sexta-feira, março 27, 2026

Sob prisão domiciliar, Jair Bolsonaro é afastado da política e fica sob controle de Michelle


‘Política zero por enquanto’, diz Michelle

Bruna Lessa
Luísa Marzullo
O Globo

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro afirmou nesta sexta-feira que o ex-presidente Jair Bolsonaro não deve se envolver em temas políticos durante o período de recuperação após deixar o hospital e iniciar o cumprimento de prisão domiciliar. “Política zero por enquanto. Estou ainda de licença. Estou aqui para cuidar dele. Minha prioridade sempre vai ser meu marido e minhas filhas”, disse.

Bolsonaro recebeu alta hospitalar nesta sexta-feira, após duas semanas internado no hospital DF Star, em Brasília, para tratar uma broncopneumonia decorrente de broncoaspiração, e passou a cumprir prisão domiciliar por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Segundo o médico Brasil Ramos Caiado, da equipe que acompanha o ex-presidente, a evolução clínica recente foi “tranquila, sem intercorrências”.

“PEQUENAS VITÓRIA” – Michelle classificou a recuperação como uma sequência de “pequenas vitórias” e ressaltou a gravidade do quadro enfrentado pelo ex-presidente. “Deus foi bom mais uma vez e livrou meu marido da morte. É uma alegria, é incrível. A gente se alegra nas pequenas vitórias. Eu sei que Deus está no controle de todas as coisas. É o lugar certo: um ex-presidenciável, 71 anos, com todas as comorbidades”, afirmou.

Ao detalhar o episódio que levou à internação, a ex-primeira-dama reiterou que a alimentação na noite anterior não contribuiu para o quadro de broncoaspiração — fator que, segundo médicos, pode influenciar. “Ele tinha até tomado um caldo super leve na noite anterior. Isso realmente foi uma fatalidade” disse.

Segundo ela, o problema ocorreu porque Bolsonaro permaneceu deitado de forma inadequada após se alimentar, o que aumenta o risco desse tipo de complicação. “Ele não pode ficar em decúbito. Ele precisa ter ali esse auxílio. Acho que naquele dia ele entrou numa zona de conforto, ficou reto e acabou tendo uma broncoaspiração de uma quantidade grande de líquido”, relatou.

TRATAMENTO – Michelle também afirmou que o ex-presidente deverá retornar ao hospital no próximo mês para dar continuidade ao tratamento, mas que o procedimento foi adiado porque o pulmão esquerdo ainda não está completamente recuperado. Segundo ela, exames apontaram ainda um quadro grave no ombro, com obstrução de 99%.

“Ele vai ter que voltar para o hospital mês que vem. Não pode fazer agora porque o pulmão esquerdo não está completamente curado. Eu acho que é todo um desgaste da vida dele, das viagens, e se agravou mesmo com a queda. Então como ele toma muita medicação, camuflou. Ele sentia dores e aí resolvemos fazer um check-up e ele está com 99% de obstrução. Então realmente está grave o ombro dele”, disse.

O médico Brasil Ramos Caiado afirmou que a previsão é de que Bolsonaro passe por cirurgia no ombro no fim de abril, seguindo um protocolo de cerca de quatro semanas após a alta da pneumonia.

RESTRIÇÕES – Ao conceder a prisão domiciliar por ao menos 90 dias, Moraes estabeleceu um conjunto de restrições com foco em manter um “ambiente controlado” para a recuperação do ex-presidente, incluindo a suspensão geral de visitas, com exceções restritas a familiares, advogados e equipe médica.

Nos bastidores, aliados avaliam que o novo cenário amplia o poder de Michelle, que passa a concentrar o acesso cotidiano ao ex-presidente dentro de casa. Com Bolsonaro isolado e sem interlocução política direta, a tendência é que decisões sejam filtradas por ela durante o período de recuperação.

Ao mesmo tempo, o senador Flávio Bolsonaro mantém agenda intensa fora de Brasília, em meio à pré-campanha. Embora esteja autorizado a visitar o pai diariamente, por ser advogado no processo, a rotina de viagens deve limitar essa presença. Nesta sexta-feira, ele está nos Estados Unidos e tem participação prevista para amanhã no evento conservador CPAC.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Michelle sabe que Bolsonaro isolado, sob o seu controle, amplia ainda mais o seu poder político, sobretudo em possíveis intermediações com a direita. Além disso, fica claro que se o ex-presidente tentar transformar a prisão domiciliar em centro de debate político, indicará que já está bem e poderá voltar para a prisão. Em tradução simultânea, terá que ficar pisando miúdo para tentar manter o que já conseguiu por determinação de Moraes, ainda que provisoriamente. (M.C)

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