos entre ele e Vorcaro. O servidor encaminha um roteiro de passeios para o banqueiro.

No relatório, a Polícia Federal afirma que as informações obtidas indicam que os dois servidores do Banco Central "atuaram de forma recorrente na defesa e promoção de interesses privados" de Vorcaro, "extrapolando de maneira significativa, ao que tudo indica, os limites de suas atribuições funcionais no BCB".

"Ambos passaram a oferecer orientação técnica reiterada, revisar minutas de documentos destinados ao próprio BCB, repassar possíveis informações internas de caráter sensível (ou mesmo sigiloso) e participar de reuniões extraoficiais nas quais eram alinhadas estratégias privadas voltadas ao atendimento dos interesses do conglomerado Master", diz a PF no documento.

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