domingo, junho 19, 2022

Na última missão, Bruno Pereira avisou às autoridades que o crime já domina o Javari

Publicado em 19 de junho de 2022 por Tribuna da Internet

Bruno com integrantes da Univaja — Foto: Univaja

Bruno Pereira dando instruções aos indígenas da Unijava

Daniel Biasetto
O Globo

Semanas antes de desaparecer no Vale do Javari (AM) com o jornalista inglês Dom Phillips, o indigenista Bruno Pereira fez uma série de contatos com O GLOBO. “No rio Jandiatuba, foram encontradas 20 balsas no leito do rio, sendo cinco delas dentro da TI Vale do Javari, a menos de 5 km da base da Funai”, disse o indigenista em mensagem de 16 de março, um dia após sobrevoar com a Equipe de Vigilância da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (EVU) o curso dos rios Curuena e Jandiatuba.

Bruno e a EVU mapearam na região 11 pontos de invasão com ao menos 32 balsas ao longo dos três rios, informações que foram enviadas à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal. O indigenista disse, à época, ter convencido a PF da necessidade de uma operação para destruir as balsas. A operação prometida não aconteceu. E Bruno não viveu para cobrar.

PLANEJAMENTO – Durante três meses, a reportagem do GLOBO acompanhou o planejamento do que seria a sétima e última missão de Bruno pela Univaja.

Para além das invasões de caçadores e pescadores ilegais que saqueavam toneladas de carnes de animais da floresta e peixes dos rios da Terra Indígena Vale do Javari, Bruno estava preocupado com o avanço descontrolado do garimpo ilegal pela região nos últimos dois anos. E que já chegava bem perto de onde está o último grupo de indígenas isolados da etnia Korubo, entre outros povos que vivem no entorno dos rios Curuena e Jandiatuba.

A ideia do indigenista era de que o documento enviado às autoridades servisse de base para reconhecimento dos pontos de ação do garimpo ilegal por forças do governo.

ÍNDIOS ISOLADOS – Ao GLOBO, Bruno contou que, em um primeiro voo, identificaram quatro balsas dentro do rio Curuena. No leito do rio Jandiatuba, foram avistadas 20 balsas, cinco delas dentro da TI Vale do Javari. “Bem no território dos korubo isolados”, disse o indigenista licenciado da Funai na ocasião.

Segundo Bruno, a Univaja e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) já haviam solicitado uma barreira sanitária nesta localidade, com uma arguição de descumprimento de direito fundamental enviada ao Supremo Tribunal Federal que cobrava do governo federal proteção aos indígenas durante a pandemia de Covid-19.

— Iremos agora voar sobre um afluente do Jandiatuba atrás de dragas de ferro e mais balsas — contou o indigenista no retorno da primeira expedição. —É gravíssimo isso. Vem sendo denunciado pela Univaja há um bom tempo. A construção de barreiras sanitárias na região não foi feita.

IMPÉRIO DO CRIME  – “Houve um concurso temporário da Funai em que contrataram mais de 700 pessoas, e ninguém foi destinado para a região. Aí está o resultado. O espaço que não é ocupado pelo Estado é ocupado pelos bandidos” — disse Bruno ao GLOBO, dois meses e meio antes de se juntar a Dom Phillips na embarcação em São Rafael, dia 5 de junho.

O indigenista conhecia bem a região que sobrevoava. Havia liderado em 2019, quando ainda era coordenador-geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai, uma expedição de contato de povos isolados, a maior dos últimos 20 anos. Também em 2019, Bruno montou uma operação da Funai, em conjunto com o Ibama e a Polícia Federal, que resultou na destruição de 60 balsas do garimpo ilegal.

Bruno contou que a Univaja vinha pedindo providências à Superintendência da PF no Amazonas para conter o garimpo desde 2020.

ABANDONO TOTAL – “Há ofícios pedindo atenção para região, que denunciam atuação do garimpo na RDS Cujubim. O Curuena também fica nesse local, e é limítrofe com a TI Vale do Javari. A Univaja já tem pedidos há mais de um ano e meio enviados à PF, ao Exército, ao STF, e deixam chegar nesse nível” — disse Bruno, enquanto narrava o esforço empregado para convencer a PF da necessidade de uma nova operação para expulsar os garimpeiros.

O GLOBO teve acesso aos ofícios e aos e-mails enviados pela Univaja desde outubro de 2020, confirmando as denúncias às autoridades. O ofício de número 72, destinado ao delegado Alexandre Saraiva, já apontava para registros da presença do garimpo ilegal e de missionários na aldeia Jarinal, outra preocupação de Bruno.

A Univaja voltou a procurar a Superintendência da PF em 16 de março deste ano. A PF acusou recebimento do ofício duas semanas depois, informando a abertura de processo e envio à delegacia de Tabatinga “para conhecimento e providências”.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – A advertência de Bruno Pereira, um brasileiro de verdade, deveria ser inscrita na entrada da sede da Funai: “O espaço que não é ocupado pelo Estado é ocupado pelos bandidos”. E isso tem de acabar, para que o Brasil volte a ser uma nação respeitável perante o resto do mundo. (C.N.)

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