sábado, setembro 12, 2026

O cabo eleitoral do bolsonarismo no STF

 

Mendonça caiu do dark horse


Mendonça caiu do cavalo, ou melhor, do dark horse, que desceu a ladeira desgovernado. Com a quebra de sigilo, veio à tona um grande esquema de financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro por meio de emendas parlamentares aprovadas por deputados bolsonaristas. 


Há fortes indícios de que emendas enviadas por Mario Frias, Marcos Pollon, Alexandre Ramagem, Carla Zambelli e Bia Kicis — todos do PL — foram desviadas para as empresas de Karina Gama.

Mais de R$5 milhões do orçamento público foram parar nas contas das empresas de Karina Gama. Os investigadores
suspeitam que o esquema operou os crimes de peculato, falsidade documental, fraudes em licitações, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

O grupo teria desviado os recursos públicos para empresas subcontratadas ilegalmente, sem comprovação dos serviços prestados. Segundo a PF, dados financeiros apontam a "movimentação da ordem de centenas de milhões de reais entre as empresas que integram o esquema investigado". 


'Não há dinheiro público': mais uma mentira de Flávio Bolsonaro ruiu


Até então, Flávio Bolsonaro vinha repetindo como um mantra: “não há dinheiro público no filme!". Se antes a tese já parecia estapafúrdia, já que Vorcaro enriqueceu desviando dinheiro público, agora ela é absolutamente insustentável.

Aliás, o filme foi tão bem irrigado com dinheiro público que aumentou a suspeita de que a grana enviada por Vorcaro para
o fundo Havengate — gerido pelo advogado de Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto —  não foi usada para o filme, mas para patrocinar a vida nababesca do ex-deputado nos EUA


Na noite de quinta-feira, 10 de setembro, o presidente do STF, Edson Fachin, pediu para que André Mendonça derrubasse o sigilo do caso Master. Foi o que aconteceu, mas parcialmente.

Terrivelmente seletivo, o ministro bolsonarista liberou o sigilo de apenas alguns casos, como os que envolvem o ministro Alexandre de Moraes. Já outros processos permaneceram devidamente escondidos, entre eles o caso que envolve o filme “Dark Horse” e os braços das investigações que envolvem políticos.



No dia seguinte, Fachin atendeu a um pedido da Procuradoria-Geral da República e determinou que Mendonça retire o sigilo de TODAS as investigações que envolvem o Banco Master. Isso inclui as apurações sobre o pedido de R$ 134 milhões que Flávio Bolsonaro fez à Vorcaro. A decisão deve ser cumprida em 24 horas.


Tigrão com os inimigos, tchutchuco com os aliados


"Mas Flávio Dino já não havia derrubado o sigilo desse caso?", você pode estar se perguntando. Explico. São duas frentes diferentes de investigação sobre o financiamento de “Dark Horse”. Dino quebrou o sigilo da investigação que apura desvio de emendas parlamentares, envolvendo Mario Frias; enquanto Mendonça manteve o sigilo sobre o financiamento de Daniel Vorcaro para o filme. 


Trata-se de mais uma investida de Mendonça para proteger a candidatura do seu campo político. A seletividade cirúrgica do ministro não deixa dúvidas disso. Faltando menos de um mês para a eleição,  Mendonça nega ao eleitorado o direito de saber se os milhões enviados por Vorcaro ao fundo americano foram mesmo para o filme ou serviram para custear a cruzada delirante e antipatriótica de Eduardo Bolsonaro nos EUA. 


A seletividade de Mendonça ficou evidente também na hora de investigar seus pares. A promiscuidade das relações entre Dias Toffoli e Daniel Vorcaro foram ignoradas pelo ministro, mesmo com uma cacetada de indícios de irregularidades levantados por um relatório da PF. Mendonça não quebrou o sigilo e empurrou o caso com a barriga por sete meses. Agora com a última decisão de Fachin vamos ver qual a jogada de Mendonça para proteger seus aliados.



Se o ministro bolsonarista foi um tchutchuco com Toffoli, com Alexandre de Moraes foi um tigrão. O jornalista Leonardo Sakamoto foi cirúrgico ao apontar a seletividade do ministro: “Com base no mesmo aparelho celular apreendido e sob a batuta dos mesmos delegados federais, Mendonça exigiu apuração em inacreditáveis 72 horas, decretou sigilo máximo e, quatro dias depois, escancarou o relatório para o mundo". 


Enquanto enrolou o caso de Toffoli por sete meses, o ministro precisou de apenas três dias para escancarar o caso daquele que hoje é o principal inimigo do bolsonarismo.   


Os serviços prestados por Mendonça ao bolsonarismo nos últimos tempos são inegáveis: quebrou o sigilo da investigação que mira o principal adversário do campo, afastou o responsável por investigar o financiamento do filme panfletário sobre Jair Bolsonaro e manteve escondido o caso que envolve diretamente o candidato Flávio Bolsonaro.

Está claro que Mendonça atua no STF com uma agenda eleitoral debaixo do braço. O juiz que decide o que o eleitor pode ou não saber antes de votar não está exercendo a magistratura.
Está fazendo campanha.


Virou novela

“Dark Horse” agora também é uma novela. Os novos capítulos estão ficando mais dramáticos. Depois que a PF baixou nos endereços de Karina Gama e Mario Frias, um personagem coadjuvante da trama apareceu muito bravo com um dos protagonistas. 


O ex-ministro bolsonarista Fábio Wajngarten mandou um recado bem direto para Flávio Bolsonaro pelas redes sociais, sugerindo que ele estaria deixando uma companheira ferida na estrada.

Com a experiência de um advogado que já defendeu Jair Bolsonaro e Daniel Vorcaro, Wajngarten saiu em defesa de Karina Gama — a pobre que comandava quatro empresas, mantinha contratos milionários com órgãos públicos e movimentava milhões. 


O advogado bolsonarista demonstrou indignação com o abandono desta valorosa companheira e concluiu afirmando que entrou “em campo para reconstruir a verdade”. Será que teremos um novo herói que irá proporcionar novas emoções para a candidatura de Flávio? Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

Absolute cinema

Enquanto a novela “Dark Horse” se desenrola, o filme já está pronto. A cinebiografia de Jair Bolsonaro estava programada para ser lançada neste mês, mas o jornalismo do Intercept atrapalhou os planos


Depois da revelação do escândalo, a distribuidora não teve coragem para colocar esse mico nas telas de cinema. O filme de maior orçamento da história do cinema brasileiro, que foi feito para ser uma peça de propaganda eleitoral, acabou na geladeira antes da eleição.


Até agora, apenas pessoas muito próximas de Bolsonaro assistiram ao filme e nem todas gostaram. Segundo uma apuração de Mariana Sanchez, Eduardo Bolsonaro ficou muito irritado por aparecer no filme sendo tratado pelo pai como um idiota. 


A jornalista revelou como é a cena que incomodou o ex-deputado: "Eduardo surge em uma discussão política acalorada com o pai dentro de um carro. Em dado ponto, Jair Bolsonaro ordena que o carro pare. E larga o filho a pé, no meio da rua. Eduardo fica ali, entre furioso e desamparado, até que o carro do pai reaparece: Bolsonaro tinha apenas dado uma volta no quarteirão para pregar uma peça no filho".


A cena não aconteceu na vida real, mas revela o olhar preciso, ainda que pouco sofisticado, do roteirista Mario Frias sobre a relação conturbada entre pai e filho. 


Não deve estar sendo fácil para o ego de Eduardo, que se vê como um herói internacional da extrema direita, aparecer nas telas de cinema como um adulto que se comporta como um adolescente mimado. O ex-deputado ficou tão incomodado que até questionou Frias sobre a inclusão da cena.

Para piorar, quem viu o filme diz que a madrasta Michelle Bolsonaro é retratada “quase como uma santa". Eu não vejo a hora de ver essa obra-prima!

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