domingo, março 01, 2026

Alagamentos expõem falhas históricas no crescimento urbano de Jeremoabo e de pequenas cidades brasileiras

 


Alagamentos expõem falhas históricas no crescimento urbano de Jeremoabo e de pequenas cidades brasileiras



Por José Montalvão


Os recentes episódios de alagamento em bairros como o Conjunto João Paulo II, em Jeremoabo, reacendem um debate que vai muito além das chuvas fortes. O problema não é exclusivo do município. Ele se repete em centenas de cidades pequenas e médias do Brasil que experimentaram crescimento acelerado, porém desordenado, marcado por loteamentos informais e ausência de planejamento técnico adequado.

Ao longo dos anos, terrenos foram comercializados sem escritura pública, sem infraestrutura básica de saneamento e, em muitos casos, localizados em áreas naturalmente vulneráveis a enchentes. A ocupação irregular, inicialmente discreta, ganhou densidade populacional com o passar do tempo. O que começou como pequenas construções dispersas transformou-se em bairros inteiros carentes de drenagem eficiente, pavimentação adequada e áreas de escoamento natural das águas.

Especialistas em planejamento urbano alertam que esse tipo de expansão é silencioso. No início, os impactos não são percebidos. Contudo, à medida que aumenta a impermeabilização do solo — com ruas asfaltadas, calçadas concretadas e residências ocupando quase toda a extensão dos lotes — a água da chuva perde seu caminho natural de infiltração. O resultado é previsível: enxurradas, alagamentos e prejuízos materiais para a população.

No caso específico do Conjunto João Paulo II e de outros loteamentos, as chuvas recentes apenas evidenciaram falhas estruturais acumuladas ao longo de décadas. A canalização excessiva, a redução de áreas verdes e a inexistência de bacias de contenção ampliaram o impacto das precipitações. A urbanização foi conduzida, em muitos casos, sem estudos topográficos, sem análise do regime hídrico local e sem projetos de drenagem compatíveis com o crescimento futuro.

É preciso reconhecer que não se trata de um problema criado da noite para o dia. Grande parte desses loteamentos foi planejada e executada em períodos anteriores, muitas vezes por pessoas leigas ou empreendedores sem a devida responsabilidade técnica. A ausência de fiscalização eficaz contribuiu para consolidar um modelo urbano frágil, que agora demonstra sua vulnerabilidade diante das mudanças climáticas e de eventos extremos cada vez mais frequentes.

Culpar exclusivamente a gestão atual seria uma simplificação injusta. O prefeito Tista de Deda tem sinalizado a intenção de implantar uma comissão técnica especializada para avaliar soluções estruturais. A iniciativa aponta para um entendimento correto: medidas paliativas, como desobstrução emergencial de bueiros ou intervenções improvisadas, não resolvem um problema que é essencialmente de engenharia urbana e planejamento territorial.

A superação desse desafio exige diagnóstico técnico detalhado, investimentos em macrodrenagem, criação de áreas de retenção de águas pluviais e revisão dos critérios para novos parcelamentos do solo. Mais do que corrigir erros do passado, é necessário impedir que eles se repitam.

Os alagamentos não são apenas fenômenos naturais; são, sobretudo, reflexos de decisões humanas. Quando o crescimento urbano ignora a ciência, o território cobra seu preço. E quem paga a conta, quase sempre, é a população mais vulnerável.

O momento exige responsabilidade, planejamento e compromisso com um desenvolvimento urbano sustentável. Sem isso, cada período chuvoso continuará sendo sinônimo de apreensão e prejuízo para as famílias jeremoabenses.

José Montalvão -  Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública,  pós-graduação em Jornalismo proprietário do Blog DedeMontalvão, matrícula ABI C-002025

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